sábado, 5 de dezembro de 2009

A conquista da Liberdade como paradigma de progresso

Sabemos como a Liberdade, o valor mais caro à humanidade, é um bem precário, quando não uma vã miragem. Os filósofos, escritores e cientistas há muito que sentenciaram um prognóstico: a contingência Humana é desde logo uma incontornável limitação aos seus profundos ensejos de realização, cabendo ao domínio do espírito a resolução desse problema. 


Mas se este tema em sentido filosófico é uma questão complexa e subjectiva, a abordagem que hoje aqui faço é duma perspectiva bem mais prosaica e vital: refiro-me àquilo que  uma sociedade evoluída pode e deve fazer pela promoção dos requisitos mais primários da Liberdade. 


Um Estado paternalista que proporciona uma educação deplorável e um ensino inadequado, um país que exibe dramáticos níveis de iliteracia e ausência de pensamento lógico, está longe de promover a autonomia aos seus cidadãos. Não há  verdadeira liberdade sem exigentes critérios de escolha. Mas o mais trágico é quando a jusante, essa pretensa liberdade é definitivamente comprometida pela pobreza e pela miséria dos milhões de portugueses que vivem entre o desemprego e o trabalho indiferenciado. Só se estivermos muito distraídos é que não reparamos que há muitas pessoas que ao fim-de-semana têm que optar entre um café e um maço de tabaco e os bilhetes de transporte para um passeio em família. Demasiados portugueses não têm possibilidade nem apetência para comprar um livro, muito menos têm orçamento para consertar o Magalhães avariado do seu filho. Só se estivermos distraídos é que não reparamos naqueles que vivem a  humilhação de terem de passar ao largo da farmácia ou a mercearia do bairro onde devem uma conta calada. Enfim, é preciso vivermos numa redoma para não nos cruzarmos com pessoas que passam o vexame da impotência em prover a sua família de condições de subsistência razoáveis. 


Para lá dalguns privilegiados funcionários do Estado, em Portugal impera meio país acossado pelo medo que a crise lhe bata à porta, e outra metade que não tem condições económicas dignas. Ou seja, que não é verdadeiramente livre. 


De resto a realidade portuguesa é no mínimo esquizofrénica: esta opressão convive paredes meias com sofisticadas infra-estruturas de alcatrão e betão, e sob a promessa de um moderno aeroporto e linhas de alta velocidade que poucos portugueses terão possibilidades de algum dia usufruir.  E não me venham com acusações de catastrofista ou de profeta apocalíptico: com o vicioso modelo de desenvolvimento escolhido, assistencialista, igualitário e desresponsabilizador, não se vislumbra solução: nos dias que passam a luta dos portugueses é pela sobrevivência individual e como povo, quando deveria ser pela conquista sua da Liberdade. 

9 comentários:

  1. Bela perspectiva, pertinente texto.

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  2. João Paulo Magalhães6 de dezembro de 2009 às 01:03

    Assusta constatar que vozes como a sua estão afastadas da discussão política mainstream. O conteúdo do seu post é uma novidade para a esmagadora maioria dos portugueses. Ao ouvirem isto, reagem na maior parte das vezes com desatino, e o político que ousar dizê-lo
    estará a ser "corajoso", como o maquiavélico Humphrey ensinou a Jim Hacker. Realmente, nestas condições não há muito por que ter esperança.

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  3. O Magalhães nunca se avaria. Já vi o Hugo Chávez demonstrá-lo inequivocamente.

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  4. Excelente texto, caro João. Permita-me a desfaçatez de o "roubar" lá para o burgo.

    Um abraço

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  5. Platão, na sua referencia aos grandes valores da humanidade, tenho ideia que falou da justiça e da verdade. Quem sabe se, no seu elevadissimo pensamento, não consideraria a liberdade como um derivado desses outros dois valores? Precisamente aqueles de que tanta carencia as sociedades ditas livres têm.

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  6. Caro João Távora,
    Sou um seu leitor e é com muito gosto que costumo ler os seus textos.
    Quanto a este, tenho algumas objecções: ter fome e poder dizer mal do governo é diferente de ter fome e não poder dizer mal do governo. Há condições económicas que influenciam a liberdade de escolha, mas há uma grande diferença entre ter dinheiro para ir passar um fim de semana a um hotel de luxo ou estar proibido de lá ir (até sob a cominação de uma pena), como lembra Berlin.

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  7. Caro Leitor habitual:
    Claro que a liberdade possui um inalienável valor intrinseco. Neste texto apenas pretendo chamar a atenção para a questão da qualidade dessa liberdade. Parece-me que sob essa perspectiva suspeito que estejamos a recuar.
    Cumprimentos

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  8. No Agny Yoga diz-se que a liberdade é o adorno da sabedoria. Se esta estiver ausente, que acontecerá aquela?

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  9. Tem razão Simbolo. Se a sabedoria está ausente não há liberdade mas sim libertinagem: a melhor forma de liquidar a primeira.
    Cumprimentos

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