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terça-feira, 16 de junho de 2020

No início eram os Genesis

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Poderia justificar estas linhas com os 50 anos da publicação do primeiro álbum de originais do Genesis, o Trespass de 1970 (From Genesis to Revelation, de Março de 1969, é na verdade uma colectânea de singles), mas a ideia veio-me à cabeça por causa de uma velha disputa entre facções musicais, que recentemente ressurgiu em pequeno comité nas redes sociais: de um lado, os puristas da pop anglo-saxónica de 4 minutos, um bom poema com um refrão repetido duas vezes; e do outro lado, os que — alegadamente — se deixaram iludir ou corromper por um estilo «burguês» e pretensioso, o do rock «progressivo» ou «sinfónico», uma moda emergente nos anos 70, durante a tremenda explosão comercial da pop juvenil consumida em rodelas de vinil divulgadas em programas de rádio em Frequências Modeladas (FM; com um som muito aceitável).


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Amarrados a preconceitos e teorias, os sectários não se permitem pensar e usufruir livremente da realidade que os ameaça, mas o pior é quando tentam impor a outros as suas próprias amarras. De resto, não é salutar dispormo-nos apenas a escrever coisas com o intuito de salvar o mundo, a pátria ou o destino em geral, tanto mais que o destino em geral, a pátria e o mundo não são de se deixar salvar assim — eu que o diga. Parti para este escrito com a noção de que ele pouco mais é do que uma insignificante homenagem aos Genesis de Peter Gabriel, Steve Hackett e Mike Rutherford, Tony Banks e Phil Collins (todos nascidos em 1950, à excepção de Phil, que é de Janeiro de 1951), na minha opinião uma das mais bem-sucedidas reuniões de talentos musicais que aconteceram na Inglaterra da primeira metade dos anos 70. Um agradecimento pelas muitas horas de puro prazer que me proporcionaram — a música que amamos escutamo-la sempre sozinhos, mesmo quando acompanhados. Acontece que foi nesta primeira fase e com esta formação que a banda publicou os seus quatro melhores álbuns: Nursery Crime de 1971; Foxtrot de 1972; Selling England by the Pound de 1973; e — a cereja no topo do bolo — The Lamb Lies Down on Broadway de 1974 (as capas destes discos davam uma outra crónica). Mas tenho a noção de que qualquer proselitismo a propósito de gostos e preconceitos musicais adquiridos na juventude é completamente inútil (o proselitismo é, aliás, sempre, uma inutilidade) — o mais que podemos ambicionar é obter de alguém muito amigo, mulher ou filho, tolerância, condescendência e às vezes simpatia para com a nossa obstinação. Então, no âmbito da música popular em que as adesões são essencialmente sensuais, instintivas e sentimentais, as nossas afeições são dificilmente transmissíveis a terceiros por via racional ou teórica, tanto mais que elas em geral se tornam um fenómeno narcísico, num processo de identificação em que o ouvinte, a obra e os artistas se misturam, tornando-se essa aderência numa forma de afirmação do indivíduo perante o grupo e a comunidade em que ele se deseja afirmar. Mas não é esse o caso da música dos Genesis, como tentarei explicar à frente. Prová-lo é desafio que reconheço perdido à partida: quem, como eu, gosta deles lendo este artigo continuará a gostar — espero que de uma forma mais sustentada; mas quem tomou partido contra (sempre se recusou a ouvi-los), pelas razões erradas continuará a fazer-lhes ouvidos moucos. Tenho sinceramente pena destes.


Os Genesis e o contexto musical da época. Equívocos e rótulos


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Tendo nascido em 1967 de um grupo de estudantes da Charterhouse School, um colégio interno no Surrey, fundado no século XVII, desde o início os Genesis tinham um critério muito exigente de selecção dos seus elementos e depressa deixaram de ser uma banda de amigos. Aquilo era malta que gostava de fazer boa música. À sua maneira, qualquer um dos seus cinco elementos — Peter Gabriel (voz, flauta, percussão e quase sempre o autor das letras), Steve Hackett (guitarra clássica e guitarra solo), Mike Rutherford (baixo, guitarra e coros), Tony Banks (teclas) e Phil Collins (bateria e coros) — é absolutamente brilhante, mas o resultado do conjunto era muito superior à simples soma das partes. A capacidade que tinham de compor em grupo e depois, com os arranjos e na execução, fazer sobressair o que de melhor cada um tinha para dar era o grande trunfo desta banda -isso justifica que então, a assinatura das faixas dos seus álbuns, letra e música, fosse sempre assumida pelo grupo, "by Genesis". Em palco as exibições roçavam a perfeição como se fossem resultado duma performance de estúdio, apesar da complexidade melódica dos temas.


Um aparte para fazermos referência a Anthony Philips, um dos fundadores da banda, que a tendo abandonado logo após Trespass (li algures que sofria de ataques de pânico em palco), cuja influência perdurará por muito tempo. Consta que é da sua autoria «The Musical Box», o tema de abertura do álbum Nursery Crime, uma das músicas mais emblemáticas do grupo, contribuindo muito para que os Genesis se tornassem uma banda de culto. Era uma banda de concertos, calcorreavam muita estrada e faziam sucesso entre estudantes universitários, apesar do seu PA (sistema de som) medíocre — com o tempo, extravasaram das ilhas para o continente, obtendo os seus concertos assinalável êxito em França, Itália e Alemanha. O posicionamento de cada um num local fixo do palco, cada qual concentrado no seu papel com vista a um espectáculo total e envolvente, musicalmente muito rico e minucioso, tornou-se imagem de marca. Os seus primeiros discos, que venderam mal aquando do lançamento, foram sendo descobertos retroactivamente pela legião de fãs que granjearam a partir de Foxtrot. O álbum Nursery Crime subia ao primeiro terço da tabela de vendas de LP em Itália em 1975 — quatro anos depois da sua publicação —, apesar da dificuldade das suas músicas excessivamente longas passarem nos programas populares de rádio.


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Foi de uma postura austera em palco destes artífices da música que começaram a destacar-se as irresistíveis pantominas e disfarces com que Peter Gabriel ilustrava trechos vocais e pequenas canções com histórias e sortilégios, poemas impenetráveis, quantas vezes mero pretexto para uma ilustração vocal, como defendeu certa vez Jorge Lima Barreto numa crónica. Tenho para mim que a maneira de Gabriel actuar em palco — um protagonismo que se tornou motivo de incómodo crescente para os outros —, o seu recurso que a representações e adereços aparatosos, era também um expediente para tentar disfarçar a sua timidez no centro do palco. O certo é que os espectáculos cada vez mais sofisticados avassalavam as audiências e tornaram-se emblemáticos. 


1540-1.jpgCurioso é notar que os Genesis desta formação genial raramente produziram temas românticos, ou «canções de amor»: as letras de Peter Gabriel carregadas de referências literárias, de William Blake a T. S. Eliot, eram plenas de humor, ternura, sarcasmo e ironia mas nunca de «romance». O cantor, não sendo propriamente o líder da banda, entrava no palco para representar diferentes personagens, depois saía ou escondia-se na sombra a tempos, para todos os seus colegas brilharem nas partes instrumentais em que tinham o seu papel e espaço de afirmação. Talvez o mais injustamente discreto fosse Phil Collins (é dele o único tema romântico desse período desta fase, «More Fool Me», uma canção melosa de três minutos, boa para namorar) apesar da sua bateria intensa e vigorosa nunca se cingir à estrita marcação dos ritmos. Ironicamente, Phil Collins irá substituir Peter Gabriel como vocalista e surpreendentemente revelar-se competentíssimo compositor de canções para rádio e discoteca, afirmando-se de alguma forma o novo líder da banda.


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Simplista é a tentativa dos detractores dos Genesis em rotular linearmente o período 1970-75 de «rock progressivo» ou «sinfónico», grosso modo definido por temas instrumentais longos, construídos sobre uma pequena melodia, mais ou menos «planantes» e eufóricos, com muitos sintetizadores e demais artifícios. Se quiséssemos acusar de decadência a mera pretensão da música pop se sofisticar, teríamos de recuar a SgtPepper’s Lonely Hearts Club Band dos Beatles (1967) e Pet Sounds dos Beach Boys (1966). O antepassado dos sintetizadores, o fascinante Melotron, instrumento de teclas que reproduzia acordes de orquestra ou de coros polifónicos, é utilizado pela primeira vez pelos Beatles no início de «Strawberry Fields Forever» em 1967. Poderíamos chamar pretensiosa a última fase dos Beatles em que se destaca claramente o Álbum Branco como obra-prima? Talvez, mas seria injusto. E é legítimo apelidar de pretensioso o estilo esmerado dos King Crimson, Brian Eno ou, coisa tão diferente, os primeiros álbuns dos Pink Floyd na exploração de sensações sonoras? Talvez, mas seria igualmente injusto, porque todos esses são projectos experimentais de música que expandem, confundem e baralham o conceito de música popular — pretensiosismo e ambição são coisas distintas. Claro que durante os anos 70 usou-se e abusou-se de sintetizadores e compunham-se músicas intermináveis sem grande coerência, toneladas de decibéis e fogo-de-artifício para épater les bourgeois, o mais das vezes com o seu sentido crítico diminuído por estupefacientes. É também neste sentido que os Genesis se distinguem de qualquer onda «psicadélica»: a sua performance meticulosa e fiel a composições e arranjos sofisticados, permitindo à audiência abandonar-se a experiências em moda naqueles anos, exigia aos seus elementos um grande esforço de sobriedade e tecnicidade. Os Genesis, no auge do psicadelismo e da música de intervenção, era uma banda de caretas — ora, isso hoje é para mim é um consolo. O seu produto final era apenas a música. E a verdade é que, se a maior parte dos vinis que guardo da minha juventude faço-o por sentimentalismo, poucos são os que ouço com tanto deleite quanto estas quatro obras dos Genesis.


Antes de passar àquela que considero a sua obra-prima (só comparável em mestria com o tema «Supper’s Ready» de Foxtrot), sugiro um pequeno roteiro de três músicas a título de iniciação aos Genesis, não impeditivo que se explorem outras, quase tão geniais quanto estas:



«The Musical Box» de Nursery Crime — um tema com cerca de 10 minutos, em que os solos vigorosos de Steve Hackett a roçar o hard rock contrastam com o acento erudito das teclas e a teatralidade da vocalização de Peter Gabriel. Uma história surreal sobre o amor entre duas crianças, Cynthia e Henry, e uma caixa de música enfeitiçada, inspirado nos contos de William Blake e nos contos de Lewis Carroll. 



«Supper's Ready» — ocupa praticamente o lado dois de Foxtrot, que foi a consagração da banda. Esta música, uma das mais aclamadas nos concertos ao vivo, é uma espécie de suite, com sete secções bem demarcadas onde várias canções se cruzam como árias, formando um empolgante, coeso e crescente hino, cuja letra cheia de nonsense e referências indecifráveis, resumidamente retrata uma batalha do Bem contra o Mal, terminando numa apoteótica citação do Livro do Apocalipse.



«Firth of Fifth» — um dos temas mais «progressivos» dos Genesis, onde se destacam as teclas de Tony Banks e um dos mais emblemáticos solos de guitarra de Steve Hackett. Um tema melancólico, uma espécie de pastoral com 9 minutos de puro deleite e poucas palavras (de Tony Banks). 


«The Lamb Lies Down on Broadway»: o culminar da excelência


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«Os Genesis cumpriram tudo o que uma sociedade burguesa esperava deles: divertir, alienar, dar-nos prazer idealista. [...] Se bem que perguntemos: a música não serve afinal, e apenas, para dar prazer?» Cito uma vez mais Jorge Lima Barreto, aquando da memorável exibição dos Genesis no Pavilhão Dramático de Cascais, em Maio de 1975, para apresentarem o seu álbum “conceptual” duplo. Repare-se que segundo o espírito da época revolucionária em curso, a boa música deveria assumir-se como «arma contra a burguesia». A mim nada me movia contra a burguesia, e nesse tempo conturbado, era muito difícil a um jovem liceal escapar à moda da «mensagem política» sempre presente nos interstícios de qualquer canção pop. Para um rapaz de 13 anos como eu, educado numa família tradicional, essa «mensagem» o mais das vezes chocava frontalmente com os valores que me eram transmitidos em casa. Ao mesmo tempo que tomava contacto com o hipnotismo planante dos Pink Floyd e me deixava seduzir por Leonard Cohen (cujas letras arduamente tentava entender), alguma música brasileira, e ainda me perdia inebriado com as canções dos Beatles que eram legado da infância, os Genesis surgiram-me como que uma lufada de ar fresco. Conheci-os através duns amigos num grupo de católicos no Verão de 1975, precisamente através desse álbum duplo The Lamb Lies Down on Broadway, que poucos meses antes tinha sido apresentado em Cascais. O disco contava uma história enigmática para o meu parco inglês, gravei-o num aparelho de fita magnética antigo adquirido na Feira da Ladra e ouvi-o durante meses da única bobine que tinha. Foram horas arrebatadas e preguiçosas a descobrir ao milímetro as 27 músicas do disco com quase 90 minutos de boas canções de 4 a 6 minutos, composições com autênticos clássicos lá dentro que exigem curiosidade e tempo para descoberta, em jogos de tensão e distensão, emoção violência e ternura, e até de bom humor — paradigmática a canção em que o jovem herói se dispõe a aprender com uma prostituta os mistérios do erotismo por um “manual”.


Aqui transcrevo uma das mais eloquentes descrições do disco, feita por autor incógnito para um número da revista Cais dedicado aos trinta anos sobre o histórico concerto em Cascais: «The Lamb Lies Down on Broadway funciona como uma colagem de fragmentos. O épico ainda dialoga com o pueril, a doçura com a acidez, a violência com a ternura, mas o travo é de desencanto, cinismo e distanciação, não se vislumbrando a progressão envolvente de temas como “The Musical Box” ou “Supper’s Ready”. Em suma, a tensão melodramática, excêntrica e grandiloquente, que a juventude freak estava habituada a reconhecer nas personagens de Gabriel, dá lugar a uma urbanidade contemporânea. As figuras míticas de um tempo metafórico permanecem — na música e em palco — mas agora como transfiguração da realidade quotidiana de um jovem porto-riquenho de blusão de cabedal, cabelo curto, ténis brancos e lata de spray na mão deambulando pela cidade que é mais cidade que todas as outras, Nova Iorque…» É a história de Rael uma espécie de punk que nas suas correrias pela cidade, rebentando cocktail-molotovs, assiste na Broadway ao rapto do seu irmão John por um estranho fenómeno alienígena. E após várias aventuras e desconcertantes encontros vai descobrir, já perto do final, num emocionante salvamento nas tumultuosas águas de uns rápidos, que um e outro são um só, dois lados da mesma moeda. Poupo-vos à descrição das faixas todas, mas destaco uma das mais emblemáticas, sumptuosas e violentas canções pré-punk, o «Back in New York City», que Jeff Buckley tão bem recupera numa interpretação nos anos 90.


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O que é que tudo isto tem a ver com rock progressivo ou sinfónico? Muito pouco, certamente. Como proclama o último verso do tema final do álbum it: cos' its only knock and knowall, but I like. Uma bela charada.  


Os Genesis depois de Gabriel


The Lamb Lies Down on Broadway foi sem dúvida a produção “genesiana” mais marcada pela influência de Gabriel, dando inusitada expressão à sua rebeldia e ânsia experimental. Diz-se que o nome do personagem principal, Rael, é uma espécie de anagrama de Gabriel e que toda a história relatada na obra é uma viagem introspectiva do seu autor — mas não tenho a certeza. Certeza tenho de que o resultado final é uma obra-prima e que as composições foram feitas nos moldes de sempre, em grupo, com mais influência de um e outro elemento, numa música ou noutra. E que as letras foram lá colocadas a posteriori em muitos temas, e que para isso tiveram de ser adaptados num processo tumultuoso. A animosidade do restante grupo para com Gabriel era já grande, e antes da digressão de apresentação do disco a saída do vocalista estava anunciada.


Certo é que nenhum dos elementos dos Genesis depois deste período áureo fez, a solo ou em grupo, algo que se lhe comparasse. Nem mesmo Peter Gabriel, que construiu uma carreira muito respeitável, com toques de génio aqui e ali, principalmente nos seus primeiros discos. Para o resto da banda o que veio a seguir foi algo completamente diferente, e é como se falássemos de uma nova, que bem poderia ter mudado de nome. Concedo que os primeiros dois discos da era pós Gabriel ostentam ainda belos temas e composições de grande qualidade, esses sim bastante «progressivos», onde se nota uma crescente preponderância das teclas de Tony Banks. A «genialidade colectiva» que remanescia desapareceu com a saída do guitarrista Steve Hackett, que imprimia complexidade melódica, uma característica importante que então se extinguiu definitivamente. Sem isso, e sem a vertente rebelde e experimental de Peter Gabriel, os Genesis tornaram-se enfadonhos, intercalando canções comerciais com intermináveis lençóis grandiloquentes. Esta nova fórmula garantiu-lhe estádios cheios e milhões de libras, mas duvido que o seu legado permaneça por muito tempo.


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Na verdade, tenho muitas dúvidas que o legado de 99% da música moderna prevaleça para lá da vida das gerações suas contemporâneas; tudo foi feito descartável e circunstancial — é o ar do nosso tempo. E possivelmente isto foi tudo uma ilusão, para que me predispus numa idade mais susceptível e que a minha sensibilidade (ou será teimosia?) faz prevalecer como culto ou capricho até à maturidade. Consolam-me os muitos covers dos melhores temas dos Genesis 70-75 a que se dedicam inúmeros jovens músicos em impressionantes vídeos do Youtube. Consola-me também encontrar alguma gente nova nos concertos de tributo a que assisti nos últimos anos. Por tratar-se de uma música tão complicada quanto «cerebral», a sua interpretação por outros resulta muito bem, bastando para tal que estes sejam musical e tecnicamente evoluídos e gostem do que fazem.


Termino como comecei: com este artigo apenas pretendo fazer uma homenagem àqueles cinco rapazes que tanto prazer me deram e continuam a dar. E também enumerar argumentos que justifiquem esta minha paixão. Mas se com estas linhas algum incauto se dispuser a conhecer estas quatro pérolas da música contemporânea — «Nursery Crime», «Foxtrot», «Selling England by the Pound» e The Lamb Lies Down on Broadway —, estou certo que o maior consolo será seu.


PS.: Este texto é em boa parte a minha argumentação para uma prometida tertúlia entre duas facções inconciliáveis que está adiada para uma noitada assim que a DGS o permitir. A boa conversa é o que de melhor se leva daqui. 

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Cascais, Chaimites, a revolução, e os Genesis


Esta reportagem do saudoso Jorge Lima Barreto de Maio de 1975 publicada na Revista Música & Som aquando da actuação dos Genesis no seu auge com a apresentação integral do álbum The Lamb Lies Down on Broadway em cascais em pleno PREC é uma delícia: “A luta à droga faz-se na prática revolucionária e não na perseguição paranóica da polícia.”

Ora leiam esta peça de museu: 

GENESIS EM CASCAIS

A recente vinda do grupo «Genesis» a Portugal foi, indubitavelmente, o melhor e maior acontecimento de música pop no nosso país.

Anteriormente apenas tinham vindo escórias de música ligeira aparentada com a pop e apresentadas como sendo produtos válidos internacionalmente. Desta vez, porém, a Organização trouxe da autêntica pop.

Como tal o espectáculo foi inédito. Porque revelou um novo sistema de actuação, porque instruiu sobre o mercado da pop e porque se desenrolou musicalmente impecável.

No primeiro aspecto: novo sistema de actuação: o grupo Genesis procurou, dentro de conceitos gerais de pop-art, sistematizar o espectáculo musical com novas estruturas: o ritual de Peter Gabriel (os seus gestos paradigmáticos, os seus fatos fantásticos, a sua mise-en-scène dionisíaca: movimentos dum solista de bailado exótico, referenciado a mundos fabulosos da droga: mitologias ingénuas, inovações Kitsch, mas sempre autenticamente pop.

O cenário era feérico: luzes estroboscópicas em permanente alteração cromática, projecção de slides (isto sim: a selecção era do melhor gosto, as fotos de nível inatacável, a oportunidade da sua projecção sobre três panos digna dum verdadeiro artista).

Os movimentos lumino-dinâmicos sempre num complemento rigoroso do desenvolvimento musical.

Explosões de granadas de luz, mudança fenomenal de cenários, contaminação psicadélica, mas:

Segundo aspecto: o mercado pop:

O grupo actuou para vender o seu novo LP, os Genesis mostraram aderir alienadamente à especulação bárbara dos produtores discográficos, à loucura capitalista da reprodução mercantil — e isto sem contestação: nada no seu show indicava a mínima revolta contra este estado de coisas. Os Genesis cumpriram tudo o que uma sociedade burguesa esperava deles: divertir, alienar, dar-nos prazer idealista, para isso:

Terceiro aspecto: a sua actuação musical foi, como disse, esmerada: técnicos hábeis, de melodias cativantes, histórias genuínas no panorama da pop-art, sem qualquer erro a imputar-lhes: o que a repetição exaustiva comprovou tratar-se de produto duma estrutura tecnocrática: mercado para consumir. Se bem que perguntemos: a música não serve afinal, e apenas, o prazer? Não nos deram os Genesis um imenso prazer? Um aspecto suplementar deste concerto. Mostrou como 20 mil jovens da classe média e/ou trabalhadora preferem música a mixórdias sonoras que as opressões políticas pretendem inculcar. Vimos como era insustentável a qualquer vedeta da «pop» baladeira nacional apresentar-se àquele público.

É que na Arte a qualidade é primordial. Outro erro calamitoso de certo controle opressivo que os partidos pretendem fazer é o da imprensa:

Os diários lisboetas diziam: «Onda de violência em Cascais, Um soldado morto, Destruição no recinto» — tudo mentira, falsidade, blasfémia. Que os politiqueiros não gostem de música é uma coisa, mas deturpar as notícias é típico do fascismo.

O soldado morreu de acidente de viação próximo de Cascais. Não houve uma única cena de violência no pavilhão: as cadeiras partiram-se porque 10 mil pessoas por noite não cabiam no recinto: eram elas ou as cadeiras (a propósito: porque não se acaba de vez com as cadeiras, os lugares marcados, a discriminação de bilhetes?) — o público senta-se no chão à medida que entra.

Outra novidade era: a droga. Talvez existisse, mas se existia qual é o moralista da judiciária que pode combater tal facto? A droga existe porque as condições sociais assim o permitem e facultam — não é a repressão judiciária (à maneira fascista) que inverte esta situação — bem pelo contrário.

A luta à droga faz-se na prática revolucionária e não na perseguição paranóica da polícia.

De resto havia os tanques e os carros de assalto à volta do recinto que «garantiam» a melhor «ordem».

O aparato militar conciliou-se perfeitamente com o pacifismo dos espectadores. Uma lição: a boa música pop é inofensiva e não provoca distúrbios. Os militares presentes em Cascais podem testemunhá-lo.

É absolutamente útil e desopilante a continuação deste tipo de espectáculos. A Arte e a Liberdade são os melhores amigos...

J. L. Barreto

quinta-feira, 7 de dezembro de 2023

Serena despedida?

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Estando desde Janeiro a acompanhar, a cada uma das 12 luas cheias, uma música nova daquele que viria a ser o primeiro disco de originais de Peter Gabriel desde 2002, terminada uma tournée de apresentação, eis que o conjunto é agora publicado fisicamente em forma de disco compacto e vinil. Aqui chegados, aguardava eu por parte da imprensa especializada as respectivas críticas nacionais e estrangeiras. Não poupando elogios, surpreendeu-me que pouco mais reflectissem do que aquilo que eu presumo ser o comunicado de imprensa fornecido pela editora do artista. Foi isso que me impeliu a dar-me ao trabalho de escrever algumas impressões pessoais sobre este disco que aguardava há mais de 20 anos. Vale-me o facto de não ser um crítico profissional, dando-me ao luxo de só escrever sobre aquilo que gosto e quando me dá na real gana. Não precisei de nenhum press kit, e o meu exemplar do disco (cujos temas foram sendo publicados nas plataformas de streaming) apenas me chegará às mãos como presente no sapatinho no dia de Natal. Como já tenho alguma idade, não só gosto do disco na forma física, como me habituei a ouvi-los respeitando a sequência dos temas, aspecto de grande importância para a impressão sobre a obra. Caprichos meus.


Não é segredo para ninguém, para os meus amigos ou para a meia-dúzia de pressoas que acompanha os meus escritos, que sou grande fã de música popular em geral e de Peter Gabriel em particular. Trata-se de um músico sofisticado e inconfundível vocalista que sigo desde os seus tempos dos Genesis, banda de Rock chamado “sinfónico” dos anos 70, que abordei aqui em tempos. Não foi certamente por causa do seu assumido sotaque inglês, aspecto pouco comum entre os músicos pop britânicos que se pretendam internacionalizar, que o artista me seduziu no início da adolescência quando o conheci no álbum duplo “The Lamb Lies Down on Broadway”. Publicado em 1975 este era um surpreendente disco conceptual (que conta uma história) em que Gabriel vestia a pele de um jovem marginal porto-riquenho perdido em Nova Iorque. O personagem, de seu nome Rael, (dizem que se trata dum anagrama de Gabriel), protagonizava uma enigmática aventura de autodescoberta apresentada em múltiplos quadros, uns inquietantes, outros bizarros e uns quantos encantadores. Foi com esse disco intenso com noventa minutos, que durante meses perscrutei minuciosamente na descoberta das melodias e tentativa inglória decifrar o ininteligível enredo integralmente escrito por Gabriel, que me descobri adolescente e me afeiçoei àquela voz rouca inconfundível. Meses mais tarde, no fim da tournée que passou por Cascais, Gabriel abandonaria os Genesis que fundara e de quem era o rosto mais carismático. Em 1977 iniciaria a aventura a solo de sucesso que conhecemos, um recomeço ousado para quem chegara a colocar em dúvida a carreira musical, farto que o jovem artista tinha ficado da intensidade e exigência do mundo do espectáculo. Arranjar uma nova banda e desfazer-se do legado Genesis que trazia agarrado à pele afigurava-se um enorme desafio.


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Peter Brian Gabriel nasceu em Chobham, a 15 km de Londres, em 1950, numa família de classe média. A sua mãe Edith Irene era violoncelista e o seu pai Ralph Gabriel engenheiro electrotécnico, acaso que explicará a conjugação do seu fascínio pela tecnologia com vocação musical. Com uma esmerada educação, frequentou a Charterhouse School, o colégio privado interno onde conheceu os outros fundadores dos Genesis, Tony Banks, Anthony Phillips, Mike Rutherford e Chris Stewart.  


Gostei muito dos seus primeiros 3 discos – todos sem nome: o primeiro pela novidade e por 3 ou 4 temas de antologia, sendo um deles “Solsbury Hill”; o segundo pela sonoridade e irreverência, puro Art Rock com reminiscências Punk, à maneira de “Back in New York City” o seu profundo grito de rebeldia genesiano em “The Lamb…” (a não perder a interpretação desta música por Jeff Buckley). Desse álbum são preciosas pérolas os temas hoje praticamente esquecidos como "Mother of Violence", "A Wonderful Day in a One-Way World", "White Shadow" "Indigo", "Exposure" (um festival de Robert Fripp), "Flotsam and Jetsam" e "Home Sweet Home", este último um cínico conto sobre um casal disfuncional sufocado num andar da impiedosa cidade de betão, rico em apontamentos de tragédia e sarcasmo. Ao mesmo tempo, em 1980, Peter Gabriel criava o projecto da sua vida, o WOMAD, um festival internacional de música e dança do mundo (World Music) que até hoje reúne anualmente artistas dos cinco continentes. Numa primeira fase, o projecto foi à falência, caso que ocasionou em 1982 a sua única reunião com os ex-parceiros dos Genesis, num grandioso espectáculo à chuva intitulado “Six of the Best” que ajudou Peter Gabriel a angariar fundos para pagar as dívidas e retomar o projecto.


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Passados cinquenta anos desses tempos juvenis e audazes, Peter Gabriel está de volta com um disco novo, que soa como um balanço e uma despedida. Serena despedida.  Longe vão os tempos dos seus álbuns de ousadas sonoridades experimentais, electrónicas e acústicas, na produção de arrojados concertos teatrais, visualmente vanguardistas, na senda do “espectáculo total”, que era o seu contestado propósito no tempo dos Genesis.


Gravado no seu grande e bem equipado Real World Studios situado em Bath, num ambiente bucólico (um equipamento residencial e tecnológico desenhado para gravações musicais e acolhimento de artistas) o novo álbum foi intitulado i/o (input/output). Acompanhado pelos seus músicos de sempre, Tony Levin, David Rhodes e Manu Katché e a assombrosa sonoridade electrónica de Brian Eno, Peter Gabriel parece-me em grande forma. Concordo com Marcos Richardson do Wall Street Journal, que considera a obra como “terna e optimista, um caloroso abraço de um dos praticantes mais meticulosos do art-rock.” O disco é composto por 12 temas que soam a uma serena despedida de quem sempre foi capaz de se elevar às alturas na procura de uma perspectiva desenganada do mundo e de si próprio, que atribua sentido à história, pessoal ou universal, um enquadramento da existência, o estranho privilégio de existir com consciência, num exigente sentido superior, estético, moral. Revelada de distintas formas, foi sempre esta inquietação que me atraiu em Peter Gabriel. Ele não é crente como eu procuro ser, mas quer crer. E essa procura nota-se em toda a sua carreira artística. Apaixonado pela natureza, assume-se no tema que dá nome ao disco i/o, assim como que panteísta, que somos todos parte de um todo, que desse modo as coisas ganham sentido “I’m just a part of everything, I’ll be laid to rest in a proper place, in the roots of an old oak tree, where life can move freely in and out of me.”


Mas é na belíssima faixa “Playing for time” que se adivinha mais explícito o tom de balanço e despedida deste seu sétimo álbum de originais “Oh, all the moments come and go, While the memories ebb and flow, And play again, play again, Oh, there’s a hill that we must climb, Climb through all the mists of time, It’s all in here what we’ve been through”. Depois comovemo-nos com “And Still”, com a sua homenagem à falecida mãe violoncelista de quem herdou o gosto pela música: “All gone away, All gone away, I place my head against your skin, As I did as a boy. And still your hands feel cold, Those hands that brushed my hair, I feel you everywhere, And I'll carry you inside of me, In every place that I will be.” O mesmo tom melancólico encontra-se em “So Much” sobre a finitude da existência enorme que cabe numa vida, sempre sem sombra de lamechice, antes uma soberba e despretensiosa canção.


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Mas é na última lua cheia, perdão, canção do disco, intitulada “Live and let live” que Gabriel nos deixa rendidos: “It takes courage, To learn to forgive, To be brave enough to listen, To live and let live, It takes courage, To start to forgive, To be brave enough to listen, To live and let live, let live”. Rendidos à única solução, à guerra e à violência, uma mensagem cristã que soa óbvia e autêntica: o perdão é difícil, mas é a única saída, a nossa única salvação. Pesado é o fardo da revolta.


A playlist completa deste disco já se encontra disponível nas plataformas de streaming, mas eu aguardarei serenamente pelo dia de Natal para desembrulhar e pôr a rodar este disco que foi muito aguardado. Requintadamente produzido em duas misturas, a versão “Bright-Side Mixes” e “Dark-Side Mixes” com uma bateria de vozes e instrumentistas convidados como o Soweto Gospel Choir, Orphei Drängar um coro masculino sueco e a New Blood Orchestra dirigida por John Metcalfe, este disco tem o que é preciso para usufruirmos longas horas de prazer musical, sensitivo. Peter Gabriel, pacificado, envelheceu bem e ofereceu-nos uma serena despedida.


Ou talvez não.

domingo, 28 de janeiro de 2007

Mais Genesis


Falta pouco mais que um mês e já faço a contagem decrescente para assistir na Aula Magna à recriação de dois históricos espectáculos dos Genesis, Foxtrot (1973) e Selling England by the Pound (1974) feita pelos Musical Box. Tenho os bilhetes bem escolhidos e bem guardados para os dois concertos, nos dias 1 e 2 de Março, quando me irei reencontrar em delírio com umas centenas de doentes "Genesianos" da era Gabriel. Alguns membros desta “irmandade” de fãs, inevitavelmente já os conheço há muito. Será uma vez mais tempo de uma comovida comunhão, revisitando a melhor banda musical dos anos 70. Tempo para cantarmos sílaba a sílaba aqueles loucos e incompreensíveis versos de Gabriel, e acompanharmos emocionadamente as guitarras de Steve Hackett e Mike Rutherfordo, o piano e o órgão de Tony Banks, e a bateria de Phil Collins. Pessoalmente anseio pela hora em que vou ver pela primeira vez na vida a actuação em palco do célebre tema Supper’s Ready, uma peça épica de 19 minutos na qual, segundo reza a história, Peter Gabriel depois de vestir a pele do Narciso (na foto), terminando, qual anjo branco, elevado aos céus cantando os versos finais, retirados do Livro do Apocalipse: Theres an angel standing in the sun, and hes crying with a loud voice, This is the supper of the mighty one, Lord of lords, King of kings,Has returned to lead his children home, To take them to the new jerusalém!!!
Os Musical Box, são uma banda de tributo canadiana, liderada por Denis Gagné e Serge Morissette que, respeitando os mais pequenos detalhes cénicos e a composição complexa e pouco dada a improvisos da banda original, foram "aprovados" e por diversas vezes elogiados pelos elementos da lendária banda. Há uns anos, quando os Musical Box actuaram em Bristol, receberam um espectador muito especial: o próprio músico, cantor e compositor Peter Gabriel que levou os seus filhos para que testemunhassem um pouco da sua própria história!
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PS: Os Genesis que por aí vão andar este ano numa propagandeada tournée são de outra onda. A onda POP do Phil Collins. Isso tem a sua graça mas não gosto tanto, nem tem nada a ver com a música que atrás refiro. Esses "Genesis" bem podiam ter adoptado outro nome, por respeito ao grupo fundador e à sua histórica obra.

quinta-feira, 9 de novembro de 2006

Desgosto


Há dias recebi por e-mail o convite para assistir via Internet à conferência de imprensa de Tony Banks, Phil Collins e Mike Rutherford, três dos membros da minha banda de eleição. Por instantes o meu coração acelerou esperançado. Mas ontem ao ler a notícia no DN logo me desiludi: afinal os três rapazes já cinquentões, decidiram, num acto de infinita generosidade, voltar à estrada para uma série de concertos “de estádio” à moda dos anos 80 e 90. Sem o vocalista Peter Gabriel e o guitarrista Steve Hackett, verdadeiras almas do grupo que inovou e fez diferença nos anos 70, os eventos serão vulgares megaproduções de grande consumo. Não entendo porquê. Ou antes, entendo que, transformados numa vulgar banda pop, Tony Banks, Phil Collins e Mike Rutherford decidiram agora rapar o que resta do “filão” que é a marca "Genesis".
Ainda acreditei num milagre da reedição da antiga banda, pois até parecia lógico: a idade não seria problema, pois eles sempre tocaram sentados, uma elegante melodia complexa e cerebral, qual grupo de música de câmara. E essa tournée serviria para registarem para a posteridade as suas "enormes" criações com as novas tecnologias de gravação de som e imagem. Uma oportunidade de negócio que favorecia uma imensidade de fãs devotos (e tolos) como eu.
Agora perdi definitivamente a esperança que um dia se realize a mítica reunião dos Genesis. Vou ter que me contentar, em Março, em assistir na Aula Magna à performance dos Musical Box a tocarem o Selling England by the Pound e o Foxtrot ao vivo. Uma boa imitação que vale mais que a fraude anunciada pela "marca" oficial.

PS: Acredito que muitos inadvertidos leitores não entendem a razão de ser deste culto, desta paixão. Sem ter deixado um registo vídeo de jeito, esta banda dos anos 70 deixou um legado musical único. Mas experimente-se espreitar por um motor de busca a quantidade de sites de fãs dos Genesis. Atente-se aos festivais e concursos de bandas “Genesis” que se organizam por este mundo fora. Para os que gostaram, tornou-se uma enorme paixão, e como tal o tema é difícil desenvolver em palavras.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Melomanias - O pantomineiro de Sua Majestade

 


Peter Gabriel, nasceu em 1950 em Surrey Inglaterra, e tornou-se famoso como vocalista dos Genesis, a mítica banda de rock sinfónico – “barroco” dos anos setenta. Tal sucedeu não só por ostentar uma singular e expressiva voz, mas por causa das suas performances em palco onde representava as estranhas personagens dos inusitados versos de cada peça musical. Inspirado percursor do “espectáculo total”, no qual todo um concerto é apresentado com um minucioso guião musical e visual com utilização de trajes, cenários, projecção de imagens, pirotecnia e outros aparatosos artifícios, Peter Gabriel transpôs e aprimorou de forma magnifica esse conceito para a sua carreira a solo.

Empenhado divulgador da música etnológica dos quatro cantos do mundo, Peter Gabriel assumiu diversas causas políticas, tendo-se destacado nas campanhas pela libertação de Nelson Mandela e o fim do Apartheid. Ligado a esta causa está um dos seus mais emblemáticos temas musicais, um impressionante hino dedicado ao activista sul-africano Steven Biko, falecido em "estranhas circunstâncias" em 1977.

De destacar é também a profusa participação do músico no cinema com inúmeros temas, e com as magnificas bandas sonoras de Birdy de Alan Parker ou The Last Temptation of Christ de Martin Scorsese.

Alguns fãs dos Génesis de Gabriel, Hackett e Rutherford, Banks e Collins - para mim a mais fantástica reunião de talentos pop que eu alguma vez conheci - acusam o vocalista dum temperamento narcísico como causa da seu abandono em 1975. Esse ponto de vista é quanto a mim pouco sustentável, pois através de inúmeras produções audiovisuais disponíveis para o público, uma observação atenta da actuação de Gabriel, tanto a solo como com a sua antiga banda, verifica-se uma postura do músico em nada “narcisista”, antes pelo contrário, exibindo em cada seu gesto um extraordinário profissionalismo e a superação duma timidez latente, tudo planeado ao pormenor com vista uma determinado quadro visual e musical. Os seja, o músico tinha uma ideia concreta de modelo para aquele projecto e trabalhava em função dela. Finalmente confesso que concordo parcialmente com a crítica de Rui Albuquerque (que inspirou estas linhas) quando num comentário a um meu post anterior qualifica Peter Gabriel como um compositor "chato": por mim, acho que é um chato porque abandonou o projecto Genesis quando ainda tanto prometia, e chato porque leva uma média cinco anos a produzir um novo álbum de originais. Só por isso.


De resto, em mais de trinta anos de carreira a solo o músico compôs um número significativo de peças musicais objectivamente geniais, que só por má-fé ou desconhecimento podem ser desconsideradas: Solsbury Hill, Excuse Me, Humdrum, Here Comes the Flood, Mother of Violence, On the Air, White Shadow, Índigo, Home Sweet Home, Family Snapshot, Biko, San Jacinto, Family and the Fishing Net, Wallflower, Mercy Street, Washing of the Water, Secret World, Blood of Eden, Signal to Noise, Sky Blue só para dar um número restrito de exemplos. Claro que ficam para trás alguns temas essenciais, que admito que pelo seu cariz mais experimental sejam “chatas” para algumas pessoas, por exemplo o extraordinário Exposure, tema em parceria com Robert Fripp, ou outras chatices imprescindíveis como Intruder, Lead a Normal Life, Darkness ou The Drop.

A voz de Peter Gabriel embala a minha existência desde a tenra adolescência. Com os anos, em lugar da mistificação algo infantil que eu dedicava a este meu anti-herói de causas impossíveis, deu lugar a uma adesão mais racional. No entanto a sua extraordinária voz  foi adquirindo para mim um encantador efeito fetiche, que me releva para as melhores sensações da vida.

Para terminar, uma boa notícia para os fãs deste singular trovador e pantomimeiro, súbdito de S. Majestade Isabel II: em Fevereiro do próximo ano será publicado um seu novo álbum com o sugestivo titulo Scratch My Back: uma nova experiência, desta vez na interpretação de temas alheios como Heroes de David Bowie,  The Boy in the Bubble de Paul Simon, Listening Wind dos Talking Heads, The Power of the Heart de Lou Reed,  I Think It's Going to Rain Today de Randy Newman, Philadelphia de Neil Young Street Spirit dos Radiohead, entre outras. A coisa promete!

 



 

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Sois uns totós!

A música pop deve servir de voz a esta (Deolinda) aflição? Errado. Desde quando é que a pop serve para pedir segurança e estabilidade, vidas burguesas e deprimentes, em escritórios e armazéns, com contratos vitalícios e subsídios de férias? Ainda sou do tempo em que os Oasis cantavam "is it worth the aggravation to find yourself a job when there's nothing worth working for?" Francisco Mendes da Silva.


 


Eu sou mais velhote...


 



 


Back in New York City, um hino de revolta precursor do estilo "punk rock" numa interpretação de Peter Gabriel com os Genesis. Apesar da má qualidade da gravação pirata extraída dum concerto da tournée Lamb Lies Down on Broadway (que passou por Cascais em Março de 1975) vale a pena pela raridade.


 


 


Back in New York City - by Genesis


 


I see faces and traces of home back in New York City
So you think Im a tough kid? Is that what you heard?
Well I like to see some action and it gets into my blood.
The call me the trail blazer-Rael-electric razor.
Im the pitcher in the chain gang, we dont believe in pain
cos were only as strong, as the weakesst link in the chain.
Let me out of Pontiac when I was just seventeen,
I had to get it out of me, if you know what I mean, what I mean.

You say I must be crazy, cos KI dont care who I hit, who I hit.
But I know its me thats hitting out and Im not full of shit.
I dont care who I hurt, I dont care who I do wrong.
This is your mess Im stuck in, I really dont belong.
When I take out my bottle, filled up high with gasoline,
You can tell by the night fires where Rael has been, has been.

As I cuddled the porcupine
He said I had none to blame, but me.
Held my heart, deep in hair,
Time to shave, shave it off, it off.
No time for romantic escape,
When your fluffy heart is ready for rape. No!
Off we go.

Youre sitting in your comfort you dont believe Im real,
You cannot buy protection from the way that I feel.
Your progressive hypocrites hand out their trash,
But it was mine in the first place, so Ill burn it to ash.
And Ive tasted all the strongest meats,
And laid them down in coloured sheets.
Who needs illusion of love and affection
When youre out walking the streets with your mainline connection? connection.

As I cuddle the porcupine
He said I had none to blame, but me.
Held my heart, deep in hair.
Time to shave, shave it off, it off.
No time for romantic escape,
When your fluffy heart is ready for rape. No!


 


I see faces and traces of home back in New York City
So you think Im a tough kid? Is that what you heard?
Well I like to see some action and it gets into my blood.
The call me the trail blazer-Rael-electric razor.
Im the pitcher in the chain gang, we dont believe in pain
cos were only as strong, as the weakesst link in the chain.
Let me out of Pontiac when I was just seventeen,
I had to get it out of me, if you know what I mean, what I mean.

You say I must be crazy, cos KI dont care who I hit, who I hit.
But I know its me thats hitting out and Im not full of shit.
I dont care who I hurt, I dont care who I do wrong.
This is your mess Im stuck in, I really dont belong.
When I take out my bottle, filled up high with gasoline,
You can tell by the night fires where Rael has been, has been.

As I cuddled the porcupine
He said I had none to blame, but me.
Held my heart, deep in hair,
Time to shave, shave it off, it off.
No time for romantic escape,
When your fluffy heart is ready for rape. No!
Off we go.

Youre sitting in your comfort you dont believe Im real,
You cannot buy protection from the way that I feel.
Your progressive hypocrites hand out their trash,
But it was mine in the first place, so Ill burn it to ash.
And Ive tasted all the strongest meats,
And laid them down in coloured sheets.
Who needs illusion of love and affection
When youre out walking the streets with your mainline connection? connection.

As I cuddle the porcupine
He said I had none to blame, but me.
Held my heart, deep in hair.
Time to shave, shave it off, it off.
No time for romantic escape,
When your fluffy heart is ready for rape. No!

sábado, 31 de agosto de 2019

Dois discos que eu levaria para a tal ilha deserta

genesis+radiohead.png


O que têm em comum dois daqueles que para mim são dos melhores clássicos da pop “The Lamb Lies Down on Broadway” dos Genesis de 1975 e “OK Computer” dos Radiohead de 1997? Para lá dos diferentes contextos e épocas em que foram produzidos e de serem ambos álbuns duplos com mais de uma hora de boa música, tem em comum uma extraordinária densidade e diversidade melódica, um constante confronto entre a rebeldia e a ternura, a revolta com a mansidão, o épico com o ligeiro. Discos que eu levaria de certeza para a tal ilha deserta, e que irei sempre ouvir como se fossem novos.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Genesis sempre

Por vezes é da caixa de comentários que são chamados à colação assuntos verdadeiramente de-ci-si-vos. É o que acontece com esta intervenção do Rui Albuquerque sobre os Genesis, em que faz afirmações extraordinárias como a de que o "Peter Gabriel é um chato". Pois bem, se aqui há uns anos alguém me dissesse tal sacrilégio não sei como reagiria. E fique a saber que eu em vez de me ter doutorado em Génesis, aprendi com a prática, na pele, com a vida: a ouvi-los deleitado horas e horas e horas a fio, vezes sem conta. Conheço cada ai, cada ui, cada pling, cada plong, cada verso, de trás para a frente e de frente para trás, e todas as sensações que me despertam ainda hoje. A banda de Peter Gabriel, Steve Hackett e Mike Rutherford, Tony Banks, e Phil Collins revela para mim a mais fantástica reunião de talentos pop que eu conheci na minha vida. Todos fundamentais, juntos geniais. E se tivesse que tirar algum, acredito que o baterista seria o que menos se notava. De resto, caro Rui, as interpretações de Gabriel são verdadeiramente únicas, a sua voz incomparável. Basta ouvir atentamente Back in New York City para perceber o que os Génesis perderam depois de 1975. Sem a contribuição de Peter Gabriel a sua música tornou-se demasiadamente melosa, por vezes enjoativa com tantos harpejos, adocicadas melodias e letras patetas. Claro que depois sem Steve Hackett a banda bem podia ter mudado de nome, como alguns reclamam ao Corta-fitas nesta nova fase.

Portanto, fique lá o Rui com a sua cátedra, com o Trick of the Tail e com o Wind and Wuthering, que a mim me bastam os quatro magníficos Nursery Cryme, Foxtrot, Selling England by the Pound, The Lamb Lies Down on Broadway, justamente os discos que eu ainda hoje escolheria para levar para uma ilha desertaSobre o Peter Gabriel a solo, isso dava uma outra conversa, mas enquanto isso não acontece aconselho-o a começar pelo do carro azul, o primeiro, ainda com muitas reminiscências genesianas, bom para iniciados. E aceite um complacente e forte abraço, deste que o preza e assina, 

 

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Genesis - Carpet Crawlers









 


Da minha banda preferida, do álbum que eu levaria para a ilha deserta, os Genesis de Peter Gabriel. A música liberta da "mensagem", do recado panfletário que às vezes é uma canseira. Como uma fuga de Bach, um delírio de Eno ou um quarteto de cordas de Beethoven. O lúdico pelo lúdico, a beleza pela beleza, como exercício último da arte, o encontro com Deus.

domingo, 30 de julho de 2006

Impressões musicais (2)


The Lamb Lies Down On Broadway – Duplo “concept” album dos Genesis de 1974. Peter Gabriel, Steve Hackett, Tony Banks, Mike Rutherford e Phil Collins.

Este é sem dúvida um dos mais marcantes discos da minha vida. Não assisti ao célebre concerto no pavilhão dramático de Cascais. Em Maio de 1975 eu era uma criança. Quando pela primeira vez contactei com esta obra-prima, foi no Verão de 1976 em casa de amigos. Dava os meus primeiros passos de adolescente, o meu pai fora "saneado" da Torre do Tombo, e o PREC entrara-nos violentamente pela casa e vida adentro. O nosso gira-discos já não tinha agulha, a televisão avariara há mais de um ano e muitas outras "coisas" estiveram em perigo de “avariar” definitivamente.

Estranhos e loucos dias esses, em que o mundo dos meus pais desabava para sempre, e em que a minha ligação à música se cingia à transmitida pela telefonia. A toda a hora esta papagueava Fernando dos Abba, a Bohemian Rhapsody dos Queen, Fly, Robin, Fly, dos Silver Convention entre tantos outros super hits. Como alternativa, havia demasiada música de intervenção, e podia-se ouvir boa música, discos do princípio ao fim no programa “Dois Pontos” já não sei de qual emissora. Numa frequência FM ouvíamos as comunicações do COPCON, sempre actuante no “olho” da revolução, mas essa seria outra história.
Os tempos continuavam estranhos e uma estranha rebeldia apoderara-se da minha existência. Neste fabuloso álbum duplo dos Génesis, Peter Gabriel vestia a pele de Rael, um jovem e ingénuo "punk" Porto-Riquenho que inadvertidamente “aterra” na Broadway. Então começa uma louca aventura em busca de John (seu alter ego?). Cada música é um episódio mais ou menos surrealista, cada faixa mais fantástica e com ritmos mais endiabrados, com crescentes e sofisticadas melodias que narram uma série de experiências existenciais de Rael: do erotismo (Counting out time), à violência gratuita (Back in New York City), paisagens psicadélicas (Broadway Melody of 1974 ou The Carpet Crawlers), ou proféticas (The Chamber of 32 Doors) aos monstros míticos (The Lamia). Rael, de aventura em aventura caminha para o abismo final, uns agitados “rápidos” (In the Rapids) de onde resgata o (afinal) seu irmão John, que, surpresa das surpresas, não é mais do que o próprio, no outro lado do espelho. Termina a história com o tema It: "(…) It is Rael. it is Rael, Cos its only knock and knowall, but I like it". Um delírio.

Nessa época embrenhei-me e refugiei-me naquela música, com aquela delirante história, e com a voz única e inconfundível de Peter Gabriel. É que, num belo dia do início de Verão em 1976, na feira da ladra descobri uma bobine de fita magnética que servia num grande e velhíssimo gravador existente lá de casa. Nessa bobine (a única que eu tinha) com uns cabos emprestados, em casa de uns amigos consegui fazer uma “gravação directa” do álbum in-tei-ri-nho!
Durante esse Verão e meses seguintes, ouvi e explorei incansavelmente todo o disco. A voz de Peter Gabriel tornou-se para mim uma espécie de "fetiche". Uma sonoridade onde identifico muito do que a vida tem de bom e de lugar seguro para se estar. Sempre perdoei todos os “desvios artísticos” e “devaneios ideológicos” deste cantor e compositor que continuo a admirar. Nunca perdoei os Génesis não terem terminado com a sua saída.

No passado mês de Maio assisti pelo segundo ano consecutivo à performance dos “Musical Box” que repõe em palco todo o lendário espectáculo que é o The Lamb Lies Down On Broadway ao vivo, com uma minúcia e arte admiráveis. Tratando-se esta de uma música tão complexa quanto “cerebral”, a sua interpretação por outros protagonistas é bastante plausível, bastando para tal que estes sejam musical e tecnicamente evoluídos. Nesse espectáculo na Aula Magna confirmei e esclareci muitas das minhas fantasias no que refere ao mítico espectáculo do Dramático de Cascais que nunca assisti. Afinal com a vantagem de não estar pedradíssimo e esmagado com as pernas para o ar no meio de 10 mil loucos eufóricos que não sabiam ao que iam. E o meu prazer e consolação foram enormes, numa poltrona da Aula Magna.
E sempre em coro com os restantes fanáticos, apaixonados como eu, revisitei sentimentos e sonhos destas músicas já antigas. Trauteámos sílaba após sílaba, acorde após acorde, todos os noventa minutos desta louca obra-prima dos Genesis de Peter Gabriel: The Lamb Lies Down on Broadway.

domingo, 31 de dezembro de 2017

Os meus desejos para 2018:

 


• Aprender a escrever com os dois polegares no telemóvel.
• Arranjar uma avença daquelas na CML.
• O Sporting Campeão.
• Fazer a passagem de ano em casa, de pantufas.
• A paz no mundo.
• Viver num país mais civilizado.
• Ter mais tempo para escrever sobre o que gosto.
• Comprar umas colunas novas (depende da consumação do segundo desejo).
• Deixar a filharada e ir viajar com a minha mulher (sem remorsos).
• Assistir à reunião dos Genesis com o Peter Gabriel. 
• Arranjar uns desejos realizáveis para 2019.



Feliz Ano de 2018 para os leitores do Corta-fitas, são os meus votos.


quinta-feira, 7 de março de 2013

Celebração




Extraordinário restauro e melhoramentos feitos à garvação original. Uma autêntica viagem no tempo, uma hora de sonho com os Genesis de Gabriel.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Um Mellotron para José Cid


 


José Cid vai levar amanhã e depois aos palcos de Lisboa e Porto o seu disco "10 000 anos depois entre Vénus e Marte", uma sua magnífica criação tão incompreendida na época, mas que se veio a revelar o maior fenómeno da produção fonográfica lusa: o álbum original de 1978 atinge hoje facilmente os 300,00 € no mercado de segunda mão. Chamou-me à atenção na sua entrevista hoje publicada no jornal i que o Mellotron não fará parte dos instrumentos em palco: de sonoridade inconfundível, este instrumento musical muito utilizado pelas bandas de rock progressivo nos anos sessenta e setenta, é um teclado electromecânico polifónico constituído por um “banco” de fitas magnéticas pré-gravadas com oito segundos de duração. Muito frágil e difícil de transportar, a sua sonoridade ficará imortalizada, por exemplo no ínicio de Strawberry Fields Forever dos Beatles, em The Court of the Crimson King dos  King Crimson, ou mais sofisticadamente neste fabuloso tema Silent Sorrow In Empty Boats dos Genesis, em que Tony Banks explora magistralmente o instrumento (por coincidência um exemplar adquirido aos King Crimson) "programado" para reproduzir pelas suas teclas coros humanos de oito vozes. Curioso é como uma modernice dos tempos da nossa juventude, em cinquenta anos cai em desuso e se transforma num objecto de colecção, numa curiosidade de museu. Obviamente nenhum computador conseguirá reproduzir a sua sonoridade original, e o José Cid saberá disso certamente. 


 


Publicado orininalmente aqui.


 

sábado, 2 de março de 2019

Aqui vai um post pouco popular

O fascínio pela música Pop será uma fraqueza minha, admito. Dessa época, nas últimas semanas ouvi coisas como “Let it be” dos Beatles, “Harvest” de Neil Young, “Hunky Dory” de David Bowie, “ Various Positions ” de Leonard Cohen, “Selling England by the Pound” dos Genesis, "Slow Train Coming" de Bob Dylan ou "Meat is Murder" dos Smiths. Não imaginam os meus amigos a confusão que me faz o deslumbramento das gerações mais novas pelos Abba ou por Freddie Mercury. Esse fenómeno diz muito sobre o lado negro da democracia (o nivelamento por baixo) e da frivolidade dos nossos tempos. Bom Carnaval a todos!

segunda-feira, 16 de março de 2020

Estado de sítio (3)

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Coronavírus hoje em Portugal – 331 casos, 0 vítimas mortais


Ontem foi provavelmente o primeiro domingo em muitos séculos de história da cristandade sem missas dominicais publicas. Para marcar o domingo ontem decidimos almoçar fora… na varanda. O almoço foram umas pernas e peitos de frango que eu mesmo temperei e assámos no forno e comemos com batatas fritas. A nossa despensa está guarnecida como habitualmente, na expectativa de que podemos nos reabastecer quando necessário no supermercado aqui ao lado.
Dizem-me que o padrão estatístico da incidência dos infectados aponta para um quadro muito parecido com o de Espanha, talvez ligeiramente inferior ao verificado em Itália onde o fenómeno terá sido atípico. É fácil entender que a acção isolamento que estamos a empreender de momento só dará frutos daqui a duas semanas. Acho admirável como os portugueses têm voluntariamente acatado as directivas dos técnicos da Direcção Geral de Saúde. O meu desejo secreto era que não fossem necessárias “obrigatoriedades” impostas pelo poder central, estados de emergência ou coisa pior. Mas pelas redes sociais dá para adivinhar uma turba desejosa de imposições centralistas e radicais, estados de sítio e fecho de fronteiras (o que isso queira dizer)…  teme-se o pior. 
O telefone tem sido um utensilio muito importante para contactar os familiares e amigos, trocar impressões e alijeirar inquietações. Pelo terceiro dia consecutivo recitámos o terço ao final da tarde, e acho que os miúdos até estão a gostar do sentimento de cumplicidade que a oração em família convoca. O mais difícil está a ser por o miúdo mais pequeno a estudar as matérias do programa escolar que nos foram remetidas pela escola, mas a coisa vai ao sitio, com paciência e às vezes voz grossa.
Entretanto soube-se que os Genesis, ou o que resta daquela banda extraordinária do início dos anos 70 (Peter Gabriel e Steve Hackett não estão para chatices), vão reunir-se para uma tournée no Reino Unido em Novembro. Assim que a epidemia passar prometo empenhar-me na organização duma espécie Prós e Contras, com os melhores especialistas sobre o tema (um deles sou eu)… e bar aberto. Acho que o sucesso é garantido.

sexta-feira, 4 de agosto de 2006

Its only rock n’ roll, but I like it!

Ainda a propósito da minha posta de 30 de Julho sobre o álbum The Lamb Lies Down on Broadway, acabo de descobrir esta pérola: a banda de Peter Gabriel, (imagino que por volta de 1977) a “desbundar” esse mesmo tema dos Genesis.

O Rei, o Presidente e as regras do Jogo

As declarações de Pedro Sánchez a 31 de Agosto de 2026, no programa Hoy por Hoy da Cadena SER, provocaram um abalo político em Espanha. Ao ...