sábado, 5 de setembro de 2026

Susana Peralta não desilude

Susana Peralta tem escrito e falado do relatório sobre pensões, tendo escrito ontem uma página inteira no Público com a sua opinião sobre o assunto.

Quem lê ou ouve Susana Peralta pode sempre esperar uma consistência muito sólida: diz sempre mal dos seus adversários políticos, tem sempre alguns estudos para sustentar os seus preconceitos e, quando os factos não chegam para malhar na direita, tira da cartola interpretações criativas.

Exactamente o caso.

Eu diria que três quartos da crónica são a defender a sua reputação académica, isto é, a dizer que enfim, o relatório sobre as pensões até é, no essencial, muito semelhante ao livro verde em que Susana Peralta participou, ou seja, o relatório está certo e "eles" (não sabemos quem) é que estragaram tudo sendo alarmistas (que os alarmistas sejam os amigos de Susana Peralta é-lhe indiferente, como de costume).

Depois vem o que realmente lhe interessa: atacar a ministra, através de uma pulhice com punhos de renda, que consiste em atacar as ligações profissionais de Jorge Bravo (naturalmente, não explica em que é que o curriculum de Jorge Bravo o desconsidera para o trabalho feito, que ela própria reconhece ter dificuldade em atacar).

Ainda fala de divergências ideológicas relevantes, como a preferência de Susana Peralta por sustentar o nível de pensões com mais impostos, ao contrário de Jorge Bravo que prefere um sistema que tem uma base racional e economicamente sustentável, ao mesmo tempo que incentiva a poupança (nunca perceberei a aversão de alguns economistas à poupança e responsabilidade pessoal no planeamento do seu futuro económico).

O ataque anuncia-se e depois segue pelo mundo das teorias de conspiração, como técnica para defender mais impostos em detrimento de reforço da poupança complementar de cada um.

"A responsável por esta oportunidade perdida tem um nome: Rosário Palma Ramalho.

Ao designar o coordenador da equipa, a ministra sabia que o debate alarmista dos saldos conjuntos ia surgir, dado o papel de Bravo na auditoria do Tribunal de Contas.

Acresce que a carreira de Jorge Bravo cria uma percepção (note-se a sofisticação da sacanice, Susana Peralta quer acusar Jorge Bravo de estar ao serviço das seguradoras, como fez toda a esquerda radical, mas não quer assumir o custo dessa acusação, portanto o problema não é Jorge Bravo não ter feito um trabalho sério, que Susana Peralta sabe ser uma alegação falsa, o problema é que os adversários políticos de Jorge Bravo, isto é, Susana Peralta e toda a esquerda, podem vender a trafulhice de uma percepção qualquer sobre a independência de Jorge Bravo) de potencial conflito de interesses; da sua biografia no site da Fundação Francisco Manuel dos Santos: "Coordena o Observatório dos Riscos Biométricos da Associação Portuguesa de Seguradores e é consultor do Instituto Nacional de Estatística, do Ministério das Finanças, do Ministério das Solidariedade, Emprego e Segurança Social e de grandes seguradoras nas áreas de Risk Management & Pension Systems". A escolha de alguém com estas ligações profissionais, combinada com propostas de expansão da poupança complementar, facilita uma narrativa de captura de interesses e prejudica um debate que precisava de confiança pública; o alarmismo dos saldos ajuda a alimentar esta narrativa".

É isto, a esquerda actual, e Susana Peralta é do melhor que se encontra nesta esquerda.

Mesmo assim, sem capacidade para discutir seriamente as opções de aumento de impostos contra reforço dos mecanismos de apoio a poupanças complementares, para assegurar, no futuro, fins de vida com disponibilidade para as despesas que cada um considera adequadas, Susana Peralta faz o contorcionismo habitual na esquerda.

Lança o alarmismo, para depois dizer que o alarmismo é prejudicial ao debate e, achando que há o risco de uma percepção conspiracionista sobre os interesses do coordenador do Estado (credo, consultor do INE, como é que se pode entregar um estudo sobre uma matéria a um indivíduo cuja competência é reconhecida pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, seguradoras, INE e vários ministérios), em vez de se empenhar em dizer que grande parte do que está escrito no relatório é consistente com o que está no livro verde, isto é, que grande parte do que foi produzido sobre as pensões é consistente em grupos de trabalho totalmente diferentes e nomeados por governos com perspectivas políticas diferentes, fingindo que não o faz, empenha-se em insinuar que tudo isto é uma malandrice das seguradoras para capturar os descontos dos trabalhadores e entidades empregadoras.

É tão tristemente rasca que, francamente, não entendo esta cegueira ideológica.

2 comentários:

  1. Ao contrário do que insinua aqui, Susana Peralta refere que no Livro Verde também se defende a "poupança complementar", entre outros pontos de concórdia. O que a distancia das conclusões da equipa de Jorge Bravo é sobretudo o que fazer com o défice da CGA, apresentando bons argumentos para que este não seja financiado pela SS, argumentos que o caro senhor prefere ignorar.

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    1. Não insinuo nada disso, é Susana Peralta que refere que prefere a diversificação das fontes de financiamento e que essa é uma das diferenças substanciais

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