quinta-feira, 16 de julho de 2026

A esquizofrenia instalada no espaço público

 "Fernando Alexandre poderá vir a encontrar-se numa situação tão frágil em termos políticos que o ministro-estrela do Governo perderá condições para se manter no cargo. E, se isso acontecer, não se perderá apenas um ministro da Educação altamente qualificado - perde-se também o ministro com maior energia reformista do actual executivo e acendem-se todas as luzes de travagem do calhambeque governamental".

João Miguel Tavares escreveu isto, mas poderia ser mais de 90% das redacções e comentariado político a achar normal perder um ministro que se considera bom apenas porque terá cometido um erro relevante.

Não é estranho, culturalmente, em Portugal, é muito frequente a ideia de que falhar é uma coisa inaceitável, não apenas nos ministros, mas também nos empresários, nos artistas, nos futebolistas.

Falhar é muito mais provável que ter sucesso e são muito raras as pessoas que, tendo sucesso, não coleccionaram dezenas de falhanços antes ou depois de terem sucesso, o que não faltam são empresários que falharam, mesmo sendo grandes empresários.

Para lembrar um exemplo muito conhecido, a Jerónimo Martins ia indo à falência com os erros do processo do Brasil, e o que não faltam são falhanços de Belmiro de Azevedo, que nunca conseguiu ter um negócio bancário que tenha corrido bem.

Imaginemos que tudo corre ainda muito mal no processo de exames.

Isso demonstraria que Fernando Alexandre teria falhado em toda a linha nesse processo.

Não vou discutir o argumento das pessoas que acham que esse falhanço resulta de ter confiado nos seus serviços (como confiou logo de entrada nos números de alunos sem aulas), o que é um erro indesculpável (como eu gostava de ver estes campeões a gerir o monstro do Ministério da Educação sem confiar em ninguém, só para comparar resultados).

Imaginemos que não há nada a discutir sobre razões para o falhanço e que toda a responsabilidade é de Fernando Alexandre, que mais ou menos toda a gente reconhece ser um bom ministro, isto é, um ministro que tenta aplicar políticas razoavelmente sensatas de transformação do sector da educação, com resultados bastante razoáveis até ao momento, numa gama de assuntos incrivelmente grande (sim, um dos problemas é que o ministério da educação é mastodôntico e as escolas deveriam ter verdadeira autonomia, acontece que não há apoio social para liberalizar radicalmente o sector).

Por causa de um falhanço, por mais monumental que seja, considera-se que o ministro deve sair.

Muito bem, parece razoável, sobretudo se se repetirem frases genéricas e ocas como "a culpa não pode morrer solteira", ou "alguém tem de ser responsável", como se ser responsável implicasse não cometer erros e não reconhecê-los e procurar resolvê-los quando ocorrem, para que não se repitam.

Ficaríamos melhor se o ministro saísse?

Estaríamos melhor empurrando um ministro pelas escadas abaixo, em vez de aproveitar a experiência que resulta do falhanço para ter um ministro melhor, isto é, o mesmo ministro depois do erro, em vez de um ministro pior, isto é, um novo ministro que tenderia a começar tudo de novo, amedrontado com a experiência do ministro anterior e especialista em fazer-se de rolha, como fizemos com a Administração Interna, neste mesmo governo?

É espantosa a incapacidade do espaço público discutir políticas públicas com os pés bem fincados na terra e não com base nestas fantasias de que os ministros (os artistas, os futebolistas, os empresários, etc., etc., etc., desde que sejam os outros) devem sair quando falham.

Falhar é mau, mas ficar aprendendo com o que falhou é um capital que se deveria valorizar muito mais do que se valoriza num país que acha que Guterres ou Costa fizeram muito bem em fugir das consequências dos seus falhanços.

12 comentários:

  1. Há gente, mesmo dentro do PSD que gostaria de ver Fernando Alexandre substituído por Margarida Balseiro Lopes.

    ResponderEliminar
  2. Também devemos aplicar o mesmo princípio aos jornalistas.
    Quando erram (muitas das vezes) também deveriam ser responsabilizados.

    ResponderEliminar
  3. aproveitar a experiência que resulta do falhanço

    O que acontece é que já no ano passado se tinha experimentado, somente com a disciplina de filosofia, o modelo de exames que se seguiu este ano, e deu errado.

    Ou seja, no ano passado falhou-se mas, apesar disso, este ano repetiu-se a experiência - só que, de forma generalizada a todas as disciplinas.

    Eu diria que, se se falha uma vez, deve-se tentar corrigir os erros e voltar a tentar; mas, mais uma vez, numa só disciplina. Só quando o método funcionasse bem com duas ou três disciplinas em simultâneo é que se deveria tentar generalizá-lo a todas as disciplinas.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Tem alguma informação concreta e verificável de que foram os mesmos erros que foram cometidos, e que os erros detectados na experiência piloto não foram corrigidos?

      Eliminar
    2. E outra: quem fica mal quando uma empresa falha são os acionistas dessa empresa, ou grupo de empresas como as que constam do texto. Neste caso quem ficou mal foram os alunos. Diria que estes últimos têm maior importância a nivel nacional que um accionista da Jerónimo Martins

      Eliminar
  4. O Ministro foi sabotado e isso devia ser investigado.

    A Comunicação Social ajudou gostosamente á festa, quando em verdade a devia ter denunciado e desmontado.

    O Ministério é mastodontico é uma evidência, mas isso não é desculpa; muitas coisas neste mundo o são; há aviões, navios, cidades, empresas, exércitos, hospitais, etc., gigantescos e não obstante, perfeita e eficazmente governaveis.

    O Ministro foi sabotado por gente mesquinha, pequenina e miserável

    Está a acontecer agora, uma situação bastante parecida com o Ministro Neves da Administração Interna creio.

    Só porque o homem fez de um poço uma "piscina", começaram todos a guinchar como se houvesse crime.

    A mesma Comunicação Social, que agora grita de puro horror com o poço/piscina do Ministro, viu, anos a fio, gente fina a sacar dinheiro á Europa, para fazer poços agrícolas que passado o prazo legal, seriam promovidos a Piscinas.

    E claro que foram.

    Nem um piu se ouviu então, da Comunicação Social.

    E falam agora?

    Vão se catar




    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Há um problema grave como a Comunicação Social que temos. Ela é típica de uma ditadura. Como vamos saber o que a Comunicação Social fará de errado? Não vamos pois eles é que determinam o que sabemos. Assim é fácil os jornalismos apontarem o dedo a todos! Como é possível isto acontecer no ano 2026! O povo é idiota pois ou não percebe este problema gravíssimo ou percebe e não faz nada. Claramente vivemos um retrocesso.

      Eliminar
    2. O Povo está se borrifando na Comunicação Social e tem manifestamente, mais que fazer.



      Eliminar
  5. Cada vez é mais difícil encontrar pessoas competentes, experientes e sérias dispostas a assumir cargos ministeriais em Portugal. O escrutínio permanente, a exposição mediática e política, muitas vezes desproporcionada, e o desgaste pessoal e familiar fazem com que aceitar um cargo destes seja, para muitos, um verdadeiro ato de masoquismo.

    O problema é que esta realidade afasta precisamente aqueles que, em teoria, poderiam trazer maior competência e experiência para a governação. Se esta tendência se mantiver, corremos o risco de reduzir progressivamente o universo de candidatos qualificados para funções governativas, com consequências potencialmente graves para a qualidade das políticas públicas e para o próprio funcionamento da democracia.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Sim é um sério problema que não me parece que seja resolvido quando os próprios visados estão muitos contentes em serem socialistas e social democratas. Ou seja fazerem uma imensidão de leis, regulamentos, taxas que sustentam estes partidos para depois serem levados para a forca mediática por causa do que criaram. Se o Neves é apanhado por causa de uma piscina a pergunta é porque é que a cultura social democrata pune a construção de piscinas.

      Eliminar
  6. "Para lembrar um exemplo muito conhecido, a Jerónimo Martins ia indo à falência com os erros do processo do Brasil, e o que não faltam são falhanços de Belmiro de Azevedo, que nunca conseguiu ter um negócio bancário que tenha corrido bem."

    Mas tinham sucessos para sustentar falhanços.
    Onde estão os sucessos deste ministro?
    Conseguiu por exemplo reduzir a dominação da esquerda marxista nos currículos do ensino?
    Eu não tenho seguido este ministro por isso a pergunta não é retorica.

    ResponderEliminar
  7. "Desde que sejam os outros, devem sair quando falham." Como temos uma ditadura na CS onde a informação é controlada, os jornalistas nunca falham! Não sabemos que falham! Logo eles nunca devem sair, só os outros é que devem. Se o que temos na CS é legal, somos piores que um país do terceiro mundo e as pessoas são tratadas como lixo.

    ResponderEliminar

A amputação da alma humana

Chamou-me a atenção um comentário lido no Facebook, a propósito da aprovação da lei da eutanásia em França, que me pareceu um autêntico mani...