Uma crónica brilhante de João Carlos Espada, na edição de fim-de-semana jornal I:
(...) Dizem-nos que a única posição compatível com a liberdade é a que defende o casamento enquanto contrato voluntário entre [por enquanto] duas pessoas, sejam elas do mesmo sexo sejam de sexos diferentes. Por isso é acrescentado que quem quer que discorde deste ponto de vista defende um ponto de vista opressor, uma vez que recusa direitos iguais à posição divergente, a que defende casamentos entre pessoas do mesmo sexo.
Há aqui uma curiosa dissonância cognitiva. O que temos pela frente é uma discordância entre duas opiniões particulares, igualmente legítimas no plano político. Não há uma opinião opressora e uma opinião livre. A opinião de que os casamentos devem envolver pessoas do mesmo sexo é um ponto de vista tão particular e tão criticável como a opinião de que os casamentos devem apenas abranger pessoas de sexo diferente. Isto significa que, se impusermos na lei que os casamentos devem abranger pessoas do mesmo sexo, estamos a impor uma opinião particular sobre as pessoas que defendem uma opinião particular diferente, a de que o casamento deve ser para pessoas de sexo diferente.
Por outras palavras, nenhuma das propostas em presença é neutra e o Estado não pode reclamar-se de qualquer delas em nome da neutralidade relativamente a concepções particulares do bem. Perante este dilema, uma sociedade livre tem uma solução relativamente simples, embora ela possa não satisfazer os fundamentalistas de ambos os lados: manter o casamento para pessoas de sexo diferente e criar uma instituição jurídica diferente para as uniões do mesmo sexo. Estas últimas podem também ser abertas a casais de sexo diferente que considerem a sua união equivalente às uniões entre casais do mesmo sexo.
Esta foi a solução pacificamente adoptada na "livre Inglaterra", com a criação das "civil partnerships". É a solução liberal por excelência, que corresponde ao princípio "live and let live", viver e deixar viver. Não requer um acordo, nem sequer uma votação por maioria. Deixa espaço para a convivência pacífica entre as duas opiniões, sem que uma tenha de se impor à outra. (...) Ler tudo
Também me parece que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.
ResponderEliminarNão chamamos gato a um cão nem cão a um gato por algum motivo.
As opiniões deste eminente personagem, Sir John Charles Sword, merecem-me - confesso - muito pouca consideração. Na presente ele, criativo como sempre, limita-se aplagiar a "solução" proposta aquando do casamento dos escravos negros.
ResponderEliminarGanda espadeirada, ó Prof!
Caro Apoiado,
ResponderEliminarInteressante. Foram precisamente essas as palavras que a mulher do meu patrao, ela e ele americanos, proferiu diante de um estupefacto e incrédulo casal luso-grego, há uns 30 anos atrás, na RFA (República Federal da Alemanha), a propósito de... um casal interracial.
Cada tiro caa melro!
Discordo do João Carlos Espada, porque o que está em causa não é uma opinião. Não é apenas opinião que pretos e brancos, homens e mulheres, cristãos e muçulmanos sejam iguais: é uma questão de mundividência e ideologia. Admito que haja dissonância cognitiva, o que quer que isto queira dizer (é bonito, mas não quer dizer nada); mas essa diferença deve-se antes de mais a uma concepção antropológica diferente. E essa só é matéria de opinião se for também matéria de opinião a igualdade entre homem e mulher ou entre branco e preto. Eu percebo o João Carlos Espada e ele sabe que eu o percebo: ele quer transformar a discussão em matéria de mera opinião; não o é - porque as ideias e as ideologias são muito mas muito mais do que opiniões.
ResponderEliminarÉ o que eu digo. Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Pelos vistos, muito difícil de perceber para certas mentes. Que não entendem que uma mulher é uma mulher, seja de que etnia fôr, o mesmo acontecendo a um homem.
ResponderEliminarUm leasing é um contrato e um renting é um contrato. Um arrendamento é um contrato e um empréstimo é um contrato.
ResponderEliminarPor que raio terão nomes diferentes?
Devia tudo ter o mesmo nome.
«Permitir o casamento entre pessoas de raças diferentes significaria necessariamente a degradação do casamento convencional, uma instituição que merece admiração em vez de execração» (onde é q eu já ouvi isto??)
ResponderEliminar«Deus todo-poderoso criou as raças branca, negra, amarela, malaia e vermelha e colocou-as em continentes diferentes. E se não tivéssemos interferido com esta disposição nem sequer estaríamos agora a falar de casamento entre pessoas de raças diferentes.
«O facto de ter separado as raças demonstra bem que Deus não queria que as raças se misturassem».
(Sentença do juiz norte-americano, um "Espada" lá do sítio, que em 1967 condenou Mildred e Richard Loving pelo «crime de casamento inter-racial»)
JCE dixit: "A opinião de que os casamentos devem envolver pessoas do mesmo sexo é um ponto de vista tão particular e tão criticável como a opinião de que os casamentos devem apenas abranger pessoas de sexo diferente. Isto significa que, se impusermos na lei que os casamentos devem abranger pessoas do mesmo sexo, estamos a impor uma opinião particular sobre as pessoas que defendem uma opinião particular diferente, a de que o casamento deve ser para pessoas de sexo diferente."
ResponderEliminarSegundo as palavras do próprio JCE, o contrário também devia ser verdadeiro, ou não? Segundo os seus pressupostos, porque é que num caso se impõe uma opinião particular sobre outra e no outro não? Aliás, a democracia não é, frequentemente, isso mesmo? Impor uma opinião particular sobre outra(s), respeitando os princípios essenciais que balizam a decisão democrática?
Já agora, se JCE pretende que a sua posição corresponde à verdadeira posição "liberal", porque é que o The Economist defende, em nome do liberalismo, a posição contrária? Será JCE mais "liberal do que o Economist?" Ou mais papista do que o Papa?
Caro HY,
ResponderEliminar"Será JCE mais "liberal do que o Economist?" Ou mais papista do que o Papa?" - é o q eu chamo de pergunta retórica :)
Cumps
A verdadeira igualdade não consiste em tratar a todos da mesma maneira, mas sim em tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais.
ResponderEliminarE quem é que anda a falar de raças e o que raio tem isto que ver com raças?
ResponderEliminarCaro Arre!,
ResponderEliminarDesculpe mas não tenho agora muito tempo para lhe fazer um desenho.
Cumps
Pois sendo tudo apenas uma questao de opinioes contrárias, parece-me que ao impor que o casamento civil seja limitado a pessoas de sexo diferente..."estamos a impor uma opinião particular sobre as pessoas que defendem uma opinião particular diferente, a de que o casamento deve ser [também] para pessoas de sexo [igual]."
ResponderEliminarO princípio da igualdade traduz-se na obrigação da Administração tratar igualmente as situações iguais e desigualmente as situações desiguais.
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