quarta-feira, 5 de julho de 2023

Para quê?

"Se a campanha que defende o polícia tem o triplo das doações da campanha da vítima, não podemos dizer que quem se identifica com o polícia não tem determinação na defesa dos seus direitos.


Não me parece que matar um rapaz de 17 anos, que está desarmado, com um tiro nas costas, possa ser considerado um direito. E espero que as pessoas que defendem gestos destes não sejam uma maioria em França."


A estupidez deste comentário ao meu post anterior merece que lhe dedique este post.


Comecemos pelo começo.


Havia (pelo menos uma foi encerrada ao fim de cinco dias, o que se compreende porque tinha um objectivo de 50 mil euros e já estava em mais de um milhão e seiscentos mil euros, provenientes de mais de 85 mil doações) duas campanhas de recolha de fundos, uma para apoio à família da vítima, outro para apoio à família do agressor.


Pretender fazer uma piada com a disparidade de valores das duas campanhas (1 636 240, provenientes de mais de 85 mil doações, e 418 632, provenientes de 21 426 doações) em vez de discutir as razões pelas quais uma campanha a favor de uma vítima é tão menos mobilizadora que uma campanha a favor da família do polícia que matou um miúdo de 17 anos, só se explica por não querer ver a realidade social que dá origem a esta coisa espantosa.


Para wokes e afins, para quem o mundo é simples, há opressores e oprimidos, perfeitamente identificados por grupos sociais definidos a partir dos nossos preconceitos, e a diferença entre as duas campanhas explica-se facilmente: os franceses são racistas, a polícia francesa ainda mais e está infiltrada pela extrema-direita que pretende expulsar os imigrantes para os seus países de origem porque odeia árabes, pretos e outros que tais.


Nem reparam que o rapaz que morreu não é magrebino, é francês (embora proveniente de uma família com raízes no magreb) e que se calhar é preciso perder algum tempo a tentar perceber duas coisas essenciais:


1) o que faz um miúdo de 17 anos achar que é boa ideia andar a conduzir sem carta um carro relativamente caro, apenas para se divertir, não cumprindo as regras de trânsito e, perante a abordagem da polícia (bastante provável dadas as circunstâncias), a melhor opção é procurar fugir?


2) o que faz uma polícia de um país civilizado fazer abordagens violentas em simples operações de controlo de trânsito, ao ponto de haver tiros e mortes?


Procurar perceber estas duas coisas foge da simplicidade que wokes e afins procuram activamente como base para demonstrar ao mundo a sua virtude, mas tem um pontencial para que nos concentremos nos problemas sociais de fundo e, por essa via, ir tentando resolvê-los.


É claro que quem parte de simplificações destas, rapidamente chega a simplificações bem mais estúpidas:


1) "matar um rapaz de 17 anos, que está desarmado, com um tiro nas costas";


2) "Não me parece que matar um rapaz de 17 anos, que está desarmado, com um tiro nas costas, possa ser considerado um direito."


Estas simplificações estúpidas (desculpem-me insistir nesta qualificação) parecem ter como objectivo desqualificar quem se limita a fazer perguntas e ter dúvidas, atribuindo-lhe uma maldade indefensável: "defendem gestos destes".


Eu, e suponho que a maioria das pessoas, não defendo a existência de algum direito da polícia matar quem quer que seja, nas circunstâncias que decidir.


O que eu, e suponho que a maioria das pessoas defendem, é que estes polícias têm direito a um processo justo, com todas as garantias de defesa, antes de serem condenados, esse é que é um direito da maioria que, frequentemente, não é defendido com a determinação que deveria.


Do mesmo modo, defendo o direito à segurança de pessoas e bens, direito que frequentemente não é defendido com a determinação que me parece necessária.


E defendo que perante a lei, e o seu incumprimento, somos todos iguais, independentemente de sermos vítimas de injustiças estruturais - isso pode entrar nas circunstâncias atenuantes do julgamento do comportamento de uma pessoa, mas não substitui a necessária responsabilização de cada um pelas suas acções voluntárias e conscientes.


Tudo isto é matéria de opinião e cada tem a que entende.


O que não faz sentido é desvalorizar o significado social da disparidade de sucesso de duas campanhas, uma a favor da família da vítima e outra da família do agressor, ou interpretá-la apenas pelo estreito prisma do racismo estrutural e outras abstracções fofinhas.


A diferença de resultados das duas campanhas traduz um mal estar social que não diz apenas respeito à falta de respeito dos direitos das minorias, bem pelo contrário, reflecte o mal estar social da maioria.


E isso é uma assunto sério, não me parece útil tratá-lo estupidamente.

15 comentários:

  1. Talvez quando perceberem que os direitos das minorias não passam pela subjugação da maioria à anarquia imposta pelas minorias, fenomenos como os da campanha não se verifiquem.

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  2. Parece que o meu comentário bateu numa ferida qualquer, visto ter direito a um post só para ele. Vou tentar explicar-me sem cair na estupidez de dizer que quem não concorda comigo é estúpido.
    Independentemente de todas as outras causas subjacentes os atuais tumultos em França foram despoletados pela morte de um rapaz de 17 anos durante uma operação policial. Parece-me que todos concordamos que matar pessoas sejam franceses, magrebinos, portugueses, polícias ou outras é errado, a menos que seja inevitável para prevenir um mal maior. Ora neste caso, apesar do que chegou a ser afirmado pela polícia, não houve legítima defesa nem estava em causa a segurança de vidas de terceiros. A polícia matou alguém que andava a conduzir sem carta. Talvez considere isso um crime horroroso que merece a pena de morte no local do crime, a mim não me parece.
    Não compreendo muito bem os objetivos das campanhas de angariação de fundos, a justiça francesa deve andar pelas ruas da armargura se são precisos milhões para uma pessoa se defender em tribunal. Parece-me que estas angariações destinam-se a fazer uma afirmação: que as pessoas que se identificam com os dois lados querem marcar pesença contribuindo. Sendo assim de acordo com esta lógica (que considero errada), quem arrecada mais dinheiro tem mais apoios, o que invalida bastante a ideia que os polícias são perseguidos desapoiados.
    Note que estes peditórios em nada se referem às condições das restantes pessoas envolvidas nos tumultos.
    Não sei se considera que pertence a uma maioria perseguida, normalmente temos tendencia a considerar os que nos são próximos como a maioria da população mas nem sempre isso é verdade. Tenho a certeza que se perguntar a todos os franceses se acha que se deve atirar a matar num caso destes a maioria responderá que não. 
    Quanto ao processo justo para os polícias, isso depende do que se considera justiça, os casos de brutalidade policial têm sido, lá como cá, famosos por darem penas muito leves ou absolvições.
    Por último as suas referências aos "wokes e afins" e à "raça" dos intervenientes. Se for ver o meu comentário não falo em nada disso, nem digo que os tumultos estão certos ou errados, mas a sua obsessão com esses assuntos leva-o a cair num tipo de argumentário "direita-esquerda" ou "benfica-sporting" que faz muito pouco sentido.

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  3. Vamos construir a notíca de outra maneira para o Jo perceber:



    A classe neo-marxista foi mudada, as opiniões também...


    Mais uma adenda para as notícias: Carro ataca multidão, carro mata...


    Sobre o caso em particular. Não faço ideia dos particulares da zona onde foi interceptado. Vamos supor que poderia ser um carro a servir para correio de droga e que é habitual estarem armados.
    Com tudo dito qualquer policia tem de justificar o disparo que faz em qualquer circunstância.

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  4. Se bem entendo, o camarada, que começa por me tratar como um desqualificado moral que defende o direito a matar pessoas desarmadas pelas costas, tem dificuldade em entender a diferença entre fazer comentários estúpidos, coisa que todos fazemos, e ser estúpido, coisa que só alguns de nós somos.
    Em qualquer caso, parece-me haver uma evolução muito positiva no seu comentário, ao evitar repetir a estupidez de que um polícia terá matado um homem desarmado (já agora, para saber se ele está desarmado, a maneira mais segura é deixar que ele use a arma, e então, a polícia pode responder ao mesmo nível, é assim que funciona, na sua cabeça, não é?) pelas costas.
    Não, a polícia não matou alguém que estava a conduzir sem carta, a polícia matou (o tribunal dirá de voluntária ou involuntariamente) uma pessoa que estava a resistir à polícia.
    Exactamente, a campanha torna evidente que a polícia, mesmo com sérias e fundadas razões para se admitir que teve uma actuação excessiva de que resultou uma morte, tem muito mais apoio das pessoas comuns que a vítima, ao contrário do que se poderia pensar pela leitura de jornais ou de opiniões como a sua.
    E que isso nos deveria levar a pensar nas razões para isso aconteça.
    Provavelmente, ao contrário do que o camarada pensa, o sistema judicial até funciona razoavelmente e não funciona como o camarada acha que devia ser: sempre que o sistema judicial conclui que a actuação policial não terá sido tão descabida como isso, é porque o sistema judicial é mau e está desequilibrado a favor dos agressores.
    O camarada, como a generalidade dos wokes e afins, acha sempre que Estado de direito, quando não tem as mesmas conclusões do camarada, é porque está refém das classes dominantes.

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  5. Não sou militar, não sei em que tropa milita, mas não sou concerteza seu camarada.
    Registo a sua opnião de que a melhor maneira de verificar se alguém está armado é matar essa pessoa e ver se está alguma arma junto ao corpo. Espero que nenhum polícia que compartilhe essa idéia resolva ver algum dia se alguém que lhe é querido está armado.
    Um mundo onde seja permitida a execução imediata após resistência à polícia será uma sociedade onde será perigoso viver. Quem nos guardará destes guardas?
    O mal destes exaltados é que pensam sempre que não chegará a sua vez, que nunca serão postos perante uma situação em que terão de confrontar a polícia ou outra autoridade, porque são especiais, mas não são.

    Uma sociedade que aplaude assassínios é uma sociedade doente. E alguém que pensa que a maioria da sociedade francesa pensa deste modo também não está de muito boa saúde.

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  6. Se vossa senhoria se ofende com o tratamento canónico entre iguais, peço desculpa e corrijo já.
    O que vossa senhoria escusa é de voltar a torcer as coisas: eu limitei-me a dizer que a verificação de que o rapaz está desarmado é feita posteriormente, portanto quando diz que o polícia disparou sobre um homem desarmado, está a torcer a realidade: o polícia disparou sobre um rapaz que não sabe se está armado ou não.
    Não é permitida a execução após resistência à polícia. Se foi isso que sucedeu ou não, cabe aos tribunais decidir.
    Deixe-me ver se o entendo: várias cidades em França ficam a ferro e fogo durante vários dias, um bombeiro morre num fogo, milhares de pessoas vêem-se privadas do direito à segurança e à propriedade, e o exaltado sou eu só por fazer notar que, aparentemente, existe um mal-estar com a maioria das pessoas e que um sinal disso é o tremendo êxito de uma campanha de apoio ao agressor, quando comparada com a campanha de apoio à vítima?
    E acho que não lhe fica bem insistir e acusar-me de apoiar assassínios, eu sei que wokes e afins, quando lhes faltam argumentos, recorrem à desqualificação moral de terceiros, mas fica-lhes mal, muito mal mesmo.

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  7. O rapaz foi morto com um tiro no braço, tendo a bala penetrado no tórax. Há um vídeo que mostra o momento do disparo, pelo que afirmar que foi morto com "

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  8. Quem semeia ventos colhe tempestades. Os responsáveis políticos franceses sempre gostaram de viver a olhar para o umbigo. "La France".... Sempre pensaram que o Islão se renderia aos encantos da sua amada "La République". Não Srs. Présidents de la République française, o Islão nunca foi, não é e nunca será "une République". Foram avisado atempadamente. E agora?.

    E por cá?. Aprende-se coisa com os erros dos outros, ou vigoram wokismos infantis nas instâncias do poder?.

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  9. E ele a dar-lhe com o woke!
    Vá discutir futebol com o Ventura que é para isso tem jeito.

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  10. O nosso velho conhecido jo com a qualidade habitual: escreve, escreve, põe nos outros o que ele queria que tivessem dito e acaba a despedir-se com uma saída "à puto".
    Já estava com saudades.

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