sábado, 19 de setembro de 2026

Mitos sobre a origem do problema palestiniano

 Nos mais radicais da causa palestiniana, mesmo quando disfarçada de uma suposta humanidade e racionalidade, é frequente encontrar o mito de que Israel foi criado em cima da expulsão e massacre dos que viviam na área designada em 1947 como destinada à criação do Estado de Israel.

Um resumo encontrado por aí que essencialmente serve como base de desmontagem desse mito.

"The reason it is confusing is that some estimates focus on TOTAL land, while others focus only on land in highly populated areas. Additionally, some do not differentiate between local Arab landlords and absentee landlords.

If we look at total land, then Jews owned about 10%, local Arabs owned about 20%, and the rest was state or absentee landlord land. Keep in mind, even that is a bit misleading, because that 20% is mostly land that had been owned by the Ottoman Empire, and local people allowed to use ... not true ownership. But the British counted land Arabs were living on/near as though they owned it, while they did not do the same for land Jews were living on/near — Jews had to formally purchase it to count as owners. If we apply even standards to both Jews and Arabs, then it's more like Jews owned 10% and Arabs owned 3%.

But if we look only at highly populated areas, and we do not distinguish between absentee landlords and local ones, then Arabs owned about 50% of the land, and Jews again owned 10%. Honestly, this is pretty misleading because Jews went on to build their villages and cities largely in places that had been unpopulated, and because it ignores the Arab absentee landlord situation. And even more importantly, the partition would leave the most heavily Arab populated land in the Arab state, not in the Jewish one.

WORTH POINTING OUT:

Honestly, none of this really matters since the partition would not have changed any private land ownership. Jews would have continued owning the land they had, both in Israel and in the new Palestinian state that would be created. Arabs would have continued owning the land they had, both in Israel and in the new Palestinian state that would be created.

For some reason, people imagine that creating a Jewish state would have meant banishing the Arabs from it, but that's simply not the plan that was offered in 1948. Displacement was the product of war."

Ao contrário dos mitos, não foram trazidos judeus para esta área pelas Nações Unidas, havia judeus e árabes na região, havia uma migração judia pelo menos desde meados do século XIX, em especial proveniente da Europa, mas todo o Médio-Oriente tinha comunidades judias importantes há séculos, algumas delas dentro do que é hoje o Estado de Israel (e mesmo dentro do que eram as fronteiras iniciais do Estado de Israel).

O estabelecimento do Estado de Israel não se fez, nem implicava, quaisquer deslocações ou alterações de propriedade (ainda hoje, depois de todas as voltas e guerras com os vizinhos árabes, a população árabe de Israel é de cerca de 20%, com todos os direitos económicos e políticos).

Como se explica então a persistência de um pecado original de ocupação e massacre dos anteriores ocupantes do território que é hoje o Estado de Israel.

Com a explicação mais habitual em todo o mundo, desde sempre, a guerra.

No dia seguinte à criação do Estado de Israel, os seus cinco vizinhos, com apoio da liga árabe, invadiram Israel, dando origem a uma guerra que durou pouco mais de um ano e que é conhecida entre os árabes como Nabka, ou catástrofe, porque se traduziu numa inesperada derrota dos exércitos árabes.

Provavelmente o erro de cálculo do nacionalismo árabe (nessa altura não a questão não era o islamismo mas o nacionalismo árabe, um frágil conceito que tinha emergido do fim do império otomano numa vasta região, maioritariamente pobre e ainda sem o dinheiro do petróleo) foi não entender que de um lado estava um conceito teórico - a afirmação da soberania árabe na região - sem grande apoio internacional (a criação de dois estados, um judeu e um árabe tinha sido aprovado por mais de dois terços dos países representados na ONU) e do outro estava uma questão existencial para comunidades judaicas que sabiam que não tinham para onde fugir.

A resistência de Israel teve êxito essencialmente com apoio do bloco de Leste (o armamento de Israel erra essencialmente checo) e deu origem a atrocidades horríveis de parte a parte, com chacinas de comunidades árabes e judias, deslocações, expulsões e todo esse cortejo habitual associado à guerra.

Essa guerra, na verdade, nunca acabou, não há tratados de paz assinados na altura, há um cessar fogo que mantém congelada a situação que dá origem ao problema palestiniano: nem os estados árabes reconhecem Israel, nem Israel recua dos territórios ocupados, por entender que as fronteiras iniciais eram indefensáveis.

Os desgraçados que foram apanhados entre dois fogos, as populações árabes que viviam por ali, uns fugiram, outros foram expulsos, outros ainda preferiram abandonar as suas terras com promessas de retorno posterior por parte dos países árabes, dando origem a cerca de seiscentos mil refugiados que, depois do genocídio a que estão sujeitos, são hoje cinco milhões (é a única situação do mundo em que o estatuto de refugiado é hereditário e dá origem ao acesso a recursos pagos pela comunidade internacional).

Acresce que os países que acolheram esses refugiados nunca lhes reconheceram direitos básicos de nacionalidade, direito à propriedade e ao trabalho, etc., mantendo-os em guetos pagos pelas Nações Unidas, o que tornou o problema insolúvel, no actual contexto.

A ideia de que há alguma possibilidade dos descendentes dos verdadeiros deslocados de guerra retornarem às terras originais, às casas originais, às propriedades originais, a esmagadora maioria delas sem títulos de propriedade reconhecidos por quem quer que seja, é uma ideia completamente estúpida.

Com o tempo, o enfraquecimento do nacionalismo árabe deu origem ao crescimento do islamismo radical que, com o apoio do Irão e de outros, se entretém a rebentar toda a região (é olhar para o exemplo do Líbano, o pais cristão da região, hoje transformado em ruínas pelo mesmo radicalismo islâmico), usando o problema dos refugiados palestinianos como pretexto.

Pretender que toda esta complexidade se explica com a maldade prevalecente no Estado de Israel que se funda numa ocupação, destruição, massacre de anteriores ocupantes do território é uma inutilidade e uma estupidez sem nome.

Talvez por isso ninguém perca tempo a defender a auto-determinação dos povos.

Não, não se trata de entregar poder à Autoridade Palestiniana, o que já foi feito, com maus resultados, nem entregar poder ao radicalismo islâmico, o que já foi feito com resultados ainda piores, trata-se de permitir duas coisas: a migração de quem quiser sair daquele vespeiro, e a consulta séria sobre o que querem as pessoas.

Até poderia acontecer que um referendo feito na Cisjordânea, ou em Gaza, as pessoas comuns escolhessem a integração do Estado de Israel, em vez da opção de ficar debaixo da pata dos torcionários corruptos que teoricamente as governam hoje.

É que a esmagadora maioria das pessoas querem a sua vida resolvida e a possibilidade de um futuro razoável para os seus filhos, estão-se nas tintas para as grandes questões geopolíticas.

15 comentários:

  1. Excelente resenha histórica.
    Sem ideologias, apenas factos, e sem tomar partido

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  2. Descrever o Líbano como "o país cristão da região" parece-me inexato. A maioria da população libanesa não é cristã nem, creio, jamais foi.

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    1. Sim, é inexacto, qual é a relevância disso para a questão?

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    2. A relevância não é nenhuma.
      Mas, na minha opinião, deve-se escrever com exatidão.

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    3. O post é sobre o problema palestiniano. De passagem, para realçar que os conflitos no médio oriente não se reduzem a Israel, refiro o país com a maior percentagem de cristãos do médio-oriente, chamando-lhe um país cristão, sem ter posto as aspas que acha que eu devia ter posto.
      Para ser rigoroso, tinha de ir fazer um desvio sobre as caractarísticas exactas do Líbano, chamando a atenção para o facto dos cristãos já terem sido a maioria da população, embora hoje não o serem.
      Acha mesmo útil neste contexto preocupar-se com um preciosismo irrelevante para o problema dos palestinianos?
      Eu não acho e não compreendo este tipo de comentários.
      Uma coisa é corrigir asneiras, outra coisa é achar que sempre que se escreve tem de se ser absolutamente rigoroso, em vez de concentrar esforços em ser claro.

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    4. Resposta ao Anónimo das 11H23
      Está errado. O Líbano resultou de uma "engenharia territorial" francesa para obter uma maioria cristã. Por isso o Chefe de Estado era sempre cristão maronita enquanto o presidente do Parlamento era sempre xiita e o primeiro-ministro sunita de acordo com distribuição na época.
      Como opinião pessoal de quem conhece relativamente bem o Líbano, que visitou mais de uma vez e onde vivia uma irmã casada com um libanês, o que a administração francesa (que repartia com a inglesa por mandato da ONU) fez, fosse porque motivo fosse, pode ser bem classificado como m crime político.

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  3. É de elementar justiça defender o Estado de Israel
    Uma democracia e um aliado ocidental
    A proposta árabe de um Estado judeu na Europa nunca fez qualquer sentido.

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    1. Se é um aliado ocidental, se calhar até fazia sentido...

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    2. Israel é Ocidente. Por isso é que os Marxistas o odeiam tanto. Esperavam que fossem Socialistas.

      Sobre alianças...: há 2 semanas um fragata Alemã no Mar do Norte disparou um míssil balístico Israelita com 400km de alcance. Tal foi colocado em grande destaque no twitter da NATO.

      Dado que a pior profissão que existe escolheu ser uma desgraça activista monocultural enfiando-se num buraco onde várias das mais importantes actividades humanas é seguida ou compreendida
      tal não foi parte das "noticias".
      Ninguém pode dizer que está informado por ler jornais ou ver as "notícias"

      Se formos á história recente é bem possível que a Guerra Fria pudesse ter ficado quente sem os sucessos militares Israelitas. Especialmente significativa derrota da defesa aérea da Síria em 1982 desenhada pelos Soviéticos. Muitos generais Soviéticos queriam após os vários sucessos dos anos 70 avançar para a guerra.

      È preciso compreender a importância dos sucessos e derrotas dos países fronteira como informação para os centros dos impérios.

      E neste caso a extrema importância da guerra que está a acontecer hoje para o Ocidente uma vez que estamos a entrar na Era do Míssil era crucial testarmos as nossas defesas e ser possível acabar e minimizar programas militares demasiado complexos em que temos caído.

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  4. Entretanto

    https://www.bbc.com/news/articles/c63d7lexyym1o

    Bem a Europa, a perceber qual o seu aliado preferencial

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  5. A questão de grande parte das terras propriedade de árabes não serem propriedade de locais mas de latifundiários absentistas que cultivavam a terra com recurso a rendeiros e caseiros será assim tão relevante?

    Ok, é relevante num assunto - tornou mais fácil no processo inicial de colonização judaica adquirar terras (um grande proprietário vivendo em Beirute vende a sua terra mais facilmente que um pequeno proprietário que vive no e cultiva o seu terreno), mas fora isso não vejo que face grande diferença (alguns podem argumentar que ainda é pior, porque assim além das terras expropriadas pelas leis de 1950, mesmo o processo de compra de terras a grandes proprietários árabes e despejo dos respetivos rendeiros árabes significa uma razão adicional de queixa de alguns árabes, ao contrário do que seria se as terras fossem compradas a camponeses-proprietários).

    Já agora, a guerra e a fuga dos árabes da Palestina não começou no dia a seguir à proclamação do Estado de Israel - a guerra já durava à quase um ano e grande parte da população árabe já estava em fuga, sobretudo depois de Deir Yassin (um mês antes da independência.

    Agora, há muitas dúvidas sobre qual a causa da fuga (ou eventual expulsão) de grande parte dos árabes da Palestina, mas há relatos comprovados de pelo menos nalguns sitios ter havido ordens de expulsão da população árabe (e de em Jerusalém os israelitas fazerem telefonemas anónimos a árabes proeminantes para os convencer a fugir; em "Oh, Jerusalém" Dominique Lapierra e Larry Collins até falam do caso caricato de tentarem fazer esses telefonemas a uma senhora da alta sociedade árabe cristã da cidade e não conseguirem porque... o telefone estava sempre ocupado!)

    E de qualquer maneira, vamos fazer contas - se não tivesse havido uma fuga ou expulsão em massa da população árabe, Israel não seria um estado judaico (na partição inicial, o estado judaico já era suposto ter uns 40% de árabes; com mais os territórios adquiridos na guerra de 47/49, sem a saida massiva da população árabe (para aí uns 80% dos árabes que viviam no território que em 1949 ficou para Israel) Israel seria mais um estado árabe na região; ou seja, uma lógica cuo buono, "quem ganha", é suficiente para suspeitar que Israel teria interesse em fomentar a fuga dos árabes

    De qualquer maneira, não acho que haja grande diferença entre expulsar pessoas vs. depois de elas sairem pelo seu pé não as deixar regressar.

    Já agora, convém lembrar quem em 1950 Israel não expropriou só as terras dos árabes que tinham fugido para os países vizinhos - todos os que fugiram do sitio onde viviam habitualmente foram expropriados, incluindo os que fugiram para território que, em 1949, ficou à mesma em Israel (os chamados "ausentes-presentes")

    Finalmente, há muita essa conversa que os palestinianos são os únicos refugiados hereditários, mas refugiados hereditários é o que mais há por esse mundo fora - os karen que fugiram da Birmânia para a Tailândia continuam ser considerados refugiados há gerações; o mesmo para os refugiados afegãos (muitos desde a invasão soviética) no Paquistão e no Irão (sobretudo se os refugiados estiverem em países com nacionalidade assente no jus sanguinis, como poderia ser de outra maneira?)

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    1. Mto boa informação. Contudo, e com a ONU impávida e serena, a chegada persistente de colonos, colonatos sobre colonatos com expulsão de naturais, com os casos recentes com o conflito Gaza e Líbano!

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    2. Misturar os 400 mil refugiados Karen, que hoje são menos de cem mil, com os seiscentos mil, que hoje são cinco milhões, palestinianos não tem pés nem cabeça (começando pelo facto de haver muito mais Karen entretanto integrados na sociedade tailandesa (e australiana, já agora) que os que estão nos campos, ao contrário do que acontece com os palestinianos)

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  6. Como disse Golda Meir: Se pousarem as armas há paz, se pousarmos as armas somos eliminados

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  7. Sem Israel não existiriam Palestinianos.
    Seriam Jordanos e Egípcios e como tal não interessariam á URSS e á esquerda Marxista Ocidental.

    Como maioria da população da Jordania é Palestiniana e nenhum Marxista se preocupa que não existam politicamente e sejam controlados por uma monarquia.
    Note-se que a Jordania, parte do Mandato da Palestina foi entregue á tribo da Àrabia derrotada na guerra civil como compensação pelos Ingleses.
    Em vez de Arábia Saudita(da tribo de Saud) bem poderíamos ter tido a Arábia Hachemita.

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