Numa cultura que exalta os direitos em detrimento dos deveres, em que se venera a imagem, o prazer e a juventude, os velhotes estão basicamente tramados. Pouco interessa que diariamente na cidade eles se descubram cadáveres abandonados, quem sabe à custa do cheiro da putrefacção, que a amargura é inodora e o sofrimento silencioso.
O assunto não é mediático, dificilmente sai do círculo dos voluntários e da paróquia, quando alguém os acompanhou nos últimos dias de desamparo e solidão: inestético, exala a morte e espelha cruamente uma sociedade hedonista e decadente, cuja solidariedade apenas se move por poderosos lobbies de interesses e causas da moda.
Com a família e comunidade tradicional em acelerada fragmentação, os velhos serão cada vez mais um problema por resolver, e afianço que a última coisa que me preocupa é a higiene pública: aflige-me a desumana solidão a que eles vão sendo votados, pela voracidade e dinâmica urbano-consumista.
A campanha para a mercantilização da solidariedade aos idosos que a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa vai lançar no final do mês, prevê a atribuição de subsídios àqueles que se dispuserem a acolher um idoso na sua casa. Acredito este programa, perante o trágico panorama de sofrimento e solidão de milhares de velhos, seja porventura um mal menor. Se não forem causa de ignóbeis oportunismos, talvez os seiscentos euros sejam bem empregues e sirvam para alugar uns meses ou anos de decoro e… companhia. Uma detestável realidade que nos devia questionar e envergonhar a todos.
Porque já são velhos e nós estivmos com eles, escrevemos;
ResponderEliminarsem duvida e assino por baixo.
ResponderEliminarO nome da campanha chocou-me um bocado, que é "adopte um idoso". Parece uma daquelas campanhas em que se adopta um animal, como vi recentemente em Inglaterra, e que se chamava "adopte uma pantera", a propósito das panteras da Amazónia. Realmente o fenómeno em si é uma vergonha mas a própria campanha também é um sinal dos (maus) tempos.
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ResponderEliminarEm Trás-os-Montes essa prática já é antiga. É a galinha dos ovos de ouro para muita gente. Até há lista de espera para receber os idosos, tal é a concorrência da oferta de casas. Acredito que se encontrem pessoas bem intencionadas, mas, infelizmente, os casos que conheço são puro comércio.
ResponderEliminarNão acredito. Não consigo acreditar.
Está na cara que só o dinheiro fará as pessoas candidatarem-se a receber idosos em suas casas.
E se os lares estão obrigados a isto e mais aquilo, tanto na vertente do pessoal que lá trabalha como das instalações, havendo constantemente notícias de infracções que levam até ao seu encerramento, é em casas particulares que vai haver fiscalização adequada?