segunda-feira, 1 de novembro de 2010

O fim da era Sócrates


A era Sócrates acabou neste fim-de-semana. Com um processo de negociações do Orçamento que lhe correu muito mal e duas sondagens esmagadoras, sem margens de erro que lhe valham, terá agora que liderar a contragosto um Governo que se vai arrastar durante seis meses a tentar executar um Orçamento de miséria, com uma derrota nas presidenciais pelo meio, até às eleições antecipadas que darão uma vitória certa ao PSD, caso o PS torne a apresentá-lo como candidato a primeiro-ministro. O que, porém, parece que não é certo.
Apesar de eu não ter simpatia pela actual direcção do PSD, tenho de reconhecer que jogou bem nas negociações do Orçamento. Mas tenho a impressão de que a intervenção de Cavaco Silva foi essencial para o triunfo de Passos Coelho (logo ele, tão enfático em querer ultrapassar o “cavaquismo” no seu partido…), não só pela sugestão de Eduardo Catroga, mas sobretudo porque quando Sócrates, na terça-feira, deu ordens a Teixeira dos Santos para provocar a ruptura nas negociações com o PSD, o presidente deverá ter feito saber a Sócrates que não aceitaria a sua demissão. Ou seja, trocou as voltas ao primeiro-ministro que, como me parece evidente, se preparava para seguir o exemplo do seu mentor António Guterres: depois de deixar o país de pantanas, ir embora e culpar o futuro governo do PSD pela crise económica criada pelos socialistas.
Entretanto, graças ao nosso sábio sistema republicano, vamos ter que agonizar mais de meio ano até termos de novo um Governo a sério, num momento em que vivemos a maior crise pós-25 de Abril. Sabem porquê, sabem porque é que o presidente não pode dissolver o Parlamento nos seis meses anteriores às eleições presidenciais? Porque o nosso sistema semi-presidencial “funciona” tão bem que desconfia que o mais alto magistrado da Nação pode usar isso como trunfo para a sua reeleição ou para favorecer um candidato que apoie… Com destaque para Jorge Sampaio, que só depois de dois mandatos presidenciais e de ter sido secretário-geral do PS “descobriu” que este prazo constitucional não serve, há agora uma série de pessoas a clamar contra a estupidez desta disposição. Como se agora adiantasse alguma coisa.
Vamos portanto aguentar impotentes a ver o país a cair durante o Inverno e a Primavera, mas sempre nos podemos ir divertindo com as mudanças de opinião de comentadores, empresários, banqueiros, jornalistas e por aí fora, que até há menos de um ano não hesitavam em considerar José Sócrates como “o melhor primeiro-ministro” para esta época de crise e que agora lhe vão virar as costas e culpá-lo por tudo e mais alguma coisa. As suas qualidades passarão a ser defeitos, as “reformas” passarão a ser causas da crise, o que era branco passará a ser preto. Um espectáculo repugnante já visto com o Cavaco primeiro-ministro e com Guterres, que mostra bem que também esses “opinadores” e “influentes” são culpados pela desgraça de país em que vivemos.

5 comentários:

  1. E depois, quando ele caír, acha que o nome dele é retirado da montra de Rodeo Drive? É que figura ali como prime-minister of Portugal.

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  2. destaco a extrema lucidez patente no último paragrafo!
    Abraço

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  3. Parece-me, precisamente, que o ganho de Passos Coelho foi ter conseguido mostrar que apenas "melhorou" o Orçamento e o aliviou de algumas das medidas mais penalizadoras (fim das deduções, subida de IVA para bens alimentares, etc), continuando a dizer que é mau e a responsabilizar o PS pelo descalabro. Mas a verdade é que só o tempo dirá se os eleitores o vão co-responsabilizar pela sua execução.

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  4. A euforia não é boa conselheira, ´que tal mais moderação nas expectativas.

     

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