quinta-feira, 3 de agosto de 2023

O tempo e o dinheiro dos jornalistas

Ainda a propósito das afirmações de Tiago Oliveira, absolutamente factuais, de que as Associações de Bombeiros são financiadas como uma fórmula que acaba a dar um peso enorme à área ardida e número de ocorrências (se alguém tiver dúvidas é ler a explicação de Joaquim Sande Silva, José Miguel Pereira e Paulo Fernandes que o Público publica hoje), isto é, existe um incentivo negativo para a resolver o problema, alguém comentava num post meu anterior sobre o assunto que era preciso que o jornalismo tivesse dinheiro e tempo para avaliar o que é dito no espaço público.


Em primeiro lugar, essa é a função do jornalismo, se abdica dela por falta de dinheiro e tempo, mais vale que os jornalistas se dediquem à pesca.


Mas mesmo que isso fosse justificação para não cumprir a sua função, se aparece um camarada de Olhão, a dizer que alguém com um curriculum sério de gestão do fogo não percebe os problemas do interior, não contestando nenhum facto e desviando a conversa, não é preciso nem tempo nem dinheiro para perceber quem sabe do que fala e quem fala sem saber o que diz.


É muito difícil mudar alguma coisa no país a partir do momento que tudo tem o mesmo valor para os jornalistas, eu dizer que a terra é redonda ou é plana é igual para o jornalismo e perante o espanto de se dar a mesma importância a quem diz que a terra é redonda ou plana, argumentar que os jornalistas não têm, tempo, dinheiro ou conhecimento para avaliar quem está certo, acho uma coisa extraordinária.


Mas sendo extraordinária, é o habitual na gestão do fogo, como se demonstra pelo importância que durante anos se deu a um bombeiro cuja principal contribuição para a gestão sensata do fogo deve ter sido a imorredoira afirmação de que o facto é que nunca nenhum fogo ficou por apagar, o que demonstrava a excelência do combate ao fogo feito pelos bombeiros.


O Tibunal de Contas constatar que há um incentivo negativo no financiamento das associações de bombeiros não é nenhum julgamento moral sobre os bombeiros, é verificar que financiar bombeiros através de uma fórmula em que a área ardida e o número de ocorrências pesam substancialmente nesse financiamento parece uma coisa tonta que é preciso corrigir.


Pedir a demissão de um responsável que se limitou a dizer isto, alto e bom som, aos deputados que nos representam, para ver se conseguimos sistemas melhores de convivência com o fogo, não é, com certeza, má fé, mas é seguramente falta de juízo e estudo do assunto.


E seria bom que os jornalistas percebessem bem que dizer que a terra é plana ou redonda não tem o mesmo valor, sendo evidente que, no caso dos fogos, já era tempo de dar menos importância aos terraplanistas.

2 comentários:

  1. Li alguém que escrevia esta semana, depois de insultar (justamente) esta e aquela classe, que os jornalistas são jornalistas e por isso não precisam de mais adjectivos que os desqualifiquem.

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  2. Muito bom e sintomático. Apenas um comentário -e fora do tema fogo- ao fim de 2 dias.

    Isto sobre uma constatação técnica, óbvia. Que envolve uma vasta e caríssima máquina -supostamente a mais aconselhável e eficiente- o estrito combate ao fogo.

    Não se argumentou ordenamento do território. Não se argumento espécies e planeamento florestal. Não se argumentou prevenção e controlo local. Nem se argumentou qualidade da actual resposta ao fogo por nenhuma das entidades envolvidas.
    Argumentou-se apenas sobre o formato das verbas atribuíveis para uma das múltiplas componentes do todo....
    Ou não é, de todo, verba significativa, ou é um grande tabu.

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