segunda-feira, 23 de março de 2020

Os ausentes

Luis Aguiar-Conraria, entre outros, tentar chamar os epidemiologistas ao debate público da gestão da Covid (e, já agora, de qualquer epidemia, em qualquer altura pode surgir outra, é da natureza das coisas).


Tem toda a razão, fazem muita falta no debate, como demonstra o bom artigo de hoje no Público, escrito por Manuel Carmo Gomes.


Só que é compreensível o relativo recato e prudência na intervenção pública por parte de quem tem a sua reputação profissional em jogo, numa matéria tão sensível.


Um ignorante como eu, mas com consciência da sua ignorância sobre o assunto, pode dizer os disparates que quiser que isso não altera muito o seu contexto social, mas isso não é verdade para quem vive do seu trabalho nestas matérias.


A forma como Jorge Torgal foi tratado pela imprensa, comentadores e pessoas comuns, quando disse o que pensava, e que hoje se pode demonstrar que, podendo não ser totalmente rigoroso, não era nenhum absurdo, a forma como o Conselho Nacional de Saúde Pública foi tratado na imprensa, pelos comentadores, pelo público e, por pressão pública, desqualificado pelo Governo, a forma como qualquer sugestão, por mínima que fosse, de que ser prudente na abordagem da gestão da epidemia nunca poderia esquecer os mais expostos, mas também o dia seguinte para os outros, foi desqualificada no espaço público, é natural que tenha empurrado quem sabe do assunto para uma posição recuada.


E a forma como todas estas pessoas que toda a vida trabalharam no assunto foram reduzidas a pó pela forma irresponsável como a imprensa deu eco às trombetas do medo sopradas a partir de cenários catastrofistas feitos por matemáticos, como Jorge Buescu, com escasso conhecimento dos processos que estavam a modelar, também não contribui para que alguém se queira expôr e correr o risco de ser cilindrado por esta imprensa prenhe de drama e emoção.


Talvez nos sirva de lição para ver se na próxima epidemia ouvimos mais quem sabe, e ouvimos menos quem diz que sabe.

5 comentários:

  1. Boa noite Henrique Pereira dos Santos.
    Leio sempre com atenção o que escreve tal como com atenção escuto o que diz publicamente e, normalmente, estou muitas vezes de acordo com grande parte das coisas que refere e defende.
    Isto dito, e respeitando como sempre as opiniões de outrem concordando ou não com elas, veremos quão catastrofistas são as projeções de Jorge Buescu.
    A missa ainda nem começou, quando mais sair a procissão da igreja.
    Quanto aos silêncios que refere tenho muitas dúvidas que se devam apenas ao que argumenta embora faça sentido. Creio que o que a ordem dos médicos hoje reclamou quanto a dados é elucidativo do que pode estar a acontecer.
    Aguardemos.
    António Cabral

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  2. cenários catastrofistas feitos por matemáticos, como Jorge Buescu, com escasso conhecimento dos processos que estavam a modelar

    Não creio que Jorge Buescu tenha escasso conhecimento do assunto.

    Aquilo que Jorge Buescu disse, que uma epidemia ao princípio cresce de forma exponencial, faz todo o sentido, e não é preciso ser-se matemático para se ver que só pode ser verdade.

    Ademais, aquilo que Jorge Buescu disse não contradiz o que o Henrique P.S. diz. Henrique P.S. defende uma abordagem mais moderada ao vírus, possibilitando que ele infete pessoas de idades moderadas e protegendo somente os idosos. Isso em nada infirma que o vírus vá sempre ter um crescimento exponencial, no início.

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  3. Jorge Buescu foi muito mais longe que isso: projectou a exponencial uma data de tempo, com velocidades de crescimento absurdas, chegou a conclusões absurdas que só podiam estar erradas e, com base nisso, com o argumento de que era a matemática que dizia, e não ele, andou a assustar meio mundo e a fazer campanha para fechar o país à chave sob pena de uma catástrofe como nunca se tinha visto na vida.
    Só não digo que devia estar preso porque acho que o direito à asneira é sagrado.

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  4. Henrique Pereira dos Santos,
    como é seu timbre, sabe, sente, vive a asneira. A conclusão acerca de Jorge Buescu é límpida, além de bem humorada.
    Que o Senhor o proteja. Querendo eu que a protecção seja a da sua cabecinha.
    Abraço,
    ao

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  5. Eu trabalho em reprocessamento de dispositivos médicos, que é uma disciplina da prevenção e controlo de infecção hospitalar, que por sua vez pertence à vastíssima ciência da epidemiologia. E como tal afirmo que o Jorge Buescu sabe mesmo muito pouco do que está a falar. Epidemiologia não é apenas fazer modelos matemáticos, é compreender de onde eles vêm, e este assunto envolve todo um conhecimento vastíssimo que o Jorge Buescu nem imagina que existe. Existem livros inteiros dedicados aos modelos epidemiológicos, tal é a complexidade do assunto. E para os compreender, tem de se começar um longo estudo que começa na microbiologia e depois se ramifica. O Jorge Buescu pressupôs que a sua experiência em «divulgação científica» (uma coisa que ninguém no seu perfeito juízo equipara a ciência) seria suficiente para legitimar a sua opinião num assunto que lhe é estranho. Além disso é um académico, o que complica enormemente a sua capacidade de se ligar à realidade, que é o campo onde os epidemiologistas trabalham. Azar do caraças.

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