A poucos metros da minha casa está uma mercearia que se estabeleceu no final dos anos sessenta no lugar onde deveria estar a garagem do prédio. Aberta por dois casais da província que até hoje se revezam mês a mês entre “a terra” e o negócio, esta obscura loja desde então jamais teve qualquer incremento ou renovação. À excepção do leite do dia e da fruta, da qual se aconselha desconfiar da condição, tudo lá dentro é sujo, caro e bafiento. A falta de alternativa a menos de um quilómetro de distância e principalmente a venda “a fiado” permitiu-lhes durante estes anos fidelizar uma freguesia certa mesmo com preços exorbitantes. Com o passar dos anos além doutras casas e prédios, mais comércio floresceu por ali e recentemente nasceu até um sofisticado Centro de Saúde da rede do ministério.
Acontece que por estes dias, do outro lado da praceta progridem imparáveis as obras dum moderno supermercado que comprometerá definitivamente as aspirações dos meus vizinhos merceeiros. Mas não se lhes nota qualquer apreensão ou ansiedade: as donas de casa e reformados continuam a ali parar, entre uma visita à tabacaria e ao café do lado, para dois dedos de conversa e um litro de azeite. E como ironia do destino estabeleceu-se uma cúmplice relação entre os donos do lugar e o pessoal das obras, quais condenados a conviver com os seus carrascos, que ao fim do dia ali se sentam nos caixotes da fruta a beber cervejas não sei se fiadas ou com algum desconto. Certo é que esta será uma das últimas cartadas destes modestos imigrantes de província: estagnados numa esquina da vida, trinta e tal anos chegaram conquistar uma velhice modesta e resignada. Desconfio que muito em breve voltarão para a terra cavar umas batatas e apanhar umas azeitonas a ver o sol poente.
Essa história faz-me lembrar uma pessoa de família, na altura deputado aquando da primeira lei que regulou os centros comerciais, pois o nosso parlamento considerava que os centros comerciais era moda que não ia pegar, que nos países civilizados o grande centro de comércio eram as lojas de bairro!
ResponderEliminarQuão estavam enganados, e quão somos nós portugueses diferentes das nações da boa razão...
ResponderEliminarNão lhe percebi o comentário mas pareceu-me estranhamente que classifica o "amealhar e voltar para a Terra" como uma desistência da vida.
ResponderEliminarSe assim for e seco, recomendo um pouco de taoismo para sua própria felicidade, se não, repare-me pff.
Se mais comércio geminou...
ResponderEliminarCaro João.
ResponderEliminarO mais paradoxal é que provavelmente o casal de velhotes dessa loja, à data da reforma terá os seus 100 ou 200.000€ no banco amealhados numa vida e os seus descendentes diplomados que trabalham para essas cadeias já multinacionais vivem uma vida artificial sustentada pelo crédito bancário...
Faz lembrar o Portugal do tempo de Salazar pequeno e pobre com reservas em ouro consideráveis; e o Portugal moderno super endividado, progressista, cheio de auto-estradas e pontes mas sem um tostão furado e à beira da bancarrota !
Não aprendemos nada; se outrora fomos o 8 hoje somos o 80, podíamos bem ter sido o 40 mas se calhar já não éramos Portugueses, éramos outra coisa qualquer...
Não podemos comparar as lojas de bairro da Europa Média (França, Norte de Itália, Áustria, etc) com o nosso dito «comércio tradicional». É que não há comparação possível. Ainda hoje em dia temos lojas manhosas nos centros nobres das nossas cidades, que se aguentem graças a rendas baixas. Quando lá fora há mercearias gourmet, aqui há tascas com madeira roída pelo bicho, falta de higiene e gente feia e sem educação; quando lá fora há pastelarias e salões de chá bem decoradoss e com música clássica ou jazz, aqui há cafés com cadeiras de plástico degradadas pelo sol e um enorme plasma para o futebol.
ResponderEliminarNão exageremos, há muita loja de bairro de qualidade nas nossas urbes... e as tascas têm o seu je ne sai quoi!
ResponderEliminarhttp://dn.sapo.pt/inicio/interior.aspx?content_id=1173373
Começam a surgir alguns projectos interessantes, muitos até levados a cabo por jovens licenciados. Mas ainda são casos muito excepcionais. O poder de compra da nossa população, as ditas «rendas antigas», o despovoamento dos centros, a falta de bom gosto da maior parte dos consumidores e a cultura do centro comercial são factores que não ajudam.
ResponderEliminarConcordo consigo caro Nuno. Abraço
ResponderEliminarCaro Paulo: Não sei como conclui que tenha amealhado algo. Quanto a mim. mais do que desapego esta estranha forma de vida liga-se mais com mediocridade. Como refiro no texto, eles serviram mal a comunidade, fizeram os serviços mínimos: produtos rançosos e caros, aproveitando-se da falta de dinheiro dos outros com a usura (fiado).
ResponderEliminarUma história de mediocridade e conformismo, Maria.
ResponderEliminarCaro João, a resposta foi ao comentário do mcm que parece ter acusado que a "simplicidade" das pessoas que humildemente fazem a sua vida e regressam à terrinha, não prestam contributo à sociedade.
ResponderEliminarComo ruralista que sou não concordo com categorizações negativas sobre as pessoas baseadas no simples facto de terem emigrado, fazerem a sua vidinha e regressarem.
Aliás, o melhor contributo que se pode prestar à sociedade é ser feliz.
Agora, claro que se um merceeiro, tal como qualquer negócio, não fizer esforços por se adaptar e evoluir, não tem nada que se queixar da evolução dos outros.
Mas pelo texto, não vi essa "queixa".
Abraço.
Perto de mim há uma assim: tal e qual. Sempre me espantou a sobrevivência destas lojas rançosas de bairro anos a fio, geralmente mercearias.
ResponderEliminarO que mais espanta nem é a ambição de amealhar para se reformar na "terra", o que compreendo. Mas a capacidade de viver décadas, dia após dia, e bem mais de 8 horas diárias, muitas delas mortas, rodeados de precariedade e fealdade, quando não sujidade, sem o impulso de fazer um melhoramento no seu ambiente, seja num toldo novo, uma pintura, um expositor ou simples gosto por apresentar a fruta e legumes arrumados e bonitos ( o que não sai caro havendo, como há, tempo)...
Olá João Távora
ResponderEliminarMuito obrigada por me responder e, acima de tudo, por me ler e me perceber.
Hoje em dia as pessoas passam pelas letras e não se preocupam em tentar perceber o que lá possa estar escrito...
É a era da velocidade!
Eu gosto das pessoas simples mas com uma visão de futuro à sua frente.
As pessoas, em geral, entendem que o «ter» é o que conta.
Descuidam o «ser» e afinal é a única coisa que conta.
Fique bem
Maria Morais
Exmº Senhor João Távora...
ResponderEliminarCreio ser aparentado do Senhor Marquês de Pombal...GRANDE HOMEM sem dúvida e filho de um Tanoeiro da Provincia...Concerteza que também apreciavam azeitonas ao por do sol...Quem não gosta de tão saudável cenário...????
aceite os meus cumprimentos
meu nome segue em cima
São Católicos que falam aqui?Vão á missa?Monárquicos?????Duvido das 3 perguntas...
ResponderEliminarMaldade
Hipocrisia
O Rei sempre foi sustentado pelo povo...
Vão trabalhar...Frequentei casas como as vossas...Saí sempre enjoado com o cheiro a bafio e a falta de higiene a que obriga o vosso novo estatuto...O de " sem criados" porque não há cheta nem povo que vos sustente...Toparam o jogo e deram de frosques...Agora estão em minha casa bem nutridos e amigos do coração...Adoro os vossos criados e meus amigos no presente...
atenciosamente
alexandre frade correia um íncola das Beiras....