segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Autocarro 92

Às vezes, é nos lugares mais inesperados que encontramos motivos para gostar de Portugal. Nos últimos meses, voltei a ser utilizador de autocarros e fiquei surpreendido com o salto de qualidade que deram (pelo menos nos percursos e às horas em que ando neles),comparando com as minhas últimas experiências, que já datavam de há um bom par de anos. Um dos que me transporta é o pequeno 92, que vai do Terreiro do Paço ao Príncipe Real, atravessando agilmente o Bairro Alto pela da Rua da Rosa.


Hoje, ao chegar à Calçada do Combro, várias senhoras de certa idade entraram, bem dispostas, apesar de se queixarem do frio, cumprimentando alegremente o motorista, que retribuía, reconhecendo-as pelo nome. Quase a fechar a porta, duas dessas senhoras põem-se em alvoroço. "Espere, espere, que vem aí a Dona Salomé!". "Estava a ver que ela hoje não vinha", respondeu o condutor, também ele bem disposto, embora se tivesse queixado do trânsito na Rua do Alecrim neste final de tarde de trabalho. A Dona Salomé sobe a custo para o autocarro, com a sua muleta, sorridente. O motorista pergunta se ela não se quer sentar, ela diz que não, vai sair logo a seguir. A Dona Salomé é negra e não demonstra grandes posses, mas é tão "dona" como qualquer das senhoras que ali vão cavaqueando com ela e umas com as outras. satisfeitas pelos breves momentos de convívio.Sai, despede-se com um "até amanhã" correspondido por todos os passageiros  (menos por mim...) e motorista, a conversa das que restam prossegue até à paragem final. Eu também saio, com pena de não compartilhar daquela intimidade alegre, mas contente por  ter visto um lado bom dos portugueses, que tanta vez fica ocultado pelos nossos sempre citados defeitos.

14 comentários:

  1. Então não se responde porquê?14 de dezembro de 2009 às 20:21

    O sr. Calvão é um racista, é o que é.

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  2. O sr. Calvão devia ler mais o mundo real e menos a internet e os comentadores de jornais. É que as pessoas são mesmo assim...

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  3. Racismo? Porquê? Apenas constatou a igualdade. Está implícito na frase que as coisas nem sempre foram assim e houve racismo antes? Está. O autor até mostra algum espanto pela igualdade? Sim. Mas isso não é racismo, é constatar os factos e contentar-se com a igualdade.

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  4. A Dona Salomé é negra(...) Sai, despede-se com um "até amanhã" correspondido por todos os passageiros (menos por mim...)

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  5. Ainda bem, JMCerdeira, que percebe que não é costume uma pessoa se despedir com "até amanhã" de alguém que não conhece e que talvez não volte sequer a encontrar. Mas não ligue à aparente iliteracia dos anónimos. São só provocações. Já estou habituado e imune.

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  6. Correspondido por TODOS os passageiros (menos por mim)

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  7. A carreira 96 é ainda melhor.

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  8. Respondendo ao comentário que acusa o autor de "racista"...

    Em momento algum se sentiu um pingo de racismo... muito pelo contrário... foi uma descrição brilhante, bem humorada e que atingiu na perfeição a intenção de retrato desses momentos tão felizes, muitas vezes encontrados em pequenos trajectos ou em pequenos momentos!

    Da minha parte, parabéns Duarte Calvão. Gostei muito deste texto. Li-o, do princípio ao fim com um grande sorriso na cara. E estando eu a viver fora do nosso Portugal, as suas palavras fizeram-me, também a mim, lembrar que os portugueses têm igualmente "um lado bom", não sendo esse amontado de defeitos como muitos os caracterizam diariamente.

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  9. Obrigado, Rafaela. Alguém que me compreenda...Só é pena que esteja fora do País.

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  10. Podem sempre trocar mails...

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  11. Como dizemos cá no Norte. És burro ou fazes?

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  12. Se eu fosse à D. Salomé, tinha dado com a muleta na tola de quem não me respondesse.

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  13. Não julgue que eu não tive essa hipótese em consideração.

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  14. felizmente ainda há humanidade nas pessoas, que se vão conhecendo no dia-a-dia, mesmo que seja por breves e fugazes momentos.
    tb frequento os transportes públicos e assisto diariamente a esse "convívio" entre as pessoas, o que mostra que nem todos são frios e interessados em viver apenas a própria vida.
    bom post.

    p.s. ao contrário do que foi dito não notei nenhum tipo de sentimento racista aqui descrito.

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