Chamou-me a atenção um comentário lido no Facebook, a propósito da aprovação da lei da eutanásia em França, que me pareceu um autêntico manifesto da soberba contemporânea. Alguém escrevia, convictamente, que a morte é um "direito", que a vida cabe a cada um e que os cuidados paliativos servem apenas para "estender o sofrimento". O comentário não é isolado; é o eco de uma época anestesiada pelo hiperindividualismo, onde impera a subjectividade que confunde a autonomia com o capricho e a dignidade com a recusa absoluta da fragilidade, do sofrimento e da dor. Um cancro do liberalismo em processo de autofagia.
Este discurso expõe o maior mito da modernidade: a utopia de
uma vida sem dor. Criou-se a ilusão de que a existência humana pode ser
higienizada e programada. Perante isto, a advertência do Papa Leão XIV na sua
encíclica Magnifica Humanitas surge como um choque de realidade
necessário: adverte o Pontífice que a tentativa de programar uma existência
imune à dor resulta "na própria amputação da nossa humanidade". Seja
no deslumbramento da Inteligência Artificial ou na pressa em legalizar a
eutanásia, o erro é exactamente o mesmo: o de uma sociedade utilitarista que
prefere apagar a fragilidade a ter de cuidar dela. Não é possível ao homem
separar a dor do prazer, o amor do sofrimento, o riso do choro.
Revela-se também nesta perspectiva uma profunda ignorância
sobre o que é a medicina paliativa. Longe de ser um prolongamento da agonia, os
cuidados paliativos são a resposta científica e espiritual ao sofrimento
mortal. Definidos pela Organização Mundial da Saúde como uma abordagem que defende
a dignidade até ao fim, eles não antecipam nem atrasam a morte. Actuam sobre a
"dor total" — que é física, mas também psicológica e existencial —
através do controlo rigoroso de sintomas. E para os casos limite de sofrimento
intratável, a medicina oferece a sedação paliativa, provando que é
perfeitamente possível anestesiar a dor sem eliminar a vida. O argumento de que
é preciso matar para aliviar não é compaixão; é incompetência médica e social.
O erro mais grave, contudo, é político. Assistimos, de forma
impávida, a assembleias legislativas que avocam a si o direito de deliberar
sobre o indisponível. Legisla-se em âmbitos que simplesmente não pertencem ao
Estado. A dignidade da vida humana não é uma moeda de troca conjuntural, nem
pode estar sujeita às maiorias parlamentares do momento ou à histeria colectiva
das caixas de comentários. Há valores absolutos que deveriam permanecer a
montante da política de circunstância. Simplificando porventura demasiado uma
discussão que aqui não cabe, pergunto: se transformamos o direito à vida num
direito condicionado ao bem-estar e à conveniência, abrimos uma porta perigosa.
Quem decidirá amanhã que vidas preenchem os requisitos para continuar a
existir?
Uma civilização não se mede pela facilidade com que descarta
os seus membros mais frágeis, mas pela eficácia e pelo amor com que os ampara.
Disfarçar a eutanásia de "progresso" é um acto de cobardia
civilizacional. Não estamos a expandir direitos; estamos a legitimar o abandono
sob o pretexto de respeitar a liberdade. No dia em que a morte for o principal
remédio para a dor, teremos ganho a autonomia dos robôs, mas teremos perdido,
definitivamente, a nossa alma.
Conheça aqui a Associalão Portuguesa dos Cuidados Paliativos
Imagem, Vatican News
Coloco-me inteiramente ao lado deste artigo.
ResponderEliminarLegalizar a Eutanásia, ainda que com precauções e paninhos quentes, é para começar uma aberração, um atentado aos Direitos do Homem, uma canalhice face á História e um insulto á Moral e á Ética.
Francamente, está classe de pseudo gente é indigna de todos os que antes de nós penaram, quantas vezes com sacrifício da própria vida, para que tivéssemos chegado até aqui.
Sugiro vivamente que a partir de agora, se e vote só em partidos que expressamente se manifestem contra a Eutanásia, e se proponham a combater e erradica-la.
Á chapada se necessário for
Concordo que ninguém tem direito de interromper uma vida, apenas porque é dolorosa. Mas também ninguém tem o direito de a manter artificialmente.
ResponderEliminarÉ desligar máquinas, e Deus que decida
" ... se transformamos o direito à vida num direito condicionado ao bem-estar e à conveniência, abrimos uma porta perigosa." Já está aberta entre nós desde 2007, quando se legalizou o homicídio até às 10 semanas de vida por mera "vontade da mulher".
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