sábado, 18 de março de 2023

Ainda o Expresso e António Araújo

Por causa do meu post de ontem, sobre o afastamento de António Araújo do Expresso, alguém me lembra que António Araújo pode não ter sido afastado do Expresso, pode ter-se afastado.


Dito de outra maneira, o Expresso pode ter abordado António Araújo para se conversar sobre o que ele tinha escrito no seu blog pessoal, e António Araújo pode ter mandado o Expresso dar uma curva por não ter nada a conversar sobre o assunto, batendo com a porta.


Esta hipótese é perfeitamente plausível.


Só que não retira nem uma vírgula ao essencial: demonstrada, ou pelo menos bem fundamentada, a canalhice da jornalista, o Expresso prefere abordar António Araújo sobre a demonstração, ou pelo menos boa fundamentação da canalhice, em vez de aplicar tolerância zero ao abuso dos privilégios que os jornalistas têm (e bem) para escrever livremente.


Não é nada de estranhar: já Nicolau Santos tinha andado a promover o burlão António Baptista Silva por estar cego pela sua agenda política de crítica a Passos Coelho, para promoção da qual se esqueceu de aplicar princípios básicos de verificação dos factos inerentes à sua profissão, e não aconteceu nada, o Expresso continuou a considerá-lo apto para manter o seu lugar de director adjunto e é hoje presidente da agência LUSA, sem qualquer escândalo na profissão.


Não se pense que este é um problema do Expresso, estes são apenas exemplos de uma doença que corroi o jornalismo, penso que em todo o lado com diferentes graus, mas seguramente em Portugal, numa extensão profundíssima: um corporativismo que assenta na grande superioridade moral em que vive a generalidade do jornalismo (com honrosas excepções, evidentemente).


Os jornalistas (perdoem-me a generalização, que é muito injusta para as excepções) são os últimos operadores económicos que encaram as críticas ao seu desempenho profissional como ofensas pessoais (ainda há pouco tempo um director de um jornal deixou de me responder por eu lhe ter dito, em privado, que o seu jornal estava a espalhar desinformação em matéria de fogos), em vez de as encararem como um dos mais baratos e eficientes mecanismos de melhoria do seu desempenho.


Não por acaso, a generalidade dos operadores económicos gastam fortunas a procurar ouvir a opinião dos seus clientes, o jornalismo não, gasta tempo e recursos a condicionar as opiniões de terceiros sobre o seu trabalho, para evitar ser confrontado com situações como as que deram origem ao diferendo entre António Araújo e o Expresso.


É exactamente por admitir que foi António Araújo que bateu com a porta quando o quiserem condicionar nas suas opiniões que eu não fiz qualquer alusão ao papel dos restantes colaboradores do Expresso nesta história, por exemplo, estabelecendo um paralelismo com a forma como trabalhadores da BBC responderam à suspensão de Gary Lineker, porque o paralelismo me parece mais que forçado e os restantes colaboradores do Expresso não têm qualquer obrigação de solidariedade com António Araújo, sobretudo no caso de ter sido ele a bater com a porta.


Insisto, no entanto, é a tentativa do Expresso de condicionar a expressão de António Araújo sobre o conteúdo do jornal que conta.


Embora o resultado penalize o jornal, na medida em que perde um colaborador valioso, o facto é que tem um benefício enorme: ficam todos os outros avisados dos riscos de criticarem o jornal, mesmo fora das suas páginas.


Adenda: um leitor, com razão, chama-me a atenção para o facto de eu estar desactualizado. O embarretado Nicolau Santos já não está na Lusa, preside ao conselho  de administração da RTP

9 comentários:

  1. A censura actual e o condicionamento actual à liberdade de expressão são fruto do tempo que vivemos. Tal como a censura no tempo de Salazar era fruto da época de então. A ironia está em que aqueles que passaram décadas a falar da censura de então são os que a praticam hoje em dia de forma desabrida ou encapotada. 

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  2. Qual censura? A polícia alguma vez lhe apareceu à porta de casa por escrever disparates na Internet?

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  3. SERGE HALIMI in LES NOUVEAUX CHIENS DE GARDE

    nos jornalixos marxistas portugueses não há 'ninguna TRAMPA'.
    o costinha vai sempre na linha da frente

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  4. Caro HPS está desactualizado. Depois de anos a fazer fretes ao PS como director da Lusa, em Março de 2021 foi recompensado com o cargo de presidente do conselho de administração da RTP

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  5. Esses ainda vão dizer que Pessoa é Judeu...Não gostaram do título da biografia Super-Camões!!... 

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  6. Reitero aqui o que já afirmei, comentei, noutro blog. A atitude do Expresso neste caso é lamentável, embora não surpreendente. Porém, António de Araújo não é o «paladino» contra a censura que alguns podem pensar. Em 2020 ele «convidou-me» a deixar de comentar no Malomil após eu fazer alguns comentários, discordantes (mas nunca desrespeitosos ou insultuosos), a «postas» dele. E saliento que então eu já o conhecera pessoalmente e pensava ter com ele uma relação cordial.

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  7. Bastou ver os modos de reacção do personagem neste caso ao jornalista José Rodrigues dos Santos a quando da polémica do sobre a origem Marxista do Fascismo.

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