Rui Tavares é um comentador que leio com proveito em assuntos sobre os quais não sei por onde começar a pensar: vejo o que escreve sobre o assunto, parto do ponto de vista inverso, e isso poupa-me imenso trabalho para chegar a algum lado.
Citando a crónica de hoje de Rui Tavares.
"se um bebé nasce hoje, a explicação para tal não tem nada a ver com algo que se tenha feito hoje, mas antes com algo que se tenha feito há nove meses. Ao desfasamento entre causa e efeito, chama-se histerese.
A histerese na infecção pelo novo coronavírus pode ir até duas semanas, e nas mortes por covid-19 será cerca de outras três semanas adicionais. Juntando uma coisa e outra, percebemos que, se estamos agora a ter bons resultados, isso não tem a ver com algo que estejamos a fazer bem agora, mas com algo que fizemos bem há cerca de um mês, precisamente quando - de acordo com alguns - estávamos a ser exagerados. É pois à conta desse exagero que agora temos os bons resultados que lhes permitem erradamente criticar o "exagero"".
Vamos então aos factos.
Finalmente, ao fim de muito mimimi, a Direcção Geral de Saúde (ou será o Ministério da Saúde? Faz-me confusão esta confusão entre administração pública e governo, nem dá confiança à administração pública porque sugere que a informação dada pela administração é politicamente orientada, nem dá confiança ao governo porque sugere que o governo não trabalha politicamente a partir da melhor informação objectiva disponível, mas a partir de objectivos políticos pré-definidos) fixou o pico da epidemia onde já toda a gente tinha percebido que estava (menos o Jorge Buescu), algures ali para a semana de 23 a 30 de Março (a DGS diz entre 23 e 25, mas não vale a pena perder muito tempo com o pormenor).
A partir dessa altura, a epidemia entrou em perda, isto é, a infecção deixou de se espalhar, passou a estar contida, primeiro, e a diminuir, depois.
Note-se que esta avaliação - que é largamente consensual, com a excepção de Jorge Buescu, talvez - é feita a partir do número de casos de covid19 registados com sintomas.
Ou seja, para sabermos o pico real da infecção, é preciso recuar, digamos, pelo menos cinco dias, visto que os sintomas só aparecem ao fim de cinco dias (ou mais tarde, deixemos, mais uma vez os pormenores). Por exemplo, Paulo Fernandes, citando um modelo simples, que tem provado bem, feito por Francisco Rego, coloca esse pico da infecção ali para o dia 11 de Março.
Fixemos portanto o pico da infecção algures entre 11 de Março e 18 de Março.
Ora o fecho das escolas foi a 16 de Março, o estado de emergência declarado a 18 de Março, ou seja, usando, e bem, o conceito de histerese que Rui Tavares usa hoje, não se podem atribuir a factos posteriores efeitos que lhes são anteriores, ou seja, a infecção travou antes das medidas tomadas, embora os seus efeitos em número de casos e mortalidade só se tenham vindo a verificar mais tarde.
Houve quem tivesse feito o mesmo tipo de análise para a Alemanha, na verdade, a entidade oficial de tutela sobre o assunto, não foi um mané qualquer como eu, neste relatório (está em alemão, mas o google tradutor permite ficar com uma ideia).
Essencialmente, no que à histerese diz respeito, o que conta é este gráfico.

Neste gráfico está a taxa a que a infecção progride, no eixo vertical (em termos simples, quantas pessoas são infectadas de novo por cada infectado) e estão assinaladas três datas: 9 de Março, em que foram proibidas os ajuntamentos com mais de mil pessoas, 16 de Março, em que foram tomadas um conjunto de medidas de redução dos contactos sociais e 23 de Março em que foi decretado o lockdown, como agora se chama ao "fecha tudo e já".
O que Rui Tavares ensina, chamando a atenção para a histerese, é que as medidas tomadas a 16 e 23 de Março não podem ser responsáveis pela travagem da infecção que se verifica a partir de 10 de Março (na realidade, nem as medidas tomadas a 9 de Março, mas adiante).
Rui Tavares tem razão, não foi histeria, não, o que a histerese no diz é que foi uma coisa muito mais complicada e mais difícil de gerir, foi medo.
E, desse ponto de vista, as medidas tomadas a 16 e 23 fazem todo o sentido: são irrelevantes para gerir a epidemia (que provavelmente está a desenvolver-se comandada pelo vírus e não passando cartucho às medidas que nós tomámos), mas podem ter sido muito relevantes para gerir o medo social.
Foi disso que se tratou e é por isso que não me canso de elogiar Marke Rutte, por me parecer o único político de topo que me lembro de ter encarado o medo de frente, reconhecendo que ele existia mas que a melhor maneira de lidar com o medo era mesmo confiar na racionalidade das políticas baseadas na evidência científica.
A cedência ao medo vai sair-nos muito cara, e será tanto mais cara quanto mais tempo demorarmos a reconhecer que as medidas que estão em vigor são claramente excessivas, sem nenhum ganho relevante para a gestão da epidemia e dos serviços de saúde.
Qual foi a data em que- finalmente- fecharam as fronteiras?
ResponderEliminarÉ que a principal medida que devia ter sido feita mais cedo era essa. A partir daí o que se pode equacionar, em termos mais ou menos científicos é isto:
Não fechando, o crescimento era mesmo a pico e depois de infectar muitos e matar muitos mais, desceria.
Fechando, não há esse crescimento a pico exponensial, e isso é observável com o intervalo entre o nº de casos que duplica, mas há um prolongamento temporal (uma demora) na contaminação que se torna mais branda.
Sem falar sequer no problema hospitalar e no efeito para todos os outros tratamentos (que são tanto afectados com confinamento, como seriam ainda mais sem ele) coloca-se a questão que v.s ainda não formularam em português simples.
Esta: demorando a propagação do vírus- há ou não há atenuação do próprio efeito dele?
A v. (André Dias) resposta já a li- há atenuação natural do vírus porque o vírus tem muito mais gente já imune e contaminada sem se saber e fica com menos hospedeiro- a tal fé na fácil imunidade de grupo de milhões de habitantes, numa distribuição que nada tem a ver com a população do país mas sim dos focos de entrada por via de aeroportos internacionais.
A resposta mais antiga, com experiência de séculos diz que não é o vírus à solta sem travagem que mata depois menos, matando o que tem de matar.
É a travagem que o ser humano sempre soube fazer, para se defender, que contribui para ele se tornar mais fraco.
Os dois motivos até podem sobrepor-se. Sendo que um diria que o ser humano continua na pré-história e nem ganhar tempo para se defender é capaz e outro diria que tem hoje mais conhecimento para usar as medidas que os mais inteligentes, em todas as épocas sempre usaram, com bons resultados.
Isto de se achar que o mundo começa no dia em que nascemos é o tal problema da geração abrilista. A "melhor preparada de sempre" e que nem contas é capaz de fazer, quanto mais ter a alguma noção do passado.
Alguém mostre isto ao Rodrigo Guedes de Carvalho, Bento Rodrigues e outros poetas de karaoke evangelizadores do medo para que de uma vez por todas digam a verdade às pessoas em prime time!
ResponderEliminarPor favor HPdS:
ResponderEliminarApoiar-se nas conclusões de André Dias que tem formação científica e conhecimentos na matéria (veja-se a entrevista dele cuja referência deixei no seu post anterior) é muito diferente do que invocar Rui Tavares.
Não tenho procuração para defender Jorge Buescu, mas convém perceber que as conclusões de um modelo matemático são consequência dos pressupostos e só válidas no âmbito desses pressupostos, não se podendo aplicar a contextos que saem fora desse âmbito. Eu próprio ajustei curvas (exponenciais) aos dados de infectados que foram sendo publicados pela DGS. Até aos primeiros 10 dias de Março a previsão do número de infectados para 31 de Março era superior a 100 mil, se (aqui estão os pressuspostos) tudo se passasse como até então, em particular os cuidados que as pessoas passassem a tomar, o mais importante dos quais era a restrição nos contactos sociais.
Após a primeira quinzena de dias, a epidemia difundiu-se pelo país e a sua análise deve ser feita à luz dos modelos epidemiológicos. O mais simples é o modelo SIR (Susceptíveis, Infectados, Removidos).
Fiz uma simulação numérica com base no modelo SIR. Se a doença for muito contagiosa a curva de infectados tem uma forma semelhante à distribuição de Gauss, como afirmou o André Dias. Nesse caso, a epidemia extinguir-se-á rapidamente. O número máximo de infectados em cada dia não ultrapassará os 50% da população. Estou a falar do valor instantâneo de infectados e não do acumulado de infectados, que tende para a totalidade da população, nem do número de novos infectados.
Mas os infectados desenvolvem estados de saúde que podem necessitar de cuidados hospitalares. Se 10% dos infectados necessitarem de internamento, 1 milhão de infectados originará 100 mil internados. Foi isto que levou a China a construir rapidamente dois hospitais em Wuhan.
E é isso que leva os governos a decretar medidas de contenção. Para quê? Para evitar o colapso dos serviços de saúde.
O governo chinês isolou Wuhan para impedir que a epidemia se difundisse por toda a China.
Os valores apresentados pelo governo chinês não merecem muita confiança de modo que não podemos com base neles concluir qual a taxa de mortalidade da doença. Wuhan seria a esse respeito uma experiência notável, já que a quase totalidade da população deve ter sido infectada.
A partir [do pico da epidemia], a epidemia entrou em perda, isto é, a infecção deixou de se espalhar, passou a estar contida, primeiro, e a diminuir, depois.
ResponderEliminarEu não sei bem como é definido, pela Diração-Geral da Saúde, o pico da epidemia, portanto não sei se esta frase está certa.
Se o pico da epidemia fôr definido como a dia em que a taxa R desce abaixo de 1, então ela está certa.
Mas se o pico da epidemia fôr definido como o dia em que a taxa R é máxima, então ela está errada.
A epidemia deixa de se expandir somente no momento em que a taxa R desce abaixo de 1. E eu creio que, em Portugal, a taxa R ainda é superior a 1, que é como quem diz, a epidemia ainda está a expandir-se.
Já está a expandir-se muito mais lentamente que outrora, mas ainda se está a expandir.
lema do covid-19 no rectângulo
ResponderEliminar«Lares, doces lares»
para o desgoverno o importante era a pildra
somente deferiria um ponto, substituiria medo por pânico.
ResponderEliminaro primeiro, alerta-nos e deixa-nos conscientes, o segundo, faz com que fechamos a racionalidade na acção.
em meu entender, foi isso que foi instrumentalizado e servido de bandeja aos Portugueses e funcionou muito bem.
Caro Senhor
ResponderEliminarde dia 12/03 a dia 14/4 a taxa de novas infecções (média móvel de 5 dias para atenuar oscilações diárias atípicas, e discernir melhor a tendência) passou de 42,3% para 2,8% , em 44 observações, com apenas 4 inflexões ligeiras na tendência decrescente ( quase 20 para 1).
Posso dizer-lhe o que fiz:
ResponderEliminarComeçando em 14 de Março, fui ajustando diariamente uma exponencial aos cinco valores mais recentes de infectados. Parametrizei, como é hábito em evoluções temporais, essas exponenciais com o "tempo de duplicação", que como o nome indica é o tempo ao fim do qual a exponencial passa para o dobro do valor inicial.
Em 14 de Março o tempo de duplicação era de 1,8 dias e, a esse ritmo, a previsão para 31 de Março era 118 mil infectados.
O tempo de duplicação foi aumentando até 2,44 dias (em 24 de Março) prevendo-se 17 mil infectados para 31 de Março.
Em 31 de Março o valor foi 7443. O tempo de duplicação nesse dia foi 4,6 dias.
Isto mostra que a evolução durante Março não foi exponencial, mas que teve um ritmo de crescimento cada vez menor.
É possível que a evolução do número real de infectados tivesse sido exponencial em Março, mas o número oficial de infectados (os que testaram positivo) não foi.
Mais do que os valores da curva, o que mostra que algo aconteceu e que passou a influenciar o fenómeno é variação brusca do ritmo de crescimento (descontinuidade da derivada). Isso aconteceu, p. ex., no dia 28 de Março com o número acumulado de mortes, 9 dias após o início da quarentena e uns 15 dias após as pessoas começarem a tomar cuidados.
Camus falava na "inteligência burra" .
ResponderEliminarPremonição quanto ao tavares, sem dúvida...se bem que , para sermos justo em relação ao tavares, devamos acrescentar " e oportunista".
Chico-esperto, em português corrente...
JSP
isso é difícil de perceber para quem quer à força defender os seus argumentos
ResponderEliminarComeço como um sapo sabedor. Sendo o covid19 transmissível por contato. Restringindo drasticamente o número de deslocações o contato diminuirá naturalmente.
ResponderEliminarIsto funciona como um engarrafamento nas horas de ponta em tempo de escola em tempo de férias o contágio será diferente.