Acontece que um tio, um bom tio, é uma instituição familiar preciosa, a testemunha privilegiada de que os nossos pais não são uns extraterrestres. Porque um tio tem a vantagem de reflectir os valores da nossa família sem o “peso” das responsabilidades parentais que tanto condicionam o “convívio”. O Tio Manel era isso tudo, pôde ser isso tudo. Aqui deixo o meu modesto tributo: Que Deus o tenha na Sua infinita Glória.
sexta-feira, 12 de junho de 2015
sexta-feira, 2 de setembro de 2011
Os males do mundo
Há pessoas cuja vida é uma crescente desilusão com os outros e com o mundo até o resumirem à expressão mínima, que em casos extremos toma a forma dum caniche. Ao contrário o meu percurso tem sido uma gradual aceitação de mim mesmo, sujeito aliás por quem ainda conservo algumas perplexidades. Além disso a desilusão, não é mais do que o saudável desfazer de uma ilusão.
sábado, 19 de fevereiro de 2011
Sem a casa que pusemos no lugar da noite
O meu menino resiste ao sono, como se fora um cálice de morte; tem medo do escuro. Daquele momento em que se lhe silencia a alma entre a última brincadeira e o sono profundo. Conheço bem esse território de ninguém, que de tão silencioso se nos ouvem as entranhas, num ritmo batido pelo coração. Onde mora um ensurdecedor silêncio que amplifica o medo de não se voltar do fundo do fundo, onde se estabeleceram demónios dançantes, auroras boreais, aterradores animais: como num infindável castigo de existir, solto no frio do eterno espaço.
O meu menino tem medo da noite e implora-me mais uma história, mais uma canção. Agarra-me a mão com a sua mãozinha sôfrega, para que eu o ampare na descida à profundeza do vazio sem memórias, risos nem afagos, como um quarto escuro sem frestas, onde do nada se desenham os monstros pavorosos, de não ter colo nem pertença.
Estremunhado a meio da noite escura, qual heróico cavaleiro do apocalipse, o meu menino salta da cama, e com a bravura dos insanos atravessa os corredores das sombras, e as portas dos murmúrios. Num salto aninha-se ao meu lado de olhos esbugalhados, exausto da demente batalha, como quem privou com a morte, nos rumores do vazio. A salvo de volta a casa, o meu amor.
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
Sem cedências
A existência tende para o caos, para o desalinho, para a corrupção e para morte. Cabe aos homens, unidos nos mais variados contextos, contrariarem com teimosia esse destino: a criar, a construir, a manter, a restaurar, a empreender e a amar: numa constante ressurreição, para triunfo da vida.
Na imagem: Guernica de Picasso.
quinta-feira, 4 de setembro de 2008
Uma nova etapa
O meu pequenote vai amanhã pela primeira vez para o colégio. Irresistível com a sua figura de anjo renascentista, já leva dezanove meses de existência e tornou-se num miúdo alegre, irrequieto e obstinado. É fanático por automóveis e bolas (mesmo antes de dizer mãe adoptou duas onomatopeias para evocar esses seus objectos de culto) e nos últimos tempos tem sido a “alegria do lar”. Uma alegria tão irresistível quanto possessiva e omnipresente, que tantas vezes desafia a paciência dos irmãos e os limites da resistência dos vetustos progenitores.
terça-feira, 24 de junho de 2008
Pai de família
Quando em qualquer contexto me adjectivam como “pai de família”, sinto um misto de orgulho e decepção, já que a paternidade para mim, mais do que um papel é um "estado" sem mérito, tão inevitável quanto eu ser homem ou ter olhos azuis. Depois, é a minha traiçoeira imodéstia que aspira a distinta adjectivação, como se tal fosse importante ou influísse na realidade da minha existência.
Por fim até aceito o relevo desse meu traço: acreditem que o mais despudorado e horrível dos filmes de terror, por mais elaborado nos efeitos ou perverso no argumento, pouco me amedronta comparando com uma qualquer cena de drama familiar com crianças à mistura. As mais inocentes histórias de família com mortes ou desaparecimento de miúdos são para mim um suplicio total. E das mais sofisticadas nem se fala: não me esqueço como me contorci de sofrimento com algumas cenas de "Babel", de Alejandro González Iñárritu, quando a Amélia a baby sitter perde as criancinhas algures na fronteira mexicana, ou com as trágicas desventuras de Yussef e Ahmed nas montanhas de Marrocos. Simplesmente insuportável.
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008
Uma história sem moral
domingo, 17 de fevereiro de 2008
A Quaresma
Na Quaresma o grande desafio é o da conversão. Do próprio, que esse é um processo do foro íntimo de cada um. Agora, a minha prioridade é o profundo e redentor encontro com Jesus. Como homem completo, sozinho, em comunidade ou em família. Mesmo no epicentro da vida, com o barulho e as luzes do mundo, no agitado quotidiano que não dá tréguas. O desígnio é um divinal Encontro como o de Pedro, Tiago e João no monte Tabor. Por força da liberdade que nos concede o despojamento e a oração. Isto é uma procura, um fito, uma utopia. Possível a quem um dia olhou a morte nos olhos, e conheceu a longa, longa, noite escura. Possível ao Homem que se cumpre inteiro.Na Quaresma, com despojamento do orgulho, vaidades e preconceitos, é tempo de aprofundar a relação com o Cristo crucificado, o Deus filho redentor da humanidade ajoelhada. Da humanidade verdadeira, não da mitológica. Do ser único, profundo e frágil, que eu sou. Mas ao qual mesmo na sua trágica precariedade, lhe é dada a graça do Amor, da reminiscência do Divino e do Perfeito.
A pouco menos de trinta dias da Páscoa de Nosso Senhor, alerto-me para o caminho de conversão e renúncia que me falta fazer. Sem a serenidade do monte Tabor, mas com o Jesus concreto da minha relação. Assim almejo uma renovação interior, a liberdade e a serena felicidade de quem sabe que nunca estará só.
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008
Amanhã é dia de quê?
E que, tal despachados os miúdos, aproveitarmos a última réstia de energia e escaparmos para um jantar a dois? Depois dum longo dia que começou de madrugada, isso é um risco e um provável desperdício de recursos. Para revirar a disposição e as energias não há um restart que nos valha.
Mas os condenados são aqueles namorados que só quererem a lua, quando têm a esplanada ao sábado de manhã, ou uma comédia inglesa noite dentro... quando as crianças já dormem.
Mas um dia destes garanto que vamos fugir só os dois por aí no carro pequeno. Mesmo que seja só por um dia, assim de sol como o de hoje, e sem culpas ou remorsos.
sábado, 1 de dezembro de 2007
Sólidos rituais
quarta-feira, 28 de novembro de 2007
O que me vale é que sou católico...
sexta-feira, 26 de outubro de 2007
Um epíteto equivocado
O puritanismo como putativo reflexo de uma vivência religiosa é um cliché vazio, posso garanti-lo. Tomo, na verdade, o puritanismo como um modo de autocastração com origem numa deficiente auto-estima, e muito aquém, aliás, de uma inspiração religiosa, qualquer que seja. Nessa perspectiva, o epíteto é ingénuo ou imanado de má-fé, pois o cristianismo não significa uma conduta moral. Ao contrário, essa ética resulta do contínuo aprofundamento da vivência espiritual apontando, por natural consequência, para uma maior exigência estética e, logo, ... moral.
Esse longo e intrincado percurso de aprendizagem e aperfeiçoamento é construído com as contingências subjectivas de cada indivíduo e sua história pessoal, não sujeitável a tribunais mundanos ou a juízos superficiais.
Assumem-se porventura os cristãos como os mais imperfeitos dos homens, tendo sido a estes que Jesus desejou acolher, “incluir”, como agora se diz. (Não deveríamos antes recear os integralíssimos virtuosos que por aí pululam, alienados de si próprios e da realidade, utopicamente empenhados em mudar o impassível “mundo” à sua volta?)
Voltando aos meus presumidos pudores e puritanismos, tenho a sorte de ter crescido numa família tradicional e sem “complexos” de maior. Se me foram transmitidos com veemência valores morais básicos, também me foi transmitida uma tranquila vivência dos assuntos do sexo e da sexualidade. Por outro lado, o meu desenvolvimento nesse campo não me trouxe qualquer trauma digno desse nome, o que me confere uma vida afectiva gratificante.
Considero-me uma pessoa inteiramente normal: vivo, cresci e actuo neste agitado contraditório e apaixonante mundo, sem fugas, em estrita relação com a realidade, como a maioria dos católicos que conheço. E foi de pequeno que aprendi a apreciar a vida, a beleza, em toda a sua acepção, até como reflexo da divina criação. Sem desnecessárias complicações moralistas. Não, não foi na rua que apreciei as primeiras imagens eróticas. Nunca a mais inquietante beleza feminina me foi apresentada como transgressiva. É que, por detrás da mais espampanante ou provocadora modelo fotográfica, por detrás da mais curvilínea actriz de cinema, há sempre uma pessoa inteira.
Finalmente, apetece-me dizer que antes do advento dos neo-moralistas de inspiração freudiana e da da prosélita “inteligentzia” regimental, havia já uma tradição de boa-educação e de bom-senso.
Mesmo para além (ou aquém) da religião. Não misturemos, pois, as coisas.
domingo, 26 de agosto de 2007
Tomando sempre novas qualidades...
Apercebo-me hoje que o meu pai ainda esboçou uns tímidos esforços, desajeitadas tentativas de intimidade, inspiradas nos inevitáveis sinais de mudança. Mas a rigidez dos "papéis" estava-lhe demasiado impregnada. Assim como aquela solidão.
A maior "revolução" dos tempos modernos é a revelação da plena paternidade. Hoje, conhecemo-nos cedo, com a ajuda da pele e de uma orgânica cumplicidade. Com muitas canções, lenga-lengas, banhos de banheira, de mar e de mundo. Depois de tudo isto, que venha a vida toda, com os seus anunciados terrores e tempestades. Seremos mais fortes, por certo, o que já não é pouco.
sábado, 14 de julho de 2007
Aprender a vida toda
A ignorância é tão atrevida...
É absolutamente espantoso André Ventura ter usado ontem, no debate da sua Moção de Censura, como “bom exemplo” a Revolução Puritana de Olive...
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Sabendo de como é coisa complexa e eu sei pouco do assunto, não perdi muito tempo a ver os pormenores das alterações ao código do trabalho. ...
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"Grossa asneira" foi como um amigo meu classificou o que fizeram Fernando Alexandre e Alexandre Homem Cristo. Quando perguntei qua...
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Estou cada vez mais irritado (e é difícil ficar ainda mais irritado, partindo do ponto em que estou) com a falta de qualidade e a estupidez...
