Tenho um amigo que vivendo e trabalhando no meio dos livros, chegado à maturidade (um prodígio que infelizmente não acontece a todos e aos outros surge quase sempre tarde de mais), às tantas confrontado com uma incomensurável lista de obras-primas ainda por ler, decidiu numa sábia atitude de economia de recursos, só se dedicar àquelas que tivessem resistido mais de cem anos no escaparate da erudição humana. É também por amor à verdade que o estudo da História, ciência que tem como objecto o homem no tempo (e não a propaganda política) obriga o historiador a um considerável distanciamento temporal face ao acontecimento em análise.
Não sendo historiador nem tendo a ambição do meu amigo, mesmo assim também eu venho tentando escapar à gigantesca vaga de panegíricos dedicados à sublimação de Nelson Mandela em intermináveis suplementos de jornal, com beatíficos editoriais, encomiásticos artigos, rubricas e programas. Toda esta ensurdecedora campanha ecoa em tudo o que é jornais, revistas, televisões e redes sociais, surge num tão ingénuo quanto inquietante unanimismo, que no mínimo deveria remeter qualquer mente emancipada para uma atitude de profunda desconfiança. Mas não. Não haverá muitas por estes dias, facto que reforça a pertinência da citação de Chesterton por Henrique Raposo “quando não acredita em Deus, o homem tende a acreditar em tudo”.
Depois, no que respeita ao racismo, uma enfermidade social que me incomoda de sobremaneira, deixem-me que partilhe aqui uma impressão minha muito pouco científica, a de que no Ocidente do século XX, para as mentes mais tacanhas, o mais decisivo papel na desconstrução do anátema contra os negros, terá sido afinal o do Jazz, no Rock n' Roll e Hollywood. O capitalismo, portanto. Devagar, demasiado devagarinho, bem sei.
João Távora, é precisamente por ter sido "demasiado devagarinho", que o capitalismo não foi o mais decisivo. O mais decisivo foi a luta de homens como o Luther King, o Mandela e tantos outros activistas. O que tem o rock'n´roll e hollywood a ver com o fim do apartheid na África do Sul, ou com o fim da segregação social nos Estados Unidos? Só para falar dos Estados Unidos, fora o resto do mundo, o primeiro presidente negro nos Estados Unidos nasceu mais de cem anos depois do nascimento do jazz e mais de 50 depois do rock´n´roll. E acha o João Távora que é por se vender jazz e rock e ver-se filmes que vai ser eleito um presidente negro em Portugal?
ResponderEliminarSem dúvida.
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ResponderEliminar...e o desporto.
caro João
ResponderEliminarAcertivo. O Jazz e o Rock'n'roll não elegeram "negros" mas a par com o desporto e o cinema fizeram torcer o anátema sobre a cor da pele enquanto diferenciação ante os "brancos". Também, essa mania de que a ocupação da presidência, de uma qualquer República, por um sujeito de cor, serve para qualificar o estado da "democracia", "liberdade" ou "felicidade", não faz qualquer sentido!
abraço,
Forte abraço, João!
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