À medida que vou envelhecendo vou-me cansando das decisões que são históricas por antecipação, e portanto deixo de ligar a coisas como a lei do restauro ecológico que anda agora em bolandas no Parlamento Europeu.
A única coisa que me faz ter vontade de escrever sobre ela é a quantidade de vezes que se usa restauração em vez de restauro, para falar do assunto.
A tal lei tem lá qualquer coisa como uma obrigação de deixar madeira morta nas matas, o que tem levado a muitos protestos e opiniões contra essa lei, dada a sua óbvia - e o óbvio é uma coisa muito subjectiva - falta de juízo nas zonas da Europa onde a gestão do fogo é mais complicada.
Com os sistemas naturais europeus a recuperar de uma forma que não tem precedentes desde a última glaciação, uma lei de restauro ecológico na Europa faz tanta falta como um camião de areia no deserto, mas isto é apenas mais uma das minhas opiniões radicais sobre conservação da natureza.
Serviu isto para uma pequena troca de argumentos sobre uma mata em concreto, usada como exemplo: a mata do Solitário, na Arrábida, onde há quem defenda que não faz sentido fazer gestão de combustíveis.
A mata do Solitário arde mais ou menos periodicamente - deve estar para arder um anos destes, penso que vai fazer vinte anos desde o último fogo, portanto, mais ano, menos ano, arde, como é natural - e tecnicamente pode discutir-se se deve arder de forma planeada, controlada, com melhores resultados na recuperação do solo e da vegetação, ou se deve arder em condições extremas de meteorologia e secura do solo, provocando uma maior regressão do sistema.
Para quem, como eu, entende que o país deve ter áreas de não gestão, que são deixadas ao acaso dos processos naturais, acho que essa maior regressão do sistema, e a maior afectação do solo no caso de fogos em condições extremas, são preços razoáveis a pagar para ter sítios em que não há gestão humana de ecossistemas, no caso da mata do Solitário e outros (gosto da ideia, que reconheço como pouco realista, que Miguel Araújo tem defendido, de ter 100 mil hectares contínuos de não gestão, mas claro que isso não é possível nas imediações da mata do Solitário, se é que há algum sítio onde seja possível fazer isso no país (o Miguel acha que sim), o que não invalida o interesse em ter áreas mais pequenas e isoladas, como a mata do Solitário, em que se opte por não gerir).
Na verdade só me chateia que mal aquilo comece a arder se precipitem para o local dezenas de pessoas e meios técnicos, não com o objectivo de controlar eventuais efeitos negativos do incêndio em pessoas e infraestruturas, mas com o objectivo de apagar o fogo, tarefa inglória e inútil, naquele caso e nas circunstâncias em que vai arder.
E que depois disso apareça uma girândola de políticos a prometer projectos de restauro pós-fogo que, garantem, vão deixar aquilo melhor do que estava antes do fogo.
E só me chateia porque são formas pouco sensatas de gastar o dinheiro dos meus impostos, de resto, tenho sobre estas coisas a mesma atitude que sobre leis de restauro ecológico: deixa andar que o teatro faz parte da vida.
O único problema é que quando aquilo arder, e vai arder, vai haver choro e ranger de dentes nas redacções dos jornais e televisões, aparecem os ambientalistas do costume a dizer que o fogo foi a demonstração de como as áreas protegidas não servem para nada, os desenvolvimentistas a dizer que se aquilo estivesse gerido não havia tantos problemas, e Jaime Marta Soares, ou outro que faça a mesma função, a garantir, pela enésima vez, que os bombeiros são uns heróis e nunca um fogo ficou por apagar.
Se não morrer ninguém, se não houver danos muito relevantes em coisas que custam dinheiro, helicópteros que se despenhem, carros que caiam de ravinas abaixo, etc., isto passa sem consequências até à indigação seguinte por causa de outro fogo qualquer.
Mas se houver problemas mais graves, lá vem mais uma catrefada de legislação infernizar a vida das pessoas, com base em critérios de sobrevivência política dos incumbentes do momento, sem qualquer ligação com a realidade ou a lógica.
E tudo isto porque, como comunidade, como sociedade, nos recusamos a aceitar que o fogo, mais que um processo químico, uma reacção fisicamente fácil de descrever, é um processo biológico fundamental (Stephen J. Pyne) que nos convém perceber para melhor nos adaptarmos, até que "Que tudo isto sabereis serenamente, sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição, e sobretudo sem desapego ou indiferença".
ResponderEliminara obrigação de deixar madeira morta nas matas
Eu questiono se nos países dos eurodeputados que aprovaram isto não haverá (muitas) pessoas que utilizam lareiras para se aquecerem em casa.
É que, cá em Portugal, eu conheço muitas pessoas que o fazem e que, nalguns caso, ansiosamente procuram pelas matas madeira morta que possam levar para casa para pôr na lareira a arder.
A electricidade está cara
ResponderEliminardivórcio da realidade
ResponderEliminarQue eu saiba, a eletricidade serve somente para aquecer casas nas cidades. No campo, que eu saiba, toda a gente usa lenha. Aquece melhor (uma salamandra debita até 7 GW, um aquecedor elétrico não mais que 2 GW) e é mais barato. E ainda dá para secar a roupa.
ResponderEliminarPeço desculpa pelo erro (óbvio) nas unidades, não é GW (giga Watts) mas sim kW (kilo Watts).
ResponderEliminarNão sei qual a % de pessoas no campo que usa lenha (não fiz nenhum estudo nem consultei documentação) mas isso não invalida aquilo que acima escrevi.
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