Mostrar mensagens com a etiqueta carnaval. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta carnaval. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 4 de março de 2014

Ninguém leva a mal (2)


Para além de ter os miúdos de férias em casa, um pequeno giro matinal deu-me para constatar que os correios, a junta de freguesia e a farmácia estão fechados. De Cavaco nos anos oitenta à actualidade de Passos Coelho e da Troika comprova-se que o Carnaval para os portugueses é uma fatalidade. As coisas são como são: foliemos, portanto.

sábado, 1 de março de 2014

Outros carnavais (editado)

Nunca aderi espontaneamente à festa do Carnaval. A chegada das serpentinas, máscaras e bombinhas às montras das tabacarias despertava-me algum interesse, mas esse não superava um leve sentimento de melancolia provocado pelas recém-finalizadas festas natalícias e pelo reinício da implacável disciplina escolar.
As minhas mais remotas recordações do Carnaval referem-se à casa da Avenida, onde a minha bisavó Valentina imprimia ao evento uma marca particular, fruto sua vivência no Brasil. Por exemplo, lembro-me de um grande boneco que nos aguardava, medonho, à entrada da sala de jantar. Era feito de roupas e enchimento em cima de um cabide de fato e usava o chapéu do meu avô João. Os croquetes feitos com algodão e outras partidas célebres desses Carnavais da Avenida não alcança a minha memória.
O que me desagradava profundamente era que me mascarassem. Mesmo de Cowboy, figura por mim mitificada todo o ano. Detestava que me pintassem com bigodes e patilhas de cortiça chamuscada, ou me espetassem com um chapéu de plástico que me caía continuamente da cabeça a baixo. Além disso ficava com uma intimidante “noção de mim”, que liquidava qualquer espontaneidade e assim o divertimento. O que eu gostava mesmo era dos lustrosos revólveres prateados e umas cargas de fulminantes para correr aos tiros atrás dos meus primos. No recreio da escola, a figura de Cowboy ainda valia o esforço de pôr a bata xadrez entalada para dentro das calças de ganga. Era o que bastava para me sentir um autêntico Cartwright. Mas isto nada tem que ver com o tema desta crónica. Divertidas eram as semanas precedentes à festividade, em que eu e os meus colegas da escola experimentávamos as mais endiabradas aventuras com bisnagas, bombas e “estalinhos”. Com cinco tostões comprávamos cinco estalinhos ou… uma bomba verdadeiramente assustadora. Com cinco escudos adquiríamos um verdadeiro arsenal. À saída da escola, munidos de uma carteira de fósforos, corríamos o bairro, de caminho para casa a rebentar bombas nos sítios mais insólitos: nada como uma boa explosão dentro de uma funda sarjeta, ou na escadaria de pedra de um prédio. Até os vidros tremiam, enquanto já a milhas corríamos em fuga. Ainda pelas ruas de Campo d’ Ourique armados com coloridas pistolas espaciais, esgueirávamo-nos à volta dos carros estacionados disparando potentes esguichos de água uns aos outros. Até esbarrarmos com uns quaisquer índios do Casal Ventoso que, violentos, com uns gritos e uns socos se apoderavam das nossas preciosas armas. Era a lei da rua, a lei do mais forte.

No entrudo era a festa de anos do meu primo Manuel. Festas inesquecíveis, com muita criançada, em que acabávamos a tarde exaustos, enrolados em quilómetros de serpentinas, às escuras, a ver projectados desenhos animados Silly Symphonies de Walt Disney ou umas curtas-metragens do Charlot em Super 8.
Na entrada da adolescência, no Liceu Pedro Nunes, por altura do PREC, quando qualquer divergência se resolvia democraticamente à pedrada, as partidas carnavalescas atingiam requintes de malvadez. Por pudor escuso-me a relatar algumas arbitrariedades por mim testemunhadas. Mas era comum detonar uma dessas poderosas bombas no WC dos rapazes, a que chamávamos “metromijas”, instalações subterrâneas que como uma paragem de metropolitano estavam situadas no meio do pátio. Depois era esperar, após o estrondo, que as vítimas assomassem ao cimo das escadas, esquálidas e despenteadas…
Chegados ao Carnaval, os excessos e a brincadeira estavam feitos e gastos. Por esses dias, sempre me pareciam patéticas as figuras daqueles miúdos passeando-se mascarados com os seus babosos pais, com quem me cruzava a andar de bicicleta no Jardim da Estrela. Que tristonhas “espanholas” e “noivas do Minho”, que expressões infelizes exibiam aqueles inúmeros “Zorros” e “campinos”, de bochechas maquilhadas e olhos esborratados. Com uma matinée no cinema Europa, umas voltas de bicicleta e muita televisão se passavam as minhas férias. No final de contas, que bem me sabiam aqueles cinco dias sem ir à escola!


Adaptação da versão publicada aqui

Ninguém leva a mal

O Carnaval e o Clima Ameno neste jardim à beira mar plantado: dois mitos que, um apesar do outro, suplantam teimosamente a realidade dos factos.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

A ironia climática

 


Este glorioso tempo, luminoso e soalheiro com acentuado aroma primaveril, se não se tratasse duma calamidade climática, seria uma grosseira provocação a Passos Coelho, um descarado convite para férias ou feiras, uma atípica promessa de êxito aos Corsos que por tantos anos resistiram entre aguaceiros e saraivada de granizo. Concluindo, a meteorologia por estes dias é uma cínica gargalhada arremessada à nossa trágica realidade. Sambemos então até às Cinzas!

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Tempo para patriotas, não para cabeçudos


 


Muitos portugueses ainda não terão entendido bem a gravidade da situação nacional, e o perigo de bancarrota que nos espreita, menos ainda as consequências de tal acontecimento. Seja qual for o desenlace, o certo é que vivemos uma mudança de paradigma, uma esquina da História, daquelas que inevitavelmente marcarão por muitos anos os manuais escolares do ensino obrigatório.
Agora, virem  os líricos que nos conduziram a esta desgraça liderados pelo herdeiro Seguro, reclamar contra o corte da "tolerância de ponte" do Carnaval, uma festa confrangedora, uma exibição patética de pobreza que algumas autarquias teimam em queimar euros que não possuem, parece-me trágico no mínimo. O mesmo juízo aplico aos que julgam a “medida certa no tempo errado”: num país em vias de extinção, dependentes por um fio de cabelo dos credores estrangeiros que vão mantendo dinheiro a circular nas nossas caixas de multibanco, numa república sem economia, sem qualquer autonomia energética, sem indústria, agricultura ou pescas, dependente dos outros nos bens mais básicos, que penhora o feriado da independência perante a indiferença geral, estas vozes parecem-me profundamente desafinadas com a realidade. Oh gente, que se lixe o Carnaval, deixemo-nos de cabeçudos, mãos à obra e restauremos Portugal!


 


P.S.: Hoje o Carnaval, com os seus traços de frivolidade, folgança e luxúria impera em todo o calendário de festividades: a mais radical diversão e toda a espécie de devaneios, fantasias e alienações, encontram-se disponíveis no mercado, todos os dias a todas as horas, para todas as bolsas. Isso explica o patético espectáculo em que caíram estas descontextuadas e incaracterísticas festas, alimentadas e mantidas em desespero por algumas teimosas autarquias. Um confrangedora exibição de pobreza. Ler mais»»»

terça-feira, 8 de março de 2011

Carnaval é quando um homem quiser... menos no Carnaval


Tempos houve em que o Carnaval desfilava na Av. Da Liberdade e no imaginário da comunidade urbana que vivia sob grande influência do Calendário Litúrgico. Então, este era um período de folia e de excessos que precedia a sobriedade e o recolhimento da Quaresma que transpunha as portas das igrejas para o quotidiano das pessoas comuns, como ciclos que seguiam o ritmo da natureza, no temor da morte e celebração da vida. Hoje, o Carnaval é quando um homem quiser.


 



 


Hoje o Entrudo, com os seus traços de frivolidade, folgança e luxúria imperam em todo o calendário de festividades: a mais radical diversão e toda a espécie de devaneios, fantasias e alienações, encontram-se disponíveis no mercado, todos os dias a todas as horas, para todas as bolsas. Isso explica o patético espectáculo em que caíram estas descontextuadas e incaracterísticas festas, alimentadas e mantidas em desespero por algumas teimosas autarquias. Um confrangedora exibição de pobreza.


 



 


Fotos: Av. da Liberdade 1906 - Desfile de Carnaval

sábado, 17 de fevereiro de 2007

Outros Carnavais

Nunca aderi espontaneamente à festa do Carnaval. A chegada das serpentinas, máscaras e bombinhas às montras das tabacarias despertava-me algum interesse, mas esse não superava um leve sentimento de melancolia provocado pelas recém-finalizadas festas natalícias e pelo reinício da implacável disciplina escolar.
As minhas mais remotas recordações do Carnaval referem-se à casa da Avenida, onde a minha bisavó Valentina imprimia ao evento uma marca particular, fruto sua vivência no Brasil. Por exemplo, lembro-me de um grande boneco que nos aguardava, medonho, à entrada da sala de jantar. Era feito de roupas e enchimento em cima de um cabide de fato e usava o chapéu do meu avô João. Os croquetes feitos com algodão e outras partidas célebres desses Carnavais da Avenida não alcança a minha memória.
O que me desagradava profundamente era que me mascarassem. Mesmo de Cowboy, figura por mim mitificada todo o ano. Detestava que me pintassem com bigodes e patilhas de cortiça chamuscada, ou me espetassem com um chapéu de plástico que me caía continuamente da cabeça a baixo. Além disso ficava com uma intimidante “noção de mim”, que liquidava qualquer espontaneidade e assim o divertimento. O que eu gostava mesmo era dos lustrosos revólveres prateados e umas cargas de fulminantes para correr aos tiros atrás dos meus primos. No recreio da escola, a figura de Cowboy ainda valia o esforço de pôr a bata xadrez entalada para dentro das calças de ganga. Era o que bastava para me sentir um autêntico Cartwright. Mas isto nada tem que ver com o tema desta crónica. Divertidas eram as semanas precedentes à festividade, em que eu e os meus colegas da escola experimentávamos as mais endiabradas aventuras com bisnagas, bombas e “estalinhos”. Com cinco tostões comprávamos cinco estalinhos ou… uma bomba verdadeiramente assustadora. Com cinco escudos adquiríamos um verdadeiro arsenal. À saída da escola, munidos de uma carteira de fósforos, corríamos o bairro, de caminho para casa a rebentar bombas nos sítios mais insólitos: nada como uma boa explosão dentro de uma funda sarjeta, ou na escadaria de pedra de um prédio. Até os vidros tremiam, enquanto já a milhas corríamos em fuga. Ainda pelas ruas de Campo d’ Ourique armados com coloridas pistolas espaciais, esgueirávamo-nos à volta dos carros estacionados disparando potentes esguichos de água uns aos outros. Até esbarrarmos com uns quaisquer índios do Casal Ventoso que, violentos, com uns gritos e uns socos se apoderavam das nossas preciosas armas. Era a lei da rua, a lei do mais forte.

No entrudo era a festa de anos do meu primo Manuel. Festas inesquecíveis, com muita criançada, em que acabávamos a tarde exaustos, enrolados em quilómetros de serpentinas, às escuras, a ver projectados desenhos animados Silly Symphonies de Walt Disney ou umas curtas-metragens do Charlot em Super 8.
Na entrada da adolescência, no Liceu Pedro Nunes, por altura do PREC, quando qualquer divergência se resolvia democraticamente à pedrada, as partidas carnavalescas atingiam requintes de malvadez. Por pudor escuso-me a relatar algumas arbitrariedades por mim testemunhadas. Mas era comum detonar uma dessas poderosas bombas no WC dos rapazes, a que chamávamos “metromijas”, instalações subterrâneas que como uma paragem de metropolitano estavam situadas no meio do pátio. Depois era esperar, após o estrondo, que as vítimas assomassem ao cimo das escadas, esquálidas e despenteadas…
Chegados ao Carnaval, os excessos e a brincadeira estavam feitos e gastos. Por esses dias, sempre me pareciam patéticas as figuras daqueles miúdos passeando-se mascarados com os seus babosos pais, com quem me cruzava a andar de bicicleta no Jardim da Estrela. Que tristonhas “espanholas” e “noivas do Minho”, que expressões infelizes exibiam aqueles inúmeros “Zorros” e “campinos”, de bochechas maquilhadas e olhos esborratados. Com uma matinée no cinema Europa, umas voltas de bicicleta e muita televisão se passavam as minhas férias. No final de contas, que bem me sabiam aqueles cinco dias sem ir à escola!


Adaptação da versão publicada aqui

A ignorância é tão atrevida...

É absolutamente espantoso André Ventura ter usado ontem, no debate da sua Moção de Censura, como “bom exemplo” a Revolução Puritana de Olive...