Um dia destes, alguém fez um comentário sobre os efeitos negativos da descolonização que foi feita, e imediatamente apareceu a ladaínha sobre os saudosistas do império e coisas que tais.
Uma coisa é dizer-se que a descolonização que foi feita, na forma como foi feita, era a possível e a única solução possível naquele contexto histórico e social.
Outra coisa é dizer que foi uma descolonização virtuosa e bem feita.
São questões que dizem respeito à história, sabendo-se que a história não admite contra-prova, portanto não é possível fazer uma experiência diferente e avaliar resultados.
Mas é possível fazer três coisas, com base em dados objectivos: 1) comparar a evolução dos dados económicos e sociais no momento da descolonização e hoje; 2) comparar dados dessa evolução em períodos de tempo iguais, mas geografias diferentes; 3) comparar dados dessa evolução em períodos de tempo da mesma ordem de grandeza, cerca de 50 anos, mesmo que em geografias e tempos diferentes.
Qualquer destas três coisas tem as suas dificuldades e limitações, com certeza, e qualquer delas será sempre contaminada pelo ponto de vista ideológico de partida do observador, mas cada uma por si ou as três em conjunto, permitem limitar o peso dos mitos na compreensão do passado e ter uma visão mais factual das coisas, sem que isso implique qualquer saudosismo do que quer que seja.
Parece-me claro - mas estou disponível para mudar facilmente de opinião porque esta não é a minha área de trabalho, e a informação que tenho é apenas da curiosidade sobre a matéria, com uns pós muito pequenos do que vi quando fui a Angola em 1996 e a Moçambique por volta de 2016, ou 2017, por aí - que a situação das pessoas comuns (em especial dos mais pobres) é hoje, em muitos aspectos, pior (em escolaridade, prestação de cuidados de saúde, libedade, etc.) que no momento da descolonização.
Independentemente de esta generalização ser provavelmente excessiva, não é uma situação de estranhar dado o choque traumático sofrido por esses paízes, com a fuga de capitais e gente qualificada, seguida de guerras civis.
Também me parece bem claro que nos 50 anos do Estado Novo se progrediu muito mais (igualmente partindo de indicadores económicos e sociais miseráveis) que nos 50 anos da independência desses países, quer no Portugal continental, quer nos territórios desses países.
Mais uma vez, não me parece de estranhar, em grande parte porque os 50 anos do Estado Novo decorreram num mundo em franco crescimento e na geografia mais dinâmica do mundo, enquanto os 50 anos das independências desses países decorreram num mundo de mais convulsão e menor crescimento.
Falta-me informação sobre as comparações com a África do Sul, por exemplo, que talvez ajudasse a perceber melhor evoluções diferenciais entre países e regiões.
O que não vale a pena é pretender que a evolução económica e social decepcionante desses países se deve sobretudo ao colonialismo anterior (na verdade, no caso das antigas colónias portuguesas, o tempo relativamente escasso porque a influência real sobre esses territórios se limitava a faixas litorais ínfimas desses territórios até ao fim do século XIX e princípios do século XX) e que os seus governantes e opções de governo, pós independência, não têm nenhuma responsabilidade na evolução desses países ao longo destes 50 anos.
E a principal das opções foi mesmo feita imediatamente depois do 25 de Abril: os partidos armados impuseram a sua tomada de poder sem auscultação das populações, incluindo uma distinção racista de nacionalidade que Portugal acolheu (quando Sérgio Godinho dizia que "África é dos africanos, já chega quinhentos anos" seguramente não estava a pensar também nos milhares de africanos brancos que existiam), impedindo qualquer opção de nacionalidade por parte das populações desses territórios.
Esta opção base, que convinha ao Estado português, com medo de receber muito mais gente que a que recebeu, foi claramente imposta pelo partidos armados que boicotaram qualquer solução que não passasse pela transferência directa de poder, nomeadamente ao recusar qualquer acordo de cessar fogo que permitisse organizar um processo de consulta democrático sobre questões centrais da descolonização.
A fragilidade de Portugal, cujo exército não estava em condições de garantir um processo democrático de consulta contra a vontade dos partidos armados nacionalistas, tornou impossível, ou aparententemente impossível, qualquer outro modelo de descolinização que não o que veio a verificar-se, com transferência directa do poder para ditaduras nacionalistas anti-liberais (veja-se como, ainda hoje, é tratado o direito de propriedade, nomeadamente, da propriedade da terra, nesses países).
Tudo isso pode ser historicamente compreensível, o que não me parece sério é negar que as opções, para a grande maioria da população desses países, foi trágica e continua a ser difícil.
Dizer isto não é ter saudades de império nenhum, é chamar a atenção para o efeito que a falta de liberdade, económica, política e social, tem na evolução dos países.
Mesmo a comparação entre ditaduras - Estado Novo e novos países africanos - se é favorável ao Estado Novo, como é admissível que seja, provavelmente resulta, parcialmente, de o facto do Estado Novo permitir uma liberdade de iniciativa, nomeadamente respeitando o direito de propriedade de forma bastante mais consistente que os regimes dos países em causa, bem mais alargada que a que vigorou, durante anos, nos regimes pós-coloniais.
Em qualquer caso, o que se pode admitir, sem se poder provar, é que uma opção mais liberal, respeitando a liberdade de cada um na escolha do governo, da nacionalidade, etc., teria resultado numa situação bem mais favorável que aquela que foi imposta pelos partidos armados.
Já é tempo de responsabilizar as más ideias pelos maus resultados que afectam negativamente a vida de milhões de pessoas nesses países: a miséria não é uma fatalidade criada pelo colonialismo, é uma consequência de decisões tomadas há muitas dezenas de anos, incluindo o colonialismo, é verdade, mas também de decisões tomadas livremente pelos governos desses países nos últimos 50 anos.
Jorge de Sena
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ResponderEliminarSem vergonha, reafirmo o que se pode esperar de uns labregos. De bosta, segundo o saudoso senegalês Mamadu Baila Bá. Bosta de descolonização. Bosta de política.
Quando fui adolescente dizia-se que quem não tinha jeito para nada ia para a tropa.
Foi essa tropa quem acarinhou umas reivindicações salariais para fazer o glorioso 25.
"Procurem o dinheiro" é a velha regra. Mas não procurem no Estado Novo pois não vale a pena. Se quiserem procurem na bosta do governo de Caetano ou dos socialistas.
Diz que era a descolonização possível, e as vozes discordantes serão muitas, do meu ponto de vista só o termo "descolonização" é um termo nefasto, eu chamo-lhe subtração de território a mando de potências estrangeiras.
ResponderEliminarMuita coisa poderia ter sido feita, especialmente nos territórios insulares, como muitos países europeus fizeram.
Mas aqui a pressa, a ganância e a subserviência ditaram que fosse assim e desse modo e como diz o provérbio " pau que nasce torto jamais se endireita ".
Muito bom este artigo. Quanto à África do Sul apesar da cortina de silêncio que os midia impuseram é possivel perceber a tragedia economica social e e o aparthaid ( sim, aparthaid promovido pelo Estado que abre concursos para funcionários, professores etc abertos expressamente para negros, excluindo automaticamente os brancos )ao contrário que se instalouno país graças aos muitos videos que conseguem aoarecer no youtube.
ResponderEliminarSe os brasileiros alegremente culpam Portugal pelo seu atraso e pobreza, mesmo após uns séculos de independência, por que não colocar no colonizador o ónus da situação em África?
ResponderEliminarA descolonização teria sido bem feita se fosse logo em 1961.
ResponderEliminarA descolonização feita com os "pés" a favor dos interesses imperiais do leste e do oeste (quem quiser e conseguir encontrar sugiro o livro Portugal Traído de 1975 por Fernando Pacheco de Amorim) principalmente após a saída de Spinola,foi na prática (teorias e amanhãs que cantam agora à parte) uma desgraça para os africanos e para Portugal, sendo que agora chegamos ao absurdo final que é termos o Estado português colonizado (sim, colonizado) por grupos politicos, acima de todos por um Grupo(o mesmo que dirigiu a descolonização) que se apresenta como dono disto tudo (quer dizer,do que sobrou de tudo o que havia e foi hipotecado).
ResponderEliminarCheck https://oplanetadosmacacospoliticos.blogs.sapo.pt/uma-especie-de-democracia-42686
ResponderEliminarO 25 de Abril criou 7 ditaduras, menos uma a quando 25 de Novembro 1975.
ResponderEliminarEstranho que aqueles que colocam todas as culpas dos atrasos na ditadura antes não as coloquem também nas ditaduras subsequentes baseadas na ideologia Marxista criada pelo homem branco...
ResponderEliminarNum plano mais alargado, o Prof. James Watson ( Nobel Medicina 1962 ) também teria uma palavra a dizer...
ResponderEliminarJSP
Ainda bem que não percebes nada desse tal plano alargado.
ResponderEliminar"Civilização é a sequência de séculos de disciplina"
Este é um não-assunto. O colonialismo é obviamente mau, logo, o contrário é necessariamente bom. Sendo a dignidade da pessoa humana um valor absoluto, e só sendo esta realizável através da auto-determinação nacional (mesmo de "nações" definidas por linha rectas traçadas num mapa, em Berlin, em 1885), esse valor não pode ser comparado com outros, comezinhos, como a paz, a vida, a saúde, a educação, o progresso económico ou o ambiente. Logo, as independência africanas são coisas inerentemente boas e nem pensar em contar os incontáveis milhões de seres humanos que morreram nas guerras, fomes e epidemias que se sucederam desde o dia inicial, inteiro e limpo em que o Sr. Nkrumah se tornou presidente do Ghana (o nome que escolheu para o seu país, apesar de o Império de que se arrogou sucessor ficar no Mali). A mim, cínico, parece-me evidente que, lá para os anos 50, as democracias capitalistas europeias fizeram contas e perceberam que as colónias davam demasiada despesa e eram um colossal risco demográfico e político, e sacudiram o fardo do homem branco para as passar a explorar sem compromisso, contando com um conjunto de idiotas (e não-idiotas) úteis que acolheram com entusiasmo essa oferta. Como nós tínhamos uma ditadura, para mais assente no mito do Império, estávamos impedidos de imitar, em tempo útil, as restantes potências, o que só fizemos, de calças na mão, quando o nosso exército, ao fim de 13 anos, expirou, e entregou as colónias aos representantes da super-potência mais diligente. Houve umas centenas de milhares de portugueses "strictu sensu", imprevidentes, que se entalaram como os lesados do BES, mas, como eram malta dinâmica, comparada com a desta pasmaceira, tudo acabou bem para eles, em especial se comparados com os portugueses "latu sensu". Quanto a estes últimos, sugiro, a quem põe em causa os méritos dos países que foram edificadas, em escassas décadas, em sociedades tribais que, a meio do século passado, estavam na Idade do Ferro, e que se viram, num dia para o outro, privados de quadros, que ponham os olhos nesse Estado avançado que é o Wakanda.
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ResponderEliminarExcelente trecho!!! Tanto na forma como no conteúdo.
ResponderEliminarA comparação entre a situação pré-independência e a situação pós-independência de África tem uma outra limitação muito forte: a África (tal como outros continentes) entrou em 1960 numa fase de crescimento demográfico extremamente rápido, devido ao declínio súbito da mortalidade, situação esta que, por um lado tornou o colonialismo ainda menos possível, por outro lado tornou a governação de África e o fornecimento de serviços à população extremamente difíceis.
A título de exemplo, em 1960 Portugal continental tinha dez milhões de habitantes e Angola tinha cinco (isto mesmo: metade). Atualmente Portugal tem dez milhões de habitantes, Angola tem trinta (isso mesmo: três vezes mais).
Lamento discordar de HPS no essencial o, que lembre, é a primeira vez.
ResponderEliminarPortugal ou alguns portuguese que detinham o poder são os maiores responsáveis pelos maus resultados dos novos países. Por alguns portugueses, refiro-me ao MFA, "O Novíssimo Príncipe" como lhe chamou em livro o prof. Adriano Moreira.
A grande maioria dos oficiais do MFA não tinha qualquer ideia clara sobe o que fazer em África mas uma minoria tinha-a. A política prosseguida foi, não apenas acelerar as independências sem consulta prévia às populações, como nem sequer negociar com os movimentos um período de transição. Para isso afastaram-se com prácticas de terror todos os que podiam constituir uma oposição ao movimento comunista (Angola) ou embarcaram-se à força para a Metrópole (Cabo Verde), desarmaram-se as polícias e entregaram-se as armas aos movimentos comunistas (Cabo Verde e creio que S. Tomé), entregou-se o paiol militar ao movimento comunista (Timor)(*) permitiram-se escalas nos Açores às tropas cubanas que chegaram a Luanda antes ainda da independência.
E não foram apenas os comunistas pró-soviéticos ligados ao PCP. Otelo não era comunista e fez a borrada de Moçambique, Melo Antunes não era comunista e como ministro dos Negócios Estrangeiros foi quem autorizou os aviões russos a escalarem os Açores(**).
É já da história a ineficácia dos governos comunistas - excepto o da China que tem um percurso único e diferente - sendo a Rússia soviética em 1991 o melhor exemplo. Por isso a introdução voluntária e forçada deste modelo de governo em África, só poderia trazer maus resultados. E essa, goste-se ou não, foi uma responsabilidade portuguesa.
(*) Em 1974 a Fretilin era um movimento comunista mas, depois da ocupação Indonésia, agregou todos os que se opunham a essa ocupação e tornou-se um movimento nacional.
(**) Com essa actuação Melo Antunes ganhou a confiança dos comunistas, o que lhe permitiu negociar a neutralidade do PCP no 25 de Novembro.
Não vejo discordância nenhuma, eu limitei-me a constatar que o exército não estava em condições de garantir, pela força, um outro modelo de auto-determinação, não discuti as razões para isso.
ResponderEliminarCaro WWW,
ResponderEliminarPermita-me ( como não o conheço não cometo a descortesia de o tratar por tu ) chamar a atenção para um facto , a maior parte das vezes desagradável : a realidade histórica não tem nada a ver com aquilo que Disney/Hollywood nos impinge.
É chato, mas nada de negar a realidade aos factos , como era (é) apanágio dos "nossos amigos " comunas...
JSP