quinta-feira, 16 de julho de 2026

A amputação da alma humana


Chamou-me a atenção um comentário lido no Facebook, a propósito da aprovação da lei da eutanásia em França, que me pareceu um autêntico manifesto da soberba contemporânea. Alguém escrevia, convictamente, que a morte é um "direito", que a vida cabe a cada um e que os cuidados paliativos servem apenas para "estender o sofrimento". O comentário não é isolado; é o eco de uma época anestesiada pelo hiperindividualismo, onde impera a subjectividade que confunde a autonomia com o capricho e a dignidade com a recusa absoluta da fragilidade, do sofrimento e da dor. Um cancro do liberalismo em processo de autofagia.

Este discurso expõe o maior mito da modernidade: a utopia de uma vida sem dor. Criou-se a ilusão de que a existência humana pode ser higienizada e programada. Perante isto, a advertência do Papa Leão XIV na sua encíclica Magnifica Humanitas surge como um choque de realidade necessário: adverte o Pontífice que a tentativa de programar uma existência imune à dor resulta "na própria amputação da nossa humanidade". Seja no deslumbramento da Inteligência Artificial ou na pressa em legalizar a eutanásia, o erro é exactamente o mesmo: o de uma sociedade utilitarista que prefere apagar a fragilidade a ter de cuidar dela. Não é possível ao homem separar a dor do prazer, o amor do sofrimento, o riso do choro.

Revela-se também nesta perspectiva uma profunda ignorância sobre o que é a medicina paliativa. Longe de ser um prolongamento da agonia, os cuidados paliativos são a resposta científica e espiritual ao sofrimento mortal. Definidos pela Organização Mundial da Saúde como uma abordagem que defende a dignidade até ao fim, eles não antecipam nem atrasam a morte. Actuam sobre a "dor total" — que é física, mas também psicológica e existencial — através do controlo rigoroso de sintomas. E para os casos limite de sofrimento intratável, a medicina oferece a sedação paliativa, provando que é perfeitamente possível anestesiar a dor sem eliminar a vida. O argumento de que é preciso matar para aliviar não é compaixão; é incompetência médica e social.

O erro mais grave, contudo, é político. Assistimos, de forma impávida, a assembleias legislativas que avocam a si o direito de deliberar sobre o indisponível. Legisla-se em âmbitos que simplesmente não pertencem ao Estado. A dignidade da vida humana não é uma moeda de troca conjuntural, nem pode estar sujeita às maiorias parlamentares do momento ou à histeria colectiva das caixas de comentários. Há valores absolutos que deveriam permanecer a montante da política de circunstância. Simplificando porventura demasiado uma discussão que aqui não cabe, pergunto: se transformamos o direito à vida num direito condicionado ao bem-estar e à conveniência, abrimos uma porta perigosa. Quem decidirá amanhã que vidas preenchem os requisitos para continuar a existir?

Uma civilização não se mede pela facilidade com que descarta os seus membros mais frágeis, mas pela eficácia e pelo amor com que os ampara. Disfarçar a eutanásia de "progresso" é um acto de cobardia civilizacional. Não estamos a expandir direitos; estamos a legitimar o abandono sob o pretexto de respeitar a liberdade. No dia em que a morte for o principal remédio para a dor, teremos ganho a autonomia dos robôs, mas teremos perdido, definitivamente, a nossa alma.

Conheça aqui a Associalão Portuguesa dos Cuidados Paliativos

Imagem, Vatican News

3 comentários:

  1. Coloco-me inteiramente ao lado deste artigo.

    Legalizar a Eutanásia, ainda que com precauções e paninhos quentes, é para começar uma aberração, um atentado aos Direitos do Homem, uma canalhice face á História e um insulto á Moral e á Ética.

    Francamente, está classe de pseudo gente é indigna de todos os que antes de nós penaram, quantas vezes com sacrifício da própria vida, para que tivéssemos chegado até aqui.

    Sugiro vivamente que a partir de agora, se e vote só em partidos que expressamente se manifestem contra a Eutanásia, e se proponham a combater e erradica-la.

    Á chapada se necessário for




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  2. Concordo que ninguém tem direito de interromper uma vida, apenas porque é dolorosa. Mas também ninguém tem o direito de a manter artificialmente.
    É desligar máquinas, e Deus que decida

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  3. " ... se transformamos o direito à vida num direito condicionado ao bem-estar e à conveniência, abrimos uma porta perigosa." Já está aberta entre nós desde 2007, quando se legalizou o homicídio até às 10 semanas de vida por mera "vontade da mulher".

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