quarta-feira, 10 de agosto de 2022

Partindo do fogo da Serra da Estrela

É relativamente raro eu discutir fogos concretos por uma razão simples: eu não percebo grande coisa de fogos, percebo alguma coisa de evolução de paisagens e acabei rotulado como "especialista" em fogos, aqui e ali, apenas porque, sendo o fogo um filho do seu contexto, e sendo a paisagem o contexto dos fogos rurais, acabei a tentar perceber, com quem realmente sabe de fogos, as relações entre evolução da paisagem e evolução do padrão de fogo.


No dia 7, Paulo Ferreira (o post é público, portanto não será nenhuma inconfidência), um jornalista com raízes em Viseu, comentou, com umas belas fotografias de há dois anos, o fogo que andava pela Estrela "Os carvalhais da região de Manteigas há dois anos, no Outono. O fogo anda agora por ali. São décadas de património natural que se vai num fósforo".


Fiz um daqueles comentários genéricos a dizer que não era bem assim, que os carvalhais geralmente recuperavam muito deperessa  - dependendo das condições em que tinham ardido - o que deu origem a uma resposta referindo a esperança de que eu tivesse razão "embora para um ignorante no assunto como eu seja muito difícil de acreditar que daqui a cinco anos já teremos as árvores altas e frondosas como as que vi há dois anos nos locais que estão a arder".


Entretanto já me tinha posto em campo, à procura de informação sobre as condições em que estava a arder - não me parecia que as condições fossem extremas, portanto talvez a intensidade do fogo não fosse nada de especial, o que reforçaria a esperança numa rápida recuperação dos carvalhais, em especial a sua rebentação de copas e não apenas de toiça - e disseram-me que havia alturas a arder com muito intensidade, durante o dia, que à noite nem por isso e havia perspectivas de que, estando o fogo a entrar numa zona em que as perdas seriam maiores, o faria descendo a encosta. O que tende a ter como resultado uma menor severidade - a intensidade é a energia libertada pelo fogo, a severidade é a afectação da vegetação e depende da intensidade do fogo e do estado da vegetação.


O que me fez andar com este post na cabeça até ter oportunidade de o escrever foi o facto de diferentes fontes de informação confirmarem que este fogo é uma boa demonstração do falhanço do sistema de combate. Não, não estou a falar de voltas a Portugal em bicicleta e coisas do mesmo tipo, estou a falar de coisas bem mais concretas como o fogo, em determinada altura, bater de frente com faixas primárias de gestão de combustível perfeitamente funcionais, mas não estar lá a dispositivo para aproveitar a oportunidade de parar aí o fogo, provavelmente por erro na apreciação do potencial do incêndio logo de início, e porque a doutrina de combate está hoje totalmente focada em não deixar perder vidas e arder casas de primeira habitação, abandonando quase por completo o único combate a fogos flroestais realmente eficaz: o que se faz com os pés no chão e ferramentas de cabo de pau na mão.


Sem surpresa, ouvi, mais tarde, na rádio, um responsável a dizer que não havia perdas materiais, quando o fogo já lavrava há horas em pinhal maduro, provocando perdas materiais substanciais (e, essas sim, graves e com efeitos futuros bem preocupantes, a forma como desvalorizamos o que está a acontecer ao pinhal, por causa do regime de fogos que temos, é arrepiante).


Não sei discutir se foram tomadas, ou não, as melhores opções o que sei é que vejo frequentemente análises de evolução do fogo, quer durante os fogos, quer em análise posterior, que, para mim, são bem mais informativas que as palermices permanentes sobre o teatro de operações, o número de bombeiros (procurem no google a entrevista de que transcrevo este bocadinho, que vale bem a pena "Ese concepto del bombero como un peón forestal está caduco. Hay que subir ese conocimiento y esa toma de decisiones. Tiene mucha más capacidad de influencia un bombero bien formado que 200 bomberos mal formados y 50 aviones."), o número de meios aéreos ou de viaturas.


Com certeza haverá fogos com um combate bem gerido e haverá fogos com combate muito mau, o drama é que nós, como país, como sociedade, tendemos a não os distinguir.


Aparece sempre alguém a pedir responsabilidades, a demissão ou julgamento deste e daquele, mas pessoas a pedir simplesmente um sistema independente que faça a avaliação do que correu bem e correu mal em cada fogo, isso já nos parece uma coisa impossível.


E, no entanto, essa seria, provavelmente, a melhor forma de evoluirmos serenamente para um combate cada vez melhor, cometendo erros, com certeza, mas evitando repeti-los muitas vezes, e evitando prolongar políticas públicas que, manifestamente, não dão os resultados esperados.


Um bom exemplo, no caso dos fogos, é o da prevenção estrutural: é defensável, tecnicamente, que intervenções estratégicas tenham uma relação custo-benefício mais favorável.


Mas há uma condição básica para que assim seja: que o combate esteja suficientemente integrado com a prevenção estrutural, de modo a usar as oportunidades criadas de forma eficiente.


Manifestamente, por cada exemplo em que isso tenha acontecido, há dezenas em que isso não acontece.


E isso não nos tem impedido de continuar a gastar rios de dinheiro numa prevenção estrutural que a gestão do combate não reconhece como útil.

10 comentários:

  1. Nos fogos, todos querem mandar e serem protagonistas, na desgraça do património Português, todos anos temos fogos, interesses económicos dos madeireiros, das celuloses, das empresas de moveis e carpintaria, gastos em equipamentos para fogos e tudo isto mexe com muitos milhões de euros. 


    Isto acontece de fato na Republica, os meus avôs e pais do tempo do Estado Novo, e não existiam fogos, existiam secas extremas, mas fogos, onde ? porque existia um controlo da floresta, existia muita pastagem para animais e isto permitia eliminar o mato, cultiva se muito mais e tudo isto Portugal era exemplar, contrariamente com atual Republica.


    Mas com isto não quero dizer que apoie o Estado Novo, não, era outra vivência, mas tinham boa orientação.


    João Felgar

    ResponderEliminar
  2. Sim, Sr João Felgar, não o conheço, mas penso no que diz. Na verdade, estudei algumas coisas e esses grandes incêndios são dos últimos, digamos, 60 anos. Você tem que se perguntar se em um país quente como Portugal você deve apostar em pinheiros altamente inflamáveis. É lucrativo para alguns, mas um trunfo para muitos. Assim como a energia nuclear. Legal, mas só quando acontece um acidente, as consequências são incalculáveis. Isso é escolher viver com grande risco. Não tenho filhos, em parte por causa desse pensamento e por causa do consumo excessivo da mãe terra e da destruição de sua beleza.

    ResponderEliminar
  3. Eu também não o conheço, mas o pinheiro sempre existiu em Portugal, os espaçamentos eram maiores, como os castanheiros com espaços de 50 metros de copa a copa, as realidades eram diferentes, e os pinheiros era para a construção de casas, tínhamos Faia, Cerejeira, Carvalhos, Castanheiros e estas árvores davam para as industrias navais, o vinho, e conseguia ter rendimento.


    Hoje, temos prejuízo à 48 anos, prejuízo


    João Felgar 

    ResponderEliminar
  4. Eu é que não percebo mesmo nada de fogo. Todavia, tratando-se da mais relevante reserva natural do território continental português, incluindo a mesma vastas áreas de vegetação altamente inflamável, não percebo como, aparentemente, não existia qualquer plano (nem pensado, nem implementado - nem de prevenção, nem de reacção), para fazer face a algo tão óbvio e previsível como a ocorrência de um incêndio de mato a pouca distância da Covilhã (cuja fumarada eu tive a infelicidade de ver, no sábado, ao sair do túnel da Gardunha - não imaginando que hoje, quarta-feira, ao fim da tarde, a mesma fumarada me impediria de ver a Sé da Guarda). Era mesmo inevitável que um incêndio de matos junto a uma área urbana nas margens do Parque Natural alastrasse a áreas contínuas de pinhal (e da "miraculosa" vegetação autóctone)? Era impossível a adopção de medidas que pudessem prevenir o risco desse alastramento - ou a existência de um plano de acção, caso essas medidas falhassem? Cinco anos depois dos incêndios de Pedrogão Grande, é aceitável ouvir as mesmas ladaínhas de natureza administrativa a justificar estas situações? PS: a prova que todo o desastre tem um lado positivo, é que, ao menos desta vez, não temos de gramar com a monomania dos "eucaliptófobos" que infestam os espaços frequentados pelo HPS, pois não há modo de meter nesta catástrofe esse seu "deus ex machina". 

    ResponderEliminar
  5. Jan, serem pinheiros, eucaliptos, carvalhos, sobreiros, azinheiras, acácias é basicamente igual, o que conta é a gestão de combustíveis finos.

    ResponderEliminar

  6. O pinheiro está em casa em Portugal, mas agora cresce em muitos lugares onde antes existiam outras árvores e onde o sistema agro-pastoril costumava gerir a paisagem. A globalização e os desenvolvimentos tecnológicos abandonaram o sistema agropastoril e o substituíram por silvicultores com seus pinheiros e eucaliptos. Enquanto o sistema agropastoril não teve grandes incêndios florestais, agora ficou claro que o sistema florestal tem grandes incêndios.
    Na minha opinião, devemos gerir de forma sustentável a paisagem, incluindo a biodiversidade e a agricultura biológica. O problema da destruição da paisagem devido à industrialização da paisagem também existe na Holanda. Aqui está o problema do excesso de nitrogênio, poluição do ar, perda gigantesca de biodiversidade, poluição da água. Tanto a Holanda como Portugal estão no jogo do diabo.
    Eu também queria perguntar o que esses 48 anos significam. Obrigado e vamos aproveitar a vida mesmo que as reportagens da mídia nos machuquem muito.

    ResponderEliminar
  7. Sim, isso mesmo Henrique, você tem razão. Até agora foram os pastores que souberam e aplicaram isso. Acho que é tecnicamente possível remover "o combustível fino" (plantas e animais). Sugeri antes tratar a silvicultura como uma área industrial. Você teria então que organizar a paisagem de tal forma que existam áreas naturais, áreas industriais e áreas semi-naturais (paisagens culturais). Eu acho que se você fizer isso com inteligência, você pode evitar os grandes incêndios.

    ResponderEliminar
  8. O presidente de Gouveia veio pedir o mesmo.

    https://maisbeiras.sapo.pt/presidente-da-cim-bse-pede-analise-ao-combate-ao-incendio-porque-nao-pode-o-vento-justificar-tudo

    ResponderEliminar
  9. A politica da Republica não muda, e enquanto o Povo continuar engando nas festas do voto, os intervenientes políticos que estão no poder, nada fazem para a melhoria do Povo.


    A cultura retrógrada dos políticos que temos, não fizeram rigorosamente nada para criar condições em melhorar as condições de um Povo, como fez a Holanda, a Bélgica, Suíça e nestas nações em 48 anos de politicas, eles conseguiram mais em produtividade, do que Portugal, desde Mário Soares, Portugal vive de mão estendida da EU, é como África das nossas antigas colónias que estão a mão estendida para receberem a farinha, o milho para comer. 
     
    A analogia é igual, de África a Portugal, com a Republica, os objetivos traçados não existem, só existe para roubar o Povo em impostos.


    A Republica destruiu a família que sabia gerir, em vez disso, vão para o poleiro, amigos uns dos outros e abusam da confiança das pessoas.


    João Felgar

    ResponderEliminar

  10. Roubar as pessoas com impostos é o esporte nacional de nossos políticos na Holanda. Em nenhum lugar o imposto é tão alto quanto aqui. Também aqui o povo é enganado e se deixa enganar votando repetidamente nos mesmos partidos. Hoje em dia, a sustentabilidade tem o imperativo de forçar as pessoas a construir a nova economia circular com carros elétricos (não se diz de onde vêm as baterias), usinas de biomassa para supostamente reduzir o CO2 enquanto aumentam a realidade iônica, turbinas eólicas, etc.
    As pessoas comuns não têm dinheiro para isso e são marginalizadas.
    Enquanto isso, a cultura de massa tornou-se dependente da indústria da saúde, indústria pecuária e agricultura, o que você quiser. Como resultado, não podemos voltar a uma paisagem amiga da natureza, porque muitas pessoas viverão em extrema pobreza. Já há longas filas nos bancos de alimentos.
    Como Europa, somos muito mais ricos do que a maioria dos outros países, mas enfrentamos um futuro incerto. Esses grandes incêndios e a epidemia de covid são apenas um dos sintomas desse desenvolvimento desastroso da humanidade.

    ResponderEliminar

A responsabilidade política de Fernando Alexandre

 Houve quem visse na minha recusa total da ideia infantil que Fernando Alexandre optou pela sua ambição contra o interesse dos alunos uma te...