Vivo numa praceta pacata num subúrbio de Lisboa, rodeada de prédios baixos com uma volumetria humanizada que abraçam um jardim agradável, onde as crianças são convidadas a brincar e a andar de bicicleta – gosto muito desse salutar ruído que só a chuva e a noite silenciam. A vida aqui decorre fundamentalmente à volta da tabacaria e de um café-restaurante, além de outro comércio que atrai os forasteiros a frequentar este núcleo urbano. É como um bairro dentro de outro maior, onde se encontram a Igreja, o Liceu, o Centro de Saúde, a Escola Primária, o Centro Social e o Supermercado.
Cresci em Lisboa, no bairro de Campo de Ourique, onde aprendi a usufruir de um ambiente de aldeia em que a vizinhança é valorizada, as pessoas se cumprimentam na rua e se cruzam no café ou no supermercado. Talvez por isso sempre tenha cultivado as relações de proximidade — uma rede comunitária relativamente equidistante, mas nem por isso inócua. Regra geral, os vizinhos com quem me cruzei são pessoas afáveis ou, no mínimo, indiferentes; mas aprendi a importância de os cumprimentar, de lhes sorrir e, nalguns casos, até de fixar o seu nome. Claro que também me tenho deparado com moradores desagradáveis e, num ou noutro caso raro, conflituosos. A vizinhança é uma escola de política, que é o mesmo que dizer, de sabedoria de viver.
Na praceta onde actualmente vivo, poucas pessoas saberão o meu nome, mas quase todos se conhecem de vista, o que proporciona um ambiente confortável de segurança. Vem isto a propósito dum tratamento que se foi generalizando em relação a mim. Acontece que no café — que é, em certa medida, o coração social daquele microcosmo — me começaram a tratar por “vizinho”, um tratamento que já conhecia das relações que a vida de bairro ocasionava em Campo de Ourique. Ali, mais do que no restante comércio, comentam-se os resultados do futebol e até um ou outro epifenómeno político-noticioso, construindo-se uma relativa e reconfortante cumplicidade – sabem que sou do Sporting e de outras afinidades. Mas algo de diferente se passava neste caso, e notei-o certa vez em vésperas de Natal: ao levantar as minhas encomendas de filhoses e rabanadas, reparei que as caixas estavam todas assinaladas com a denominação “vizinho”. Ora, ser reconhecido assim, simplesmente como o “vizinho”, encheu-me de consolo. Em vez do vulgar “doutor”, que não sou, fui sendo baptizado como “o vizinho”. “Doutores” aqui na praceta são todos os senhores de meia-idade, de trajar mais ou menos circunspecto. Há várias figuras típicas, e até um doutor a sério, que é um simpático e excêntrico psiquiatra reformado. A mim, ao fim de quase três décadas de convivência, calhou-me o comovente epíteto de “vizinho”.
Publicado também no Observador

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