segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

Do racismo

Li um artigo de Kitty Furtado (Ana Cristina Pereira), louvando o livro de Álvaro Vasconcelos de que falei num post anterior, essencialmente por traduzir bem o que pensa Kitty Furtado, a ideia de reparar o presente, através da memória.


Por isso cita, de Álvaro Vasconcelos: "A narrativa do colonialismo pacífico é um dos mitos nacionais. É evidente que nem todos os colonos tratavam os seus empregados negros da mesma maneira, é claro que alguns tratavam os negros como seres humanos, condenavam o racismo e a violência; alguns ainda, mesmo que poucos, abraçavam a causa da sua libertação. Mas tal não impedia que todos os colonos beneficiassem do colonialismo".


Não vou discutir o parágrafo acima (que o merecia, com base em dados empíricos e em factos documentados ou documentáveis), mas apenas fazer notar o truque de retórica que consiste em identificar colonos e não colonos com base na cor da pele.


Para Álvaro Vaconcelos, Kitty Furtado e mais uma data de racistas que se indentificam como anti-racistas, um branco é um colono (mesmo que há três ou quatro gerações que a sua família viva naquele sítio) e todos os brancos são intrinsecamente responsáveis pelo colonialismo, consequentemente, diz Kitty Furtado, é preciso "reparar o presente, através da memória" (o título do artigo em causa).


Em concreto, em Portugal, o que é o presente para Kitty Furtado?


É uma investigadora universitária, doutorada e com acesso ao espaço público de debate, inegavelmente pertencendo às classes dominantes, com um estauto social e económico muito acima de qualquer operário do vale do Ave, qualquer trabalhador das estufas de Odemira, qualquer pescador de Rabo de Peixe, qualquer agricultor de Alcaravelas.


O facto de ser mulher e mulata - e longe de mim pretender que essas duas características não possam ter pesado negativamente na sua vida profissional e social - não a impede de ter um presente que parece muito longe de precisar de ser reparado pelos brancos herdeiros do colonialismo.


Aceito perfeitamente que Kitty Furtado seja apenas mais uma da longa lista de pessoas excepcionais que conseguiram, pelo seu esforço, aproveitar as oportunidades que foram tendo na vida para prevalecer apesar das circunstâncias adversas, como aliás fizeram, há uns setenta anos atrás, Amilcar Cabral, Agostinho Neto, Mário de Andrade, Eduardo Mondlane e mais alguns (os três primeiros, inclusivamente, com apoio nos estudos por parte do regime colonial, abalando um bocado a treta de Álvaro Vasconcelos sobre a supostamente generalizada convicção de que os pretos seriam de uma raça inferior).


O que não entendo é a ideia de que a memória que exige reparação no presente seja toda anterior a 1975, esquecendo os regimes cleptocratas e ditatoriais que hoje continuam a obrigar milhares de migrantes a fugir da miséria das suas terras, para procurar vida melhor, independentemente da cor da pele dessas elites corruptas ser igual ao da dos desgraçados que sofrem as consequências do mau governo dos seus países.


Há quase cinquenta anos que estes regimes governam grande parte dos países afectados pelo colonialismo português (que, na verdade, durou pouco mais de 50 anos, nos fins do século XIX, princípios do século XX, a presença de brancos europeus em posição de autoridade, na larguíssima maioria desses territórios, era mais que marginal), o desempenho económico e social desses regimes é deprimente, e continuamos a agitar os fantasmas do racismo para explicar a pobreza que persiste, quer nesses países, quer em Portugal.


E, já agora, ao contrário de muitos outros, brancos ou de outro tom de pele qualquer, esses valorosos defensores dos povos desses países, preferem ficar por aqui, no conforto das suas carreiras académicas, a ir dar o corpo ao manifesto, ajudando os povos desses países a serem mais ricos e mais bem governados.


Com certeza é mais difícil, em Portugal, ser pobre sendo preto, ou mulher, ou homossexual, ou tudo isso junto, e com certeza a pobreza é desproporcional nas comunidades não brancas (pelo menos nalgumas, não é assim tão verdade nas comunidades chineses, por exemplo), e é verdade que parte dessa desproporção resulta de racismo.


Só que isso combate-se combatendo a pobreza, não é com a deslocação do foco para a suposta necessidade de reparação resultante de visões infantis do colonialismo, sem grande base factual, assente numa visão do racismo que é simplesmente absurda (outra militante deste suposto anti-racismo, num artigo recente, dava o exemplo de Alexandria Ocasio-Cortez para falar de minorias étnicas, como é habitual falar de Kamala Harris nos mesmos termos).


Na complexidade do problema da pobreza incluem-se as barreiras levantadas pelo racismo, com certeza, mas não é com um racismo de sinal diferente que melhoramos as nossas sociedades, muito menos quando esse suposto anti-racismo serve essencialmente racistas que se apresentam como anti-racistas, não tanto as verdadeiras vítimas de racismo.

11 comentários:

  1. conheci o António em 1951 por intermédio de Amigo comum e Colega que o sustentava. contou que na juventude em Luanda o meu Amigo o levava a todo o lado e um dia ouviu alguém dizer «lá vem aquele sacana com o cabrão do preto»
    em Coimbra conheci o Mário por intermédio de Amigo

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  2. um branco é um colono (mesmo que há três ou quatro gerações que a sua família viva naquele sítio)


    Como feito notar pelo próprio Henrique posteriormente no post, esta frase não se aplica em geral, dado que o colonialismo português em África pouco mais durou que 50 anos, pelo que não houve tempo para haver três ou quatro gerações.


    A imensa maior parte dos colonos brancos teve, quando muito, os filhos em África.

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  3. Não sei quem é Kitty Furtado (parente da gata japonesa?), nem quero saber. Mas há um facto / mito importado dos USA que vale a pena falar. O de que o branco é / foi comerciante e/ou proprietário de escravos.
    Do pouco que sei de História, para além da escravatura ser tão antiga como a sociedade em si, o escravo era um "produto" extremamente caro e valioso, e que não estava ao alcance de qualquer caucasiano. Aliás, a grande maioria (praí uns 99,999%) dos branquinhos eram eles próprios uma espécie de escravos do senhor feudal ou do nobre, ao invés de serem felizes detentores de um pretito. A ideia de que os europeus andavam a trocar africanos entre si como hoje se trocam objectos no eBay é tão WokeAmericana, e apenas demonstra a sua (deles) ignorância, bem como a de quem come esta doutrina como um apeitoso BigMac.

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  4. Qualquer pessoa que venha com a conversa de racismos, e de coitadinhos, em países da Europa, mando logo levar onde o Sol não brilha.

    Ainda ontem estava  aver um documentário da insuspeita BBC, aquando de cortes na versão Britânica do RSI, e similares (já há uns 8 anos). 


    O refugiado Palestiniano a viver da segurança social, no país há 17 anos, com 7 filhos, e que mal se conseguia fazer expressar em Inglês, barafustou que não queria a casa (de borla) que lhe arranjaram a 45km de Londres, e tanto chorou que lhe arranjaram uma em Londres.


    O mesmo para um refugiado da Somália.

    Uma senhora refugiada da somália, uma mãe tão incompetente que a filha de 12 anos bateu o pé que não queria ir para a casa nova que o contribuinte lhe deu de borla, e a mãe baixou a bola, e deixou a filha ficar a viver com familiares em Londres e foi com a filha mais nova para Luton (+-40 km).
    Reclamava a senhora que a zona era má, e que não gostava de ter um lounge, em vez de cozinha e sala separadas. NUMA CASA DADA DE BORLA!

    Duas senhoras negras, não sei se nascidas no país, se também elas imigrantes, ou filhas de imigrantes, uma mãe solteira de dois, outra mãe solteira de cinco, a recusarem todas as alternativas que lhes eram postas à frente. Pelo menos uma delas estava à procura de emprego do mal, o menos. Lá o council lhes arranjou aquilo que exigiram.


    Sabem quem foi a única pessoa a quem não deram abébias? A única que ficou agarrada, e a viver com os filhos num hostel? A Inglesa branca, com três filhos.


    E isto é um documentário da BBC, que pelo seu alinhamento ideológico é favorável aos coitadinhos. Todo o tom do documentário era "governo mau, cortes maus".

    As minorias étnicas têm uma vida terrivel na Europa, não haja dúvida. Se fosse uma vida assim tão má não só não continuavam a haver milhares a querer vir, como as Joacines e os Mamadus desta vida já tinham feito as malas.

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  5. Em 1930 um homem adulto vai para África com quatro filhos, o mais velho dos quais, adolescente (digamos, 12 anos).
    Dez anos depois, esse seu filho, portanto, em 1940, tem um filho.
    Em 1962 esse seu filho tem outro filho.
    Ou seja, o filho que em 1975 tem 13 anos, é a quarta geração em África (o primeiro, que nasceu em Portugal, o avô, que nasceu em Portugal mas desde os 12 anos está em África e não conhece outra terra como sua, o pai e ele.
    Em Portugal (ou nos EUA), basta nascer para ser, imediatamente, português (ou americano).
    Qual é mesmo a tua questão?

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  6. Não vale a pena dar trela a adiantados mentais.

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  7. Com milhões de escravos hoje, continuam a priorizar os escravos de há 500 anos atrás. 
    Podem ir passear ao Congo, fazer activismo daquele bom, nas minas onde se inicia o processo da mobilidade sustentável. 

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  8. José Ferreira Barroca Monteiro2 de janeiro de 2023 às 21:17

    De passagem, alusivo a Mondlane, enviado em tempos a Daniel Oliveira, claro que não vale a pena.

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  9. Quanto a racismos: perante o que seria dos "brancos" após a independência, a Frelimo, em Dar-es-sallam numa reunião promovida pela Sra. Mondlane, decidiu-se, "preto no branco" (no pun intended) serem racista. Ponto final. "África é para os pretos". Puro racismo expresso, documentado e implementeado. Perceberam?.

    Por outroa lado, como HPS bem esplica, é impossível para quem nasceu numa terra "retornar" para uma outra que não é a sua. O oportunismo e/ou a ignorância dos factos, é desavergonhada.


    Quanto ao "colonianismo" português. Lourenço Marques durante alguns anos, já depois de muita presença de europeus, foi regida por uma tribu da zona. Os europeus não mandavam.... Ignorar ou ingenuamente personalizar dramas racistas não é sinal de cultura, pelo contrário. Quem está mal....



    Vamos deixar de olhar para o umbigo. Desde sempre, ali em África e em todo o mundo, em todas as civilizações historicamente conhecidas, entre matar os vencidos ou obrigá-los a trabalhar "escravizar" ou vendê-los com lucro "comércio de escravos", os portuguêses de facto foram (e são) uns amadores. Antes escravizava-se por ali negros, a negros, àrabes a negros e a europeus, àrabes a àrabes...infindável. E continua. Há quanto tempo não vão à RSA de N. Mandela?.

    Pseudo luminárias: cresçam e apareçam.

    Racista de aviário: se não gostam voltem ... sejam retornados, voltem para a vossa África ou lá para onde bem entenderem.

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  10. Toda essas penitências que nos exigem pelo passado colonialista tem cheiro a desforra, a revanchismo, carregado de ódio e de vingança. Não querem nenhuma "reparação", pretendem apenas humilhar e espezinhar como qualquer bully.

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  11. Não é racismo é o poder que dá o victimismo criado pelo jornalismo.





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