quinta-feira, 18 de maio de 2023

Degradação institucional, mais uma vez

"A chefe de gabinete diz que não era necessário haver um despacho com a exoneração, porque nem as nomeações nem as exonerações dependem de despachos. “O dr. Frederico Pinheiro estava exonerado desde as 20h45 de 26 de abril, portanto proibido de entrar no ministério por ordem do ministro."


Não fui ver a exactidão do que diz o Observador sobre o que terá dito uma chefe de gabinete de um ministério porque esta ideia é uma ideia muito transversal, há imensa gente a achar que isto pode ser assim.


Vejamos o que diz a lei directamente aplicável (e não vou servir-me do Código do Procedimento Administrativo, para colmatar eventuais dúvidas sobre o formalismo das decisões na administração pública), Decreto-Lei n.º 11/2012, de 20 de janeiro.


Logo no preâmbulo, uma parte não directamente aplicável dos diplomas legais, mas que ajuda a compreender as normas e a sua fundamentação, é clara a obrigatoriedade dos despachos de designação dos membros dos gabinetes: "determina-se o conteúdo dos respectivos despachos de designação, bem como a obrigatoriedade da sua publicação no Diário da República e, conforme já implementado pelo XIX Governo Constitucional, a obrigatoriedade de divulgação em página electrónica da composição dos gabinetes e das respectivas remunerações, em reforço do princípio da transparência e publicidade".


"Artigo 11.º Designação dos membros dos gabinetes 1 - Os membros dos gabinetes são livremente designados e exonerados por despacho do membro do Governo respectivo".


Se dúvidas houvesse de que a liberdade de designar e exonerar membros do governo não inclui a liberdade de escolher o meio para o fazer, a lei é claríssima a explicitar que é por despacho que são designados e exonerados os membros dos gabinetes. O despacho até poderia ter efeitos retroactivos e dizer que a exoneração tem efeitos desde o tempo dos afonsinhos, por ilógico que isso seja, o que não há é exoneração sem despacho, isso é de meridiana clareza.


"Artigo 16.º Cessação de funções Os membros dos gabinetes cessam funções: a) Por despacho do respectivo membro do Governo;..."


Se dúvidas houvesse, a lei é claríssima a explicitar que a cessação de funções ocorre por despacho, e não por qualquer outro meio (telefonema, pombo correio, mail, mensagem de fumo, seja qual for o outro meio escolhido). Um membro do governo pode até informar um dos membros do seus gabinete que o vai demitir com efeitos a partir daquele momento, que as funções da pessoa em causa só cessam com a existência do despacho, mesmo que o despacho venha a ter efeitos retroactivos, explicitando um momento anterior ao despacho a partir do qual ele terá efeito, mas até à existência do despacho, o facto é que não existe cessação de funções.


Artigo 11.º Designação dos membros dos gabinetes "3 - Os membros dos gabinetes consideram-se, para todos os efeitos, em exercício de funções a partir da data indicada no despacho de designação e independentemente da publicação na 2.ª série do Diário da República."


Sim, há quem diga que a exoneração não depende da existência de despacho, tentando demonstrar que esta norma, que se aplica ao início de funções, é aplicável à cessação de funções, mas isso não passa de treta: por um lado, a norma é explícita ao falar do início do exercício de funções, por outro é razoável que se admita que o início do exercício de funções possa começar imediatamente, sem ter de esperar pelo despacho de nomeação, mas é ilógico achar que a cessação de funções possa ser feita com efeitos retroactivos, porque isso cria um imbróglio jurídico e funcional como aquele a que se assistiu no ministério das infraestruturas: há umas pessoas que acham que as funções de alguém cessaram, e há o próprio que acha que, de acordo com a norma citada acima, as suas funções cessam por despacho, e não porque alguém resolveu dizer que já não brinca mais com aquele menino (quem é que pode garantir que um ministro que se exaltou numa discussão não muda de opinião depois de uma noite bem dormida e de terem serenado os ânimos?).


Aliás, basta imaginar que no dia seguinte o membro do gabinete exonerado se apresenta no serviço de origem e alguém lhe pergunta o que está ali a fazer, para perceber que ninguém vai aceitar a sua integração sem ver um despacho, apenas com base na mera afirmação do trabalhador de que o ministro lhe disse que não o queria ver mais.


O que é mais ilustrativo da degradação institucional não é o facto de tudo isto ter ocorrido como ocorreu, o que é mais ilustrativo é que, sendo a lei tão clara como é, três semanas depois dos factos, uma chefe de gabinete que tinha obrigação de zelar pela sua aplicação no momento dos factos, ainda ache normal defender que alguém é exonerado de um gabinete a partir do momento em que um ministro telefona para a pessoa em causa, implicando a cessação imediata de funções que a lei, explicitamente, faz depender de um despacho que não existe.


E o problema não é esta chefe de gabinete em concreto, é uma administração pública que está pejada de dirigentes que, nas mesmas circunstâncias, fariam exactamente o mesmo que esta chefe de gabinete, porque esta é a cultura da administração pública em Portugal (um país em que a generalidade dos funcionários e a quase totalidade dos dirigentes, desconhecem o código do procedimento administrativo e o violam constante e diariamente, sendo evidente que a generalidade das pessoas não conhecem, nem exigem, os direitos que o mesmo código do procedimento administrativo lhes confere, para se defenderem da prepotência e opacidade da administração pública).

31 comentários:

  1. a velha é muito sabida vem do tempo do gugu.
    coisas do 'arco da velha'
    '' mentir, mentir sempre, mentir sem convicção''

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  2. Com tanta trapalhada é caso para dizer "volta Cabrita estás perdoado". 

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  3. Postas as coisas dessa forma, até parece que andar a atropelar mortalmente cidadãos inocentes é menos grave que isto. Mas não é.

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  4. Esta ideia de que uma demissão no Governo só pode ser efetuada mediante publicação em Diário da República faz-me lembrar a lei islâmica do divórcio, segundo a qual basta um homem dizer à sua mulher por três vezes "divorcio-me de ti" para o divórcio ficar consumado.
    O que o Henrique nos está a dizer é que não basta um ministro dizer ao seu adjunto umas tantas vezes, em tom mais ou menos irado, "está despedido" para que o despedimento se consuma. O ministro bem pode dizer o que quiser, que o despedimento só se consuma quando o respetivo despacho fôr publicado em Diário da República. Até lá, o adjunto tem todo o direito de frequentar o seu local de trabalho, utilizar o telefone e o computador (e até a casa de banho!), etc.
    O ministro tem pois que ter todo o cuidado em, quando deseja despedir um seu assessor, não lhe dizer nada antes de o respetivo despacho ter sido publicado. Caso contrário, o assessor apressar-se-á a ir copiar do seu computador todos os segredos de Estado que ele possa conter.

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  5. Não, eu não falei em publicação do despacho, falei na sua existência, são coisas muito diferentes.

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  6. Não deixa de ser irónico tanta celeuma quando um Musk despede malta pelo telefone ou via mail, mas um "estás despedido" à Trump já passa bem.

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  7. "Caso contrário, o assessor apressar-se-á a ir copiar do seu computador todos os segredos de Estado que ele possa conter."


    A isto os profissionais chamam projecção. Nem todos serão balios.

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  8. Não vê que entraram em pânico por causa dos planos da pólvora?!

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  9. Uma chefe de gabinete competentíssima, pois.
    Terá formação jurídica?

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  10. Comparar o acto de "despedir" um funcionário ou um  dirigente público com o que se passa noprivado é dupla asneira.
    Mesmo no privado o acto de "despedir" também está legislado e quando o for por telefone terá consequências...

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  11. Está o caro anónimo a não levar em conta dois aspectos essenciais.
    1. A situação descrita aplica-se a nomeações para cargos públicos, as regras não são extrapoláveis para empresas privadas que certamente não precisam de ter despachos publicados em DR para contratar ou despedir
    2. As leis portuguesas não se aplicam nos EUA.


    Portanto a estar a comparar a contratação para funções públicas em no Portugal com a contratação por empresas privadas é, digamos, descabido (para não usar outros adjectivos).

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  12. Meu caro o meu comentário é um comentário sarcástico a gozar com toda a tragicomédia a que se está a assistir com o galamba e o seu patrão que nem sequer dá a carinha. Não se trata de avaliar se é ou não mais grave. 

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  13. Portanto o Anónimo estava lá ao lado do Musk e do Trump, ouviu tudo, confirma tudo, não nos dizia nada nem se apressou a emendar as agencias noticiosas, que nunca inventam nada para ganhar uns clics?


    E diga-me uma coisa: já que acredita em tudo também acredita no Pai Natal?
     

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  14. Enfim, Andrés Manuel López Obrador lembra  "Não confundir a educação com a cultura".

    Acrescentaria:  Instrução, Educação e Cultura. Depois vida, a Experiência da vida.

    Ali falta tudo, excepto carreirismo partidário. E são os máximos responsáveis por isto tudo!. Lindo serviço.

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  15. Estou a comparar a reacção de certas franjas à posição moral, e não legal.

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  16. Ontem a fazer zapping passei na rtp 3 e pensei que estava a ver o Senhor dos Aneis ou o Harry Potter ou assim.  Mas afinal era mesmo a audição dessa senhora chefe do tal gabinete .

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  17. Ontem a fazer zapping passei na rtp 3 e pensei que estava a ver o Senhor dos Aneis ou o Harry Potter ou assim.  Mas afinal era mesmo a audição dessa senhora chefe do tal gabinete .

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  18. O ministro tinha toda a legitimidade para suspender o adjunto, evocando a impossibilidade de o manter ao seu serviço, por falta grave, mas exonerá-lo, só o pode fazer por despacho, que tem que ser publicado no Diário da República.

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  19. Nem no Pai Natal nem na literacia.

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  20. Vou repetir-me.
    A chefe de gabinete, tentou impedir o acesso ao computador; tentou impedir o adjunto de sair com o computador o que só viria a ser possível por este ter chamado a polícia; exigiu a entrega do telemóvel de serviço (que certamente continha dados e fotos pessoais) e chamou um técnico para proceder à sua formatação eliminando toda o conteúdo; finalmente, como ela declarou na CPI (não acredito mas não vem ao caso) foi ela que tomou a iniciativa de contactar o SIS.
    Em resumo, uma chefe de gabinete que tem funções executivas, incluindo na área de segurança do Estado, funções policiais e funções judiciais.

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  21. Nas palavras da antiga sabedoria indiana:
    https://www.bitchute.com/video/dTRVhYIrV4us/

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  22. Temos um problema grave de manipulação neste país. Para alguns não existe mais nada além da política. Deviam também falar no que acontece noutras áreas. Mas como muitos seguem o media, acabam por seguir a manipulação deles. Pelo menos na política ainda há transparência, mas noutras áreas reina a opacidade.


    Seria mesmo importante falar nos que violam constante e diariamente as regras a coberto da opacidade.



    Antes éramos o país dos 3 F's, agora já somos o país dos 4 F's.

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  23. Incompetência, mediocridade, amadorismo, desonestidade, mordomias para os "seus", para os amigos e familiares no mais descarado nepotismo, tom "trauliteiro", arrogante e galhofeiro para a Oposição em plena AR, atropelos à lei, impunidade, viciação de regras concursais (nacionais ou internacionais), incumprimento de regras de transparência, pressão sobre órgãos de comunicação social para efeitos de propaganda e controlo de danos, intimidação, prepotência, abuso de poder, tiques autoritários (no famoso "Habituem-se!") pouco respeito pelas liberdades individuais (lembrar os anos mais recentes), ultraje a órgãos de soberania , desprezo pelas instituições democráticas, numa total afronta à própria democracia... Sim, têm sido todos estes os atropelos da governação socialista dos últimos anos _ e ainda o mais que se verá !!!  (não se cavou tudo até ao fim).
    Porém ... o povo continua a votar neles. Julgo que é um caso de estudo bastante interessante para nos ajudar a compreender este fenómeno.
     
    Que é que se pode fazer perante este panorama e este impasse? Que há para dizer, quando _ e o HPS lembrou-o há dias_ já era pública e notória a gravíssima conduta do Sócrates e o povo, ainda assim, continuou a votar nesta gente. Gente esta (sublinhe-se) que vem dessa "escola" e que transitou para o Costa.  

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  24. Além de que (apesar de tudo,incluindo o referido atropelamento mortal) o sr Cabrita era um trapalhão mais organizado. Mas agora não faltam "excelentes ministros" sob investigação .
    https://24.sapo.pt/atualidade/artigos/operacao-babel-ministro-da-saude-investigado-por-suspeitas-de-prevaricacao

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  25. Põe-se a questão da disfuncionalidade do PS e do governo: não haverá por lá gente idónea que, a bem da Democracia, seja capaz de agir e de se demarcar liminarmente destes ataques ao Estado de Direito?

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  26. ainda só li o começo do post e percebi que é longo...e tecnico. Mais tarde volgtarei a ler tudo. 
    Mas nesta novela que vou acompanhando aqui, pergunto :  
    o sujeito quando foi buscar o computador sabia que estava exonerado ?

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  27. só vou dizer  ridiculo, sendo portanto poupadinho, para classificar a tese que defende. 


    E pelo que diz, ou pela leitura que faz, a lei do despacho nao previu emergencias. 
    Mas nem isso me interessa para aqui. 
    Interessa-me : ele foi ou nao foi informado por quem de direito da exoneraçao ? E na vespera, ao que sabemos. 

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  28. Tem gente neste post que não dignifica o padre que se passa e é feito por portugueses que trabalham e gostavam de atar informados .
    Tudo é bandalheira e ser para acicatar.
    São concerteza gente do rendimento mínimo ou vivem de nada fazer.
    Tais parta até país que tais filhos tem
    Vergonha.

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  29. A propósito de casa de banho: Então no edifício do Ministério das Infraestruras só as casas de banho garantem segurança para se barricarem?. Todos os gabinetes são de portas sem fechaduras? Estranho! 
    E já agora, por coisas estranhas, então documentos tão importantes só existem num computador portátil?  

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  30. Damião Ribeiro Santos21 de maio de 2023 às 04:23

    o problema é o autoritarismo e despotismo que grasam nas fileiras do ps.
    pelo simples facto de terem tido "uma maioria absoluta" nas urnas acham-se no direito e dever de tudo fazer...
    basta lembrar a "bonita expressão " do AC : habituem-se...
    sem esquecer uma outra mais profunda: quem se mete com o ps, leva!

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  31. Um mentiroso que não sabe mentir, então o 1º ministro não atendeu o telefone porque ia a conduzir?. já não tem motorista?. é sio gafes.

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