
Já escrevi sobre este tema aqui mais do que uma vez, mas lá vai ele de novo: um dia destes, numa esplanada, sentou-se um grupo de jovens brasileiras, talvez universitárias. Notei, com algum incómodo, a profusão de palavrões e "alhos" a cada frase, ditos para serem ouvidos sem qualquer pudor. Garantem-me, fora da minha bolha, que o cenário é igual na mesma geração de jovens portugueses, rapazes e raparigas das melhores origens sociais. O linguajar da estiva e da construção civil subiu às universidades e aos gabinetes dos executivos, tal como nas séries americanas.
Já repararam como os diálogos repletos de palavrões, ao pior estilo das prisões, são agora o normal nos filmes mainstream sobre advogados, crime ou política? Até as séries inglesas se converteram à nova moda. Com muita pena minha, o chamado "inglês BBC" caiu definitivamente em desuso e suspeito que hoje seja até malvisto. Favorecem-se os regionalismos, o calão e os palavrões insistentemente repetidos, capazes de fazer corar um tripeiro…
É curioso como, nestes tempos de gente psicologicamente tão sensível, ninguém reclame disto. Parece-me estranho que a vulgaridade se esteja a tornar a norma. Nada contra o calão; não me chocam minimamente os palavrões mais duros, desde que usados em contexto. Eles são uma afirmação de força e possuem propriedades libertadoras quando usados com parcimónia.
Embora o uso do palavrão possa projetar uma imagem imediata de poder e crueza, ele é, na maioria das vezes, uma "força de curto prazo". Com o tempo, o excesso esvazia o sentido da palavra. A verdadeira força talvez resida na capacidade de escolher quando ser rude e quando ser elegante, mantendo o controlo total sobre o impacto que se quer causar.
Houve tempos em que se educavam as pessoas para um vocabulário rico, onde a fala exibia sofisticação e nobreza de sentimentos — era uma forma de elevação social. Numa sociedade que valoriza o polimento, quem fala "grosso" está a dizer: "Eu sou mais forte do que as tuas regras morais". É uma tentativa de demonstrar que se está acima das convenções, o que projeta uma imagem de autonomia e poder bruto.
Acontece que o vernáculo agressivo simplifica o mundo. Em vez de nuances e argumentos complexos, usa-se a força da palavra para intimidar. É uma exibição de força monológica — onde não há espaço para o outro responder. É o "soco na mesa" transformado em vocábulos. Receio que estejamos a assistir passivamente ao nivelamento da linguagem e da sua riqueza; mas por baixo, ao nível da lama.
Talvez que a profusão de palavrões, em determinados contextos, fique vazia de significado e constitua apenas um código de grupo. Entendo que a linguagem deva evoluir, mas gostava que não perdesse a sua função mais nobre: a expressão da riqueza e complexidade humana. Precisamos de uma linguagem que valorize não só a espontaneidade, mas que respeite a essência das palavras pois, no final de contas, a forma como nos expressamos molda a maneira como nos relacionamos com o mundo e uns com os outros. O que está em jogo não é apenas a linguagem, mas a própria comunidade que queremos construir.
O que me parece perigoso não é apenas a anuência acrítica face à vulgaridade, mas a adesão generalizada da indústria do entretenimento que, através da televisão, nos entra pela casa adentro.
Tem toda a razão.
ResponderEliminarJá por diversas vezes assisti ao mesmo.
E faz pena, sobretudo faz pena, ver jovenzinhas que pela forma de vestir, estar, etc., não tinham nada que usar linguagem de carroceiro.
Não sei o que vai naquelas cabecinhas, ou nas cabecinhas das Mamãs e Papás, mas parece-me que assim não está bem.
Talvez seja falta de Leitura, falta de Livros, falta de Clássicos, falta de bom Cinema, falta de visita a Museus, falta de Música decente, talvez seja só falta de cultura
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ResponderEliminarCaro Senhor
ResponderEliminarA gente mais simples de há cinquenta anos atrás, era mais delicada na sua atitude social pública do que a grande maioria dos licenciados de hoje; um adulto com uma modesta quarta classe era umrespeitável, e fiável, admirador, e cumpridor, dos preceitos sociais e vantagens culturais, do que a multidão de hoje quase toda ela licenciada, em nada?!
Para isso muito ajudou uma TV alheia e hostil a normas de educação e civilização (social, sim: o homem civilizado é social). para lhe dar um pequeno exemplo dessa ausência de preceitos de educação televisivos, poderá reparar que nas traduções legendadas de filmes, um "Mr" inglês será traduzido por "Dr" português. Ao senhor, que não imaginam o que seja, substituem por um licenciado semi letrado, que lhes dá devaneios de vaidade e orgulho.
Cumprimentos
Alguem não anda muito acima do Douro, onde o f é e sempre foi verbo, adjectivo e substantivo.
ResponderEliminarAntes um "ta f.. ca.. " que resiliências, anglicismos, traduções de anglicismos e importações como "dar o chocolate "
ResponderEliminarÉ a normalidade da mediocridade, da boçalidade. Mas não é só na linguagem verbal, também na física, na arte, etc. A merdificação avança!
ResponderEliminarNão tenha dúvidas!
ResponderEliminarA escola também aí poderia desempenhar um papel importante, para preencher algumas lacunas que os jovens têm em casa. O tal "elevador social"... Mas se soubesse a pobreza confrangedora em que estado está o ensino na área das Humanidades... Acresce que o problema inclui _ sem querer generalizar _ alguns exemplos vindos dos próprios professores que já são um produto destes novos tempos.
É chocante toda essa realidade que descreve. Sou dum tempo em que em minha casa seria considerado uma grosseria dirigirmo-nos aos nosos Pais e pessoas mais velhas por "vocês".E se pedíamos que nos repetissem uma frase que não tínhamos ouvido bem, era liminarmente proibido perguntar "O quê?".Era obrigatório substituir por "Como?".
ResponderEliminarDe modo que, há uns tempos, fiquei satisfeitíssima quando ouvi, num frente-a-frente, o Dr.Eduardo Barroso pedir a uma jovem "senhora" que não continuasse a tratá-lo por "você" e que preferia que se dirigisse a ele simplesmente pelo nome. Como eu o entendi e como me revi na atitude dele!
Sempre que se concedem direitos igualitários, a tendência é nivelar por baixo. E não é possível outra coisa.
ResponderEliminarComeçou há anos e dou um exemplo pouco conhecido, a guerra. A guerra era um assunto da nobreza que era educada com códigos próprios e, ao longo dos tempos foi-se "normalizando". Num ataque em linha quando as linhas de reserva já não podiam substituir as baixas na primeira linha, o ataque era considerado falhado e interrompido. Num cerco, quando a cidade já não podia receber qualquer auxílio exterior, rendia-se. Mas Napoleão, ele próprio burguês, trouxe não nobres aos comandos. No cerco de Badajoz em 1812 o general Philippon, completamente cercado nem se rendeu e refugiou-se no forte de S. Cristóvão. O ataque até abrir uma brecha causou enormess baixas às tropas anglo-portuguesas que reagiram brutalmente matando e saqueando perante o horror de Wellington que chegou a levantar forcas para restabelecer a disciplina.
Os "partisans" sem farda e misturados nas populações, hoje louvados por serem inicialmente maioritariamente comunistas a lutar contra o nazismo, provocaram reacções que levaram mortes incontáveis de civis. Hoje como se sabe, o terrorismo sobre civis está disseminado.
Se não erro, o Irão iniciou mais uma etapa descendente, a guerra económica. Verga a decisão inimiga pela pressão eleitoral sobre os dirigentes inimigos mas quem mais sofre, nem sequer é beligerante. A falta de ureia e nitratos vai provocar uma diminuição da produção agrícola e certamente fome em economias fragilizadas como o Bangladesh e várias africanas, provavelmente também na Índia e, possivelmente na China.
Eu não uso palavrões mas já desisti de reprovar quem os usa. Não quero arriscar-me a dizer que o mundo está louco e o mundo retorquir que o louco és tu, e internar-me.
Quanto ao uso de palavrões apenas em contexto, é uma aplicação particular de uma regra mais geral. Sempre deixei a gestão do quotidiano em relação aos meus filhos, à minha mulher e eu apenas intervinha quando a questão era séria e normalmente, a pedido dela. Ainda hoje os meus filhos, adultos há muito, respeitam as minhas palavras nas muito raras ocasiões em que os critico, exactamente porque não deixei banalizar as minhas intervenções.
"
ResponderEliminarFaz lembrar "cegos guiando cegos"
ResponderEliminarSe bem que o abastardamento seja pràticamente generalazido , no que toca ao "torrâozinho de açúcar" limito-me a um reconhecido "Vivó Regime"....
ResponderEliminarJuromenha
Este artigo fez-me lembrar os tempos do Serviço Militar, onde aí sim falava-se mal á antiga.
ResponderEliminarÉ que e isto não é exagero, básicamente em cada sete ou oito palavras, mais de metade era a chamada "linguagem de caserna.
Ainda hoje a coisa me intriga; porque será que se fala tão mal na tropa ??
Encontra no texto algumas sugestões de resposta à sua questão, o linguajar na tropa (também por lá passei) pode ter várias justificações: o uso do palavrão projeta uma imagem imediata de poder e crueza (masculinidade) e (ou) Talvez que essa profusão de palavrões, (vazia de significado) constitua um código de grupo.
ResponderEliminarA segunda hipótese parece que se ajusta melhor.
ResponderEliminarSim creio bem possível ser isso.
Cumprimentos
Além dos motivos apontados, o factor que enunciei também tem aplicação aqui. O que o SMO tinha de melhor, era exactamente tratar todos por igual, com enorme vantagem na coesão nacional mas com o nivelamento por baixo na linguagem de caserna. Desinibida, também por não se encontrarem mulheres (no meu tempo) nem familiares.
ResponderEliminarO melhor exemplo que recordo de código de grupo, ocorria quando algum cadete caía na asneira de referir um colega. Aí o alferes instrutor vociferava: colegas são as putas; nós somos camaradas. Ainda hoje evito dizer colega e odeio camarada.
ResponderEliminarBom dia
Quando lá andei, falava se sem se pensar no que se dizia!
Seis meses antes de terminar-mos o serviço, saiu uma ordem particular na caserna:
"A partir de agora a linguagem passa a ser outra, para que quando chegar-mos a casa, por força do hábito, digamos o que não queremos"
E funcionou!