Numa daquelas coisas habituais que consistem em reclamar reformas em abstracto, mas ser contra toda as mudanças em concreto, leio num jornal "um objectivo louvável: prevenir antecipadamente possíveis infracções por parte de quem manobra a máquina do Estado".
Não, de maneira nenhuma, prevenir antecipadamente possíveis infracções, multiplicando autorizações prévias, não é um objectivo louvável, é simples estupidez.
Quando para guiar sou obrigado a ter uma carta de condução, ou para exercer medicina ter um determinado curso, o objectivo não é prevenir antecipadamente possíveis infracções, o objectivo é que se conhecem as regras e as boas práticas para limitar os efeitos da inevitável imperfeição humana.
As infracções, tomemos uma das mais evidentes, matar alguém, não se previnem com regras de autorização prévia, quem quer infringir o que quer que seja, a primeira coisa que faz é aprender bem as regras, para as poder ignorar quando as quiser infringir.
As regras servem para definir o que cada um de nós pode fazer, com segurança e, quando associadas a um mecanismo de avaliação e sancionatório eficiente, punir quem não cumpre as regras.
A razão é simples, a percentagem de corruptos e, sobretudo, de decisões venais é incomparavelmente mais baixa que as decisões dentro das regras, logo, criar dificuldades gerais à decisão, para procurar assegurar que essa pequena percentagem de decisões venais desaparece, representa um custo desproporcional face aos resultados que se podem obter, um bocado como quando se quer resolver os problemas dos incêndios eliminando ignições: não funciona porque o problema central é o contexto que permite a rápida evolução do fogo.
O combate à corrupção faz-se gerindo o contexto que a torna rentável (à frente de qualquer outra medida, a redução drástica das intervenções administrativas no processo de criação de riqueza, como aqui diz, muito melhor que eu, João César das Neves), e não perseguindo a ilusão de que alguma vez será possível "prevenir antecipadamente possíveis infracções".
Exacto. Os fins e os meios. Provavelmente será melhor (para o governo) tentar eliminar as ignições....
ResponderEliminarMais ou menos como quando o governo diz que vai "resolver o problema da habitação" congelando as rendas. Na verdade sabe que não vão conseguir resolver o "problema da habitação", apenas pretende resolver o problema de ganhar votos/poder político colocando encargos e ónus da culpa nos pequenos proprietários. (Os grandes proprietários esses estão, directa ou indirectamente, no Legisltivo/Executivo, como sabemos).
É uma solução típica da esquerda. Neste momento o Maior de Nova York, comunista, está a solidificar a sua base eleitoral ao "resolver o problema local da habitação".
ResponderEliminarAs regras servem para definir o que cada um de nós pode fazer (...). Mas há um problema quando o poder não é fiscalizado por outro poder, pois fica livre para violar as regras. Como referiu e bem, há a imperfeição humana. Quem é livre de fazer o que entende por não ser fiscalizado, tem tendência em abusar do poder e violar as regras.
Nos blogues vemos bem como muitos que vivem isolados "na sua ilha", se preocupam com o que acontece cá!
Em que é que a fiscalização do que se faz se relaciona com a autorização prévia do que ainda não se fez?
ResponderEliminarserá que as oposições políticas, jornalísticas e sindicais apresentam o que me parece um certo cheiro a 'Cosa Nostra'?
ResponderEliminar"Prevenir possíveis infrações" abre horizontes a perder de vista.
ResponderEliminarNo limite pode até admitir-se a hipótese de castigo por crime não cometido.
Penso eu de que
Para esta "élite"(?) parasitária, o dinheiro dos contribuintes, nacionais e estrangeiros (fundos europeus) é a verdadeira Cosa Nostra ...
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ResponderEliminarEu não disse que se relacionava. Eu usei uma afirmação sua para mostrar que as coisas não são assim tão fáceis! Definir regras só por si não é garantia que sejam cumpridas e isto devia-o preocupar bastante. Eu sei que alguns não se preocupam com os problemas do país mas apenas com o que eles escrevem. Parece ser o seu caso pois não viu problema algum no que eu disse.
Que disparate.
ResponderEliminarO post é sobre a ideia, muito expandida, mas muito estúpida, de que mais camadas de decisão previnem antecipadamente possíveis infracções e defende, exactamente a fiscalização do que se faz, em vez de perseguir esta ideia tonta.
O Senhor Comentador vem dizer exactamente que é preciso fiscalizar o que se faz, para me acusar de não ligar ao que o Senhor Comentador acha relevante.