sábado, 1 de fevereiro de 2020

Tribalistas

Hoje, estava eu preparado para fazer um post sobre esta notícia (atenção, é de 2007, não vá alguém não reparar), salientando o facto de já em 2007 Francisco Ferreira (mas poderia dizer, de forma mais geral, o movimento ambientalista, não só por ser verdade, mas também porque o Francisco pode ser considerado, com toda a legitimidade, o ambientalista do regime) dizia, sobre o mesmo aeroporto de Lisboa, o mesmo que diz hoje: que é preciso avaliar mais estrategicamente.


A principal diferença é que agora as alternativas que é preciso avaliar já não são apenas as diferentes localizações para o aeroporto, mas também as alternativas de mobilidade, como o comboio, até porque a contestação anterior dizia que era preciso avaliar o Portela + um (principal candidato ao mais um: Montijo), e agora para contestar o Montijo era difícil manter o argumento.


Amanhã, se as hipóteses do comboio estiverem incluídas no processo de decisão, vai-se pedir que se avaliem também as hipóteses de ir de barco ou de trotinete e avaliar se se recorre aos tribunais.


Estava eu a preparar-me para me divertir com tudo isto - e ainda com o facto de raramente uma associação ambientalista mudar de opinião por causa das avaliações de impacte ambiental, se a avaliação confirmar a opinião é porque é boa, se não confirmar, não se muda de opinião, contesta-se a competência e lisura de processos da avaliação - quando resolvo fazer um inocente post a perguntar se alguém sabia alguma coisa da discussão pública deste plano ontem apresentado por Fernando Medina para a Baixa de Lisboa.


O pequeno comentário que fiz resulta do plano ter sido apresentado como um facto consumado, ou seja, como uma decisão tomada, para entrar em vigor em Agosto, sem qualquer destaque ao facto de ainda haver um processo de discussão pública em Março, indiciando aquilo que é a prática geral do Estado, central ou autárquico, na maioria dos casos: as discussões públicas de planos são minudências administrativas que é preciso cumprir, nada mais.


Tanto bastou para que amigos meus, com os quais, aliás, estou basicamente de acordo sobre a necessidade de condicionar o acesso automóvel ao interior de Lisboa, se zangarem comigo, achando que eu estava só com vontade de dizer mal de Medina.


Confesso que estranhei, achei que a ideia de que a participação pública num plano se faz desde a sua origem, desde que se admite a necessidade do plano, era consensual, pelo menos entre as pessoas que têm uma visão de sustentabilidade democrática do planeamento. Achei que quase toda a gente reconheceria que essa é a forma das pessoas compreenderem as decisões tomadas, concordem ou não.


Tenho de me render à evidência de que o tribalismo está a chegar muito mais longe do que imaginei e de que conceitos básicos sobre as características dos processos democráticos são, afinal, contestados.


Aparentemente, é cada vez mais importante definir o lado em que se está, o grupo a que se pertence, e menos importante olhar simplesmente para os factos e os argumentos.


E isso é inquietante.

5 comentários:

  1. Em nome do ambiente as cidades como Lisboa, vão implementando um novo sistema de apartheid  económico e social. Os ricos que podem comprar carrinhos elétricos como antes podiam comprar os últimos modelos, serão os donos e senhores das grandes cidades. Os pobres que andem a pé ou de transporte público, que na cidade é que não entram com os seus carros poluidores, mesmo que paguem os eus impostos. A igualdade constitucional é só para inglês ver. Na pratica os políticos iluminados como o sr Medina é que decidem o que é bom para o tuga. Que bom ser moderno.

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  2. Medina entra na actual moda da imposição sem contraditório, do actual marxismo cultural proclamado pelos arautos da esquerda ,que se acha bem pensante e que impõe as regras da sociedade actual.

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  3. Se isto acontecesse numa cidade dia Suíça, estavam já os cidadãos a assinar um pedido de referendo sobre esse plano. E tudo seria escrutinado antes da votação. Entendem agora porque os políticos falam todos da democracia directa como do diabo? É por isso que o PIB per capita na Suíça é de 80 mil dólares e em Portugal é de 21 mil dólares.

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  4. O mais tétrico é o discurso de esquerda que legitima este saque do espaço público. Perceberia isto nos ditos neo-liberais, que acham lindamente que Lisboa, do Marquês até ao Tejo, seja transformada numa coutada de turistas, porque é a economia a trabalhar, agora os que se arrogam em defensores dos pobrezinhos... É, de facto, necessária uma mistura de falta de vergonha (destes dirigentes e de quem domina a narrativa nos média) e de fanatismo cretino (de quem os apoia), para fazer passar estas medidas como "progressistas", enquanto se multiplicam os aviões e navios de cruzeiro, hiper-poluentes, e os autocarros de turismo, os TVDE, e até os tuk-tuks já tornam a circulação automóvel quase impossível.

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  5. o fernando, o nando, o nandinho bem pode ir para a sua querida mãe.
    ao

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Quantos são? Quantos são?

Tenho cada vez menos paciência para o jornalismo (onde incluo o comentário, até porque está cada vez mais difícil separar notícia de opinião...