segunda-feira, 25 de abril de 2022

24 de Abril

"Parece que o Município de Cinfães entendeu reeditar uma obra de 1950, sobre recolha musical em Cinfães. Nada contra se, com a obra, vier uma memória explicativa da pertinência desta reedição.
Trata-se de um trabalho elaborado durante o Estado Novo ou, para quem não sabe, o tempo de ditadura, destinado a celebrar as características rurais e pitorescas do povo português.
Entre estas características incluía-se o bom respeito pela Religião e pela Ordem Pública, reflectidas na Cultura Popular, pobre mas alegre...
O Folclorismo foi um das estratégias mais alimentadas pelos ideológos do Estado Novo (1933-1974) no sentido de entreter a população com danças e cantares que diziam reflectir o espírito "bom" do tal "povo português".
Ora, republicar-se uma obra destas em 2022, sem qualquer tipo de contextualização é dar-se continuidade a este tipo de visões retrógradas, conservadoras e chauvinistas.
Lembramos que, em 1950, a mulher devia submissão ao marido, não se podia falar aberta e livremente sobre assuntos que desafiassem o Estado ou a ordem e eram presos ou punidos todos os que tentassem, de alguma forma, pôr em causa a forma de regime.
A poucos dias de comemorarmos o 25 de abril de 1974, o lançamento desta obra entristece-nos e é reveladora da pouca sensibilidade cultural e humana dos autarcas de Cinfães."


Este texto é de uma pessoa muito qualificada no assunto sobre o qual está a escrever, na medida em que é um investigador da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, tanto quanto sei, especializado em história de arte.


Andava há uns dias para fazer um post sobre este texto e, por acaso, coincide estar a escrevê-lo no dia 25 de Abril em que, mandaria a prudência, que eu fizesse um post com o título "25 de Abril sempre", ilustrado por cravo encarnado, com um texto qualquer em que falasse da "longa noite fascista" e da opressão em que vivia o povo, em especial, a brutal exploração das classes trabalhadoras.


Omitindo, evidentemente, que em Março de 1974, três semanas antes do 25 de Abril, José Afonso deu um concerto no Coliseu dos Recreios de Lisboa, cuja fotografia publicada no Diário de Lisboa permite ver uma boa parte dos cantores de protesto da altura (José Barata Moura, Vitorino, José Jorge Letria, Manuel Freire, Fausto, José Afonso e Adriano Correia de Oliveira).


E por que razão, nesse tal post que eu faria se tivesse juízo, eu teria de omitir a referência a este concerto?


Claramente porque a existência desse concerto desmente grande parte do discurso público sobre o 24 de Abril.


Se eu tivesse juízo, transcrevia simplesmente a crónica de hoje de Miguel Esteves Cardoso: "Não nos deixavam ser. Não nos deixavam viver. Não nos deixavam ouvir música. Não nos deixavam ver filmes. Cortavam os filmes. Apanhavam os livros. Proibiam os discos".


Miguel Esteves Cardoso tem desculpa: com 18 anos no 25 de Abril, criado no meio da média alta burguesia lisboeta, estudando no St Julians e fora de Portugal, é natural que desconhecesse o país sobre o qual escreve, tomando o mundo da sua família e da sua circunstância pelo mundo tal como ele era. E no seu mundo, é perfeitamente normal que o parágrafo da sua crónica de hoje fosse verdadeiro.


Mas o concerto de José Afonso em Março de 1974 no Coliseu desmente a generalização desse mundo da média alta burguesia do país.


Tal como no coração do que mais tarde viria a ser o cavaquistão, no centro do Portugal rural e religioso, não muito distante da Santa Comba Dão de Salazar (separa-as a serra do Caramulo, pouco mais) nas festas de Oliveira de Frades, um dos principais cantores contratados em 1972 era José Jorge Letria, bem mais explícito que José Afonso no seu alinhamento político e partidário. Sei porque me lembro: eu tinha 12 anos, sei que tinha de ser em 1972 porque foi o ano em que passei férias por aquelas bandas (eu vivia em Moçambique) e porque no fim da actuação foi para casa da minha avó, pela mão de um dos meus primos - provavelmente um dos mordomos da festa - de quem era amigo.


Note-se que José Jorge Letria foi para a casa da minha avó, que era salazarista não praticante por horror ao que tinha vivido antes do Estado Novo, em que a geração dos meus pais era conservadora e em que havia bastantes esquerdistas na geração mais nova. Ainda assim, gente de uma burguesia com fortes raízes rurais.


Sem grande surpresa, ainda recentemente Pacheco Pereira referiu o nome mais martirizado pela censura do Estado Novo, José Vilhena. Com a excepção do Partido Comunista (que nunca lutou por liberdade coisa nenhuma, lutou contra uma ditadura, o que é bom, mas para a substituir por outra ditadura, por mais que se pretendesse que fosse da maioria, o proletariado) e respectivos "compagnos de route", o regime sempre esteve mais preocupado com a moral que com a divergência política (por isso a quantidade de quadros do antigo regime que rapidamente são reciclados pela Democracia, como Almeida Santos, Veiga Simão, Vítor Constâncio, João Cravinho, etc.. Quadros não no sentido de serem apoiantes do regime, mas de serem pessoas que pessoal e profissionalmente prosperaram sem grande problema durante o regime, estando perto das fontes de poder).


Há, no entanto, nesta burguesia relativamente recente - há um ramo da família em que não é tão recente esse estatuto - uma memória muito clara do que era o país antes do Estado Novo e nos primeiros tempos do Estado Novo, até à Segunda Guerra.


Memória que também havia nos trabalhadores que fugiam dos campos, uns para o mundo urbano português, progressivamente mais industrializado, outros para a Europa do pós-guerra (como antes tinham fugido para o Brasil, até à crise dos anos vinte e trinta).


Havia uma consciência clara de que, por difíceis que fossem as suas condições de vida, e eram, viviam melhor do que os seus pais e avós.


Para grande parte destas pessoas, o regime era claramente irrelevante, não mexeriam, como não mexeram, um dedo para o defender, mas também não estavam dispostos a enfrentar politicamente o regime, para lá de umas manifestações mais ou menos folclóricas de oposição ou distanciamento. 


No entanto, por mais absurdo que seja, mesmo negado pela historiografia contemporânea, o discurso sobre o 24 de Abril continua maniqueísta e preso aos interesses políticos de quem pretende que o 25 de Abril foi uma acção da esquerda contra a direita e os seus interesses, ao ponto de ainda haver quem queira negar o papel de Spínola, Sanches Osório ou Galvão de Melo, por exemplo, no 25 de Abril.


Daí a situação com que comecei o post: uma publicação etnográfica, por um músico reconhecido pelo seu trabalho de recolha etnográfica, por datado que seja, é reeditada e há quem ache isso uma tristeza por não se aproveitar a ocasião para, mais uma vez, enquadrar a dita publicação no discurso oficial sobre o 24 de Abril.


Mesmo que tenha sido durante o Estado Novo que Portugal tenha deixado de ser o último país rural da Europa - isto é, aqueles em que o PIB do sector primário é maior que o PIB do sector secundário - haverá sempre alguém que seja incapaz de distinguir a ideologia ruralista do Estado Novo do mundo real em que existiu.


O Estado Novo era uma ditadura, com censura, com polícia política, limitador das liberdades (por exemplo, no concerto de José Afonso que já citei, as músicas que cantou tiveram de ser previamente aprovadas, o que é inaceitável, mesmo que músicas como a Grândola, que na altura não tinha o peso simbólico que veio a ter, mas que é politicamente muito clara, tenham sido aprovadas) e sem legitimidade por ter a origem do seu poder nas armas e não no consentimento do povo.


É bom que celebremos o 25 de Abril por isso mesmo, por ter acabado com um regime ilegítimo e ter retomado o princípio de que o exercício do poder depende do consentimento das pessoas comuns.


Só que para fazer essa celebração não é preciso, parece-me mesmo contraproducente, continuar com o discurso oficial sobre o 24 de Abril, que tem mistificações a mais e investigação histórica séria a menos.

22 comentários:

  1. nasci na raia junto ao Tejo do lado sul em 1931.
    nunca fui fascista, mas fui perseguido pelos sociais-fascistas agora no poder. conheci o Ximanjinho como prof de física. conheci em 65 na EPC o 'básico' que ainda hoje não compreendo como conseguiu chegar a Lisboa para gritar 'au quistu xigou'. Pedro Cardoso Pereira, mais conhecido por Adão, foi afilhado da loja do avô no Gol. conheci a pelintragem que hoje vive à custa dos contribuintes privados. desconhecia que a 'glândula' é + importante que o hino do patriota que fugiu para a Alemanha e que nunca mais deu notícias
    aumentou a dívida pública e o nº de pobres. um sujeito assaltou um talho acompanhado da mulher com criança ao colo
    desde 58 que comemoro o 25 de abril, data da libertação de Milão em 45

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  2. O 25 abril foi instrumentalizado pelas forças politicas de esquerda que nos procuram convencer que Portugal começou em 74. Antes eram as trevas. Falácia profunda tal como as forças vencedoras do iluminismo que procuraram refazer a historia escrevendo que antes tinhamos a idade das trevas e a partir dali fez se luz. Os vencedores das convulsões sociais em diferentes épocas tentam reescrever sempre a história da forma mais favorável para os seus membros.

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  3. Impecável Henrique. Obrigado.

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  4. Só li até aqui e chegou:

    Foi assim de facto?.

    Agora é mais futebol e telenovelas e gajos com alzheimer

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  5. Essa tal " pessoa muito qualificada no assunto"  é , também e seguramente, intelectualmente desonesta , para utilizar um eufemismo...
    JSP

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  6. Pois. Fomos governados por homens honestos - o tal "regime ilegítimo" ex-post-facto.


    Cantaram-nos cantigas, e nós embarcámos. Eu também.


    Agora temos o que merecemos. Eu também.


    Podem chorar. Eu também.

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  7. Dou o meu exemplo. Tinha 5 anos no 25 de Abril. Fui um miúdo e adolescente curioso com a história e a política. E, todavia, já tinha passado os 30 anos quando ouvi falar, pela primeira vez, do Decreto-Lei 353/73. Lembro-me que foi numa entrevista televisiva ao desbocado ex-"Capitão de Abril" Luís Villas Boas (director vitalício do Refúgio Aboim Ascensão), que, a propósito de um corte no salário ou coisa do género disse que tinha sido esse o motivo para a formação do "movimento dos capitães". A centralidade deste facto na história do 25 de Abril, só tem paralelo na sua deliberada omissão, para não estragar a narrativa "épica" do evento ("when legend becomes fact, print the legend")

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  8. Muito bom e muito corajoso. O que posso fazer é apenas dar o meu testemunho.
    Ofereceram-me os três D, Descolonizar, Democratizar e Desenvolver. Estou revoltado com a descolonização, insatisfeito com o (não) desenvolvimento e desiludido com (esta) democracia.
    Fui opositor de Salazar - especialmente por África - e cedo me desencantei com Marcello Caetano. Com o 25 de Abril estive de alma e coração durante seis dias. Depois foi a crise Palma Carlos e soube que existia um conselho de oficiais não eleitos que tinha o poder real e fôra o motivo da demissão. Ora eu sabia que, noutras paragens, um conselho de oficiais não eleitos que detém o poder político, chama-se um soviete.
    Como muitos, afligi-me e sofri com o PREC e, como muito menos, estava preparado e com missões atribuídas na guerra civil que julgava inevitável. O 25 de Novembro foi uma completa surpresa pois todos os cenários contemplavam a queda de Lisboa para a esquerda militar. 
    No dia 26 de Novembro, o major Melo Antunes veio à televisão - atente-se que não foi Ramalho Eanes que até tinha sido director da RTP - louvar o regimento dos Comandos, "explicar" que o PCP era essencial à democracia portuguesa e "avisar" que seriam punidas acções contra sedes ou pessoas desse partido.
    A minha sensação pessoal foi que acabava de ter sido traído.
    Hoje não sou opositor activo do regime, pelo único motivo de não lhe ver alternativa credível. Mas estou convencido que vivemos hoje numa sociedade mais injusta, mais crispada e com mais insatisfação do que no 24 de Abril.
    Estarei errado? É possível mas não estou só. Chamo em meu apoio textos de António José Saraiva e Vasco Pulido Valente, do primeiro sobre a descolonização, do segundo sobretudo uma crónica com o título "Nada devemos ao MFA".
    Sobre o 25 de Novembro, comparo. Salgueiro Maia - que conheci pessoalmente e com quem simpatizei - sempre se queixou de ter ficado votado ao esquecimento, abandonado. Ele ou a sua viúva Natércia, pediram uma pensão extraordinária por relevantes serviços prestados. Mas Jaime Neves, o herói do 25 de Novembro, televisivamente elogiado por Melo Antunes, pediu a passagem à reserva, foi para Trás-os-Montes e nunca mais dele se ouviu falar. Não posso dizer que sei o motivo, mas desconfio.   

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  9. Não sei quem é o/a ignorante "encartado" que escreveu a pessegada que o HPS transcreveu. Além do mais revela frivolidade, preconceito e uma imperdoável desconhecimento sobre o contexto que originou em 1950 o tal   
    Só um pobre de espírito, um ignaro, afirma  tratar-se da apologia da cultura popular, ou incentivo à perpetuação da ruralidade. Esse interesse, na época,  pelo tema da Cultura Popular não é alheio ao facto de a Antropologia ter surgido recentemente (convém sublinhar-se isto) como uma nova ciência e uma disciplina que veio lançar um olhar novo sobre a realidade.  Compreender os "fenómenos" de um determinado período histórico é também fazer o esforço de o contextualizar devidamente, i.e., observá-lo à luz da época. Assim, pois, a Antropologia veio despertar o interesse e o estudo da Cultura Popular, nas suas variadas dimensões, etnológicas, filológicas, arqueológicas, etc. ( designadas pejorativamente por folclorismo pelo supracitado "crítico" encartado...) 


     Por estranho que pareça, havia uma intenção nobre (se quisermos ser honestos). Essa "nova" disciplina, _sublimemente cultivada e aprofundada por Leite de Vasconcellos,  Santos Júnior, Carolina Michaellis entre outros _  pretendia dar ênfase aos nossos antepassados "excluídos"  das narrativas canónicas, aos "marginalizados" da história, enfim, que a generalidade das pesquisas passaram a "incluir" o povo, para dar a conhecer artes e costumes ancestrais até aí "marginalizados"!  (Que palavras tão caras aos do politicamente correctos).

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  10. Há pior. Não faltam  que defendem que os monumentos restaurados pelos "portugueses de 1940" deviam voltar a ser as pilhas de entulho com cemitérios, quarteis, choças adossadas e/ou cabras a pastar que figuram nas fotografias do "antes" dos boletins da DGEMN. Antes isso do que ícones das "

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  11. O "folclorismo" da ditadura nunca impediu o progresso da investigação etnográfica séria, começando por Jorge Dias, discípulo do grande Leite de Vasconcellos (justamente lembrado em comentário supra), com seguidores como Ernesto Veiga de Oliveira, próximo do PCP) e, no âmbito da musicologia poular o enorme trabalho de recolha de Lopes-Graça (outro do PC) e de Michel Giacometti.

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  12. Corrigenda: quem foi discípulo de Leite de Vasconecellos foi Jaime Lopes Dias, não Jorge Dias (também etnógrafo), de uma geração posterior.

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  13. Eu vinha escrever algo semelhante a isto. Apenas sem dizer que o autor do texto era ignorante, não porque não o seja, porque o é realmente, mas porque todos somos ignorantes sobre quase todos os assuntos.

    Há tanto para conhecer que apenas conhecemos uma pequena parte de alguns poucos assuntos. Mas realmente associar a obra referida a um incentivo à perpetuação da ruralidade, a uma "visão retrógrada, conservadora e chauvinista" é um erro crasso. E estou a ser polido.

    O anónimo acima tem razão em tudo o que diz. Que sirva para o HPS e os restantes leitores aprenderem alguma coisa.

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  14. Sobre esse tempo, a esquerda montou uma grande farsa e uma grande mentira. Além de se ouvirem os cantores de intervenção que refere, antes de 74, a Amália cantou o "Povo que lavas no rio" (quer letra mais revolucionária?) e a nossa geração também ouviu os cantores "avant-garde" da época como Léo Ferré, Georges Moustaki, Jacques Brel, Serge Regianni, Patxi Andión, e tantos outros, anglos-saxónicos, que nos chegavam aqui...  vi filmes da contra-cultura, de temas bastante controversos para a época, no Cine Clube do Porto, comprei o que me apeteceu na Unicef (cooperativa livreira frequentada por estudantes e não só) li os escritores "desalinhados", os existencialistas e outros filósofos "malditos" (o tão em voga "Porque não sou cristão" de Bertrand Russell). Tudo, mas tudo, nos chegava às mãos e tudo devorávamos sem quaisquer restrições. Dentro do que estava ao nosso alcance _ tendo em conta um mundo ainda não globalizado _  acho que nunca houve uma geração culturalmente tão cosmopolita como a nossa, tão ávida de saber. Fomos influenciados pelo filme (ópera) "Jesus Christ Superstar", pelos ventos do festival de Woodstock e do Maio de 68, que também sopraram e agitaram por aqui. Lia-se o "Paris-Match", o "Jours de France", o "Salut, les copains!", etc.. Viam-se inesquecíveis programas exemplares de cariz cultural na TV (quem esquece o David Mourão Ferreira, o Vitorino Nemésio?...), havia o Zip-Zip, fazia-se a colecção de livros lançados pela RTP, acessíveis no preço a toda a gente, que incluíam escritores neo-realistas (de pendor marxista)!!! com forte poder de agitação da consciência social, como  o "Germinal" do Zola (que me causou espanto), as "Vinhas da ira" do John SteinbecK só para citar 2 exemplos. Era uma sociedade que mexia, que absorvia tudo, que queria "estar a par", nada amorfa como pretendem fazer crer. A própria Igreja modernizou-se e abria-se aos tempos. Quem passa os olhos pelas fotos antigas vê que nos vestíamos e penteávamos ridiculamente, mas... "comme il faut" segundo os cânones da moda de então.
    Não era uma sociedade perfeita, longe disso, mas o HPS tem toda a razão quando afirma que o poder vigente punha a tónica nas suas inquietações com os "costumes" e na preservação de uma certa moral, do que em preocupações marcadamente e exclusivamente na área politica (onde a "censura" funcionava musculadamente (na verdade) de molde a assegurar que as ideologias (de cariz ateista e/ou marxistas) não pusessem em causa a "ordem" estabelecida, as "boas práticas morais" e não pusessem em perigo os "bons costumes").

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  15. (cont.) Gostaria, para fechar, de citar uma frase sua que bem sintetiza o que também penso:
     

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  16. Aplaudo e felicito-o pelos grandes nomes citados.

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  17. Os "defensores" do povo (afinal!) desdenham tudo quanto diz respeito à arte e à cultura popular!!! Veja-se o desprezo e a incúria a que foi votado o acervo recolhido e "dantes" preservado pelo MAP (Museu de Arte Popular)!!! Enfiaram-no em caves escuras, entregue à deterioração e ao abandono. Fica-se  com a sensação de que tudo quanto lhes cheire a Estado Novo faz-lhes urticária e portanto é para ser apagado e demolido...  o que me parece bastante revelador de certa "insegurança", que só tem uma explicação: talvez receiem "medir-se" com esse tempo. Mas um  país que não preserva a sua cultura nem a sua memória é um país em decadência. A min.da Cultura do Sócrates, Isabel Pires de Lima, pretendia transformar o MAP em Museu da Língua. Por que cargas de água?! Afinal  nem uma coisa, nem outra... como tudo neste país adiado.
    No momento em que o tempo de democracia já superou o da ditadura, e houve algumas inegáveis conquistas de Abril. Mas, para quando o balanço e o estudo comparativo  entre esses dois Tempos políticos tão antagónicos, que tanto têm marcado e polarizado a sociedade portuguesa?  Todos gostaríamos muito de saber se os três D (prometidos pela democracia) e se Abril se cumpriram ou se ficou aquém, o que há para nos mostrar    para que possamos, por fim, aferir a sua qualidade com dados credíveis. 

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  18.  (tem 1 min. e 30s):
    https://arquivos.rtp.pt/conteudos/desvio-dos-arquivos-da-pide-para-o-kgb/







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  19. JPT, legalmente e oficialmente a censura desapareceu! Mas não é bem assim. É bom lembrar (e todos nós o sabemos) que ela continua a existir, embora sob a forma capciosa de , porque o medo do "cancelamento", de se ser ostracizado e "chutado" para um canto. Tornou-se quase um imperativo esse "auto-controlo" cínico a que muitos se vergaram para "sobreviver" e... "vencer" nos dias de hoje. Se olhar à sua volta verá que até a própria Comunicação Social se curvou e se impôs a si mesma uma insidiosa autocensura,  cheia "daquele" silêncio ardiloso que se abstém  de questionar, para não incomodar os poderes instalados : mas, no fim, tudo acaba bem, alegremente e sem "farpas", i.e., sem escrutínio algum!  Na verdade é bastante deprimente e revelador da qualidade da nossa democracia, da falta de liberdade de expressão efectiva, da imposição do pensamento único, da tirania do politicamente correcto, da sujeição à novilíngua, etc. De certa forma aceitámos essa canga invisível.  Não é por acaso que as redes sociais se tornaram a válvula de escape do sufoco em que vivem as sociedades actuais. 
    CC

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  20. Sem dúvida que a letra de "Abandono" é mais explícita na crítica. Mas no poema de "Povo que lavas no rio" a crítica social é mais velada. O tom é mais pungente e sofrido e por isso nos perturba ainda mais. Diria que nos "rasga" por dentro. 
    De qualquer modo, é um facto que nenhum foi censurado.

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  21. Claro. E no âmbito artístico ou cultural, então, só um génio indiscutível conseguirá ter visibilidade e uma carreira (em ambos os casos, fortemente dependente do poder público) se não recitar, publicamente, os "mantra" da esquerda e o "evangelho woke" (ou, pior ainda, se se atrever a recitar outros "mantras" e pôr em causa esse "evangelho"). "Dizer mal do Passos" foi, e continua a ser (7 anos depois de o homem voltar para Massamá), o "abre-te, sésamo" para as portas das tvs, rádios e salas de espectáculos se abrirem e manterem abertas.

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  22. Qualquer agênci.... , perdão! governo do PS tornou-se um clube restrito  frequentado pelos "amigos" ( por sinal, bastante mal frequentado).
    É de uma indigência ouvi-los defender que a boa governança tem de passar forçosamente  "pela confiança política!" _ fazendo de nós parvos.  Já vai sendo tempo de explicar e  aos néscios _ e repeti-lo   _ que quem lhes está a ir aos bolsos e os tem arrastado para esta penúria, para esta porca miséria são precisamente estas medíocres excelências(!) que governam    em função da competência, da eficiência e do mérito dos melhores e mais talentosos,  ao contrário disso, na base de escolhas pela "confiança política" nos amigalhaços insaciáveis, nos protegidos desvalidos, numas excrescências sem excelência, nos apaniguados despudorados e  mais os parentes e aderentes que não têm onde cair mortos. 
    Ah! Meu pobre país! 

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