segunda-feira, 6 de abril de 2026

Era inevitável

O título do post remete para um argumento habitual sobre a descolonização (na verdade, é um argumento muito velho).


Não me interessa discutir se este argumento não é apenas mais um tributário sobre a inevitabilidade histórica e à existência de um devir histórico que se pode determinar cientificamente, como pretendem os marxistas, e devo dizer que é uma interpretação bastante racional e razoável, perante factos históricos conhecidos (o facto de uma coisa ser racional e razoável não quer dizer que seja verdadeira, é apenas uma hipótese plausível).


A diferença entre o argumento do "era inevitável" e "foi uma descolonização exemplar" é que o primeiro não qualifica a descolonização, limita-se a argumentar, provavelmente com alguma razão, que a descolonização ocorreria sempre, bem ou mal (ou, citando Sérgio Godinho, "a sede de uma espera, só se estanca na corrente").


O problema do segundo argumento é que é uma interpretação, nada mais que uma interpretação, à qual faltam dados (como diria o meu cunhado arqueólogo e trotskista, a propósito deo seu trabalho arqueológico reconhecido mundialmente, as interpretações passam, os dados ficam).


Também não me interessa identificar excepções que se verificam pelo mundo, territórios que continuam colonizados, no sentido em que os seus habitantes podem querer mais autonomia, mas não querem separar-se da pátria mãe, o que me interessa é que eu posso achar a descolonização uma inevitabilidade histórica face ao crescimento da consciência nacional e ao crescimento da consciência do direito a determinar a sua própria história, mas isso nada diz sobre a forma concreta como foi materializada essa inevitabilidade.


Mais que isso, face à recusa das forças armadas portuguesas, e da sociedade portuguesa, em manter um dispositivo militar que garantisse que a transição de poder para os novos governos se fazia com repeito pela vontade popular (descartando, portanto, a legitimidade revolucionária que ainda hoje, 50 anos passados, é a legitimidade de algumas ditaduras, como a angolana e moçambicana), não vejo como fosse possível resistir à vontade armada da minoria que se organizou em movimentos de libertação e, depois, tomou o poder pelas armas, quando as forças armadas portuguesas se recusaram a garantir o direito dos povos à determinação do seu futuro.


Reconhecer isto, se se quiser, esta inevitabilidade, não significa desistir de avaliar o que foi feito e concluir que o 25 de Abril, tendo, como teve, muitas virtudes, também teve, como é típico da acção humana, zonas de sombra cuja discussão não se pode interditar.


Infelizmente, 50 anos passados, ainda é estranhamente difícil discutir racional e desapaixonadamente a história recente de Portugal e dos países que um dia foram suas colónias (incluindo Açores e Madeira, já agora).

26 comentários:


  1. Os Açores e a Madeira nunca foram colónias, na medida em que não têm povos autótones. Estavam sem gente quando os portugueses os descobriram.
    (Não quero com isto dizer que não pudessem tornar-se independentes, nem que - em particular o caso da Madeira - não tenham sido maltratados ao longo da História, mas não me parece correto equipará-los a colónias).

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  2. O que interessa não são os desejos dos habitantes de um território, mas sim o de uma minoria deles capaz de pegar em armas para reclamar independência.


    O que acontece é que essa minoria, quase sempre, não quer (ou não quis) somente independência: quis tomar o poder e ficar com ele autocraticamente.


    A França teve esse problema, de forma muito clara, com a Argélia. A França insistiu sem cessar que na Argélia se deveriam realizar eleições livres, mas o movimento de libertação argelino rejeitou sempre isso liminarmente; eles queriam ficar com o poder só para eles após a independência. E a França acabou por submeter-se à vontade dele. 

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  3. Cabo Verde também não tinha. São Tomé e Principe julgo que também não.

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  4. A chamada Descolonização, guerras Coloniais incluídas devem ter resultado para aí num meio milhão de vidas perdidas. 


    Ainda hoje tenho a firme Convicção (conheço muitos Africanos que tem a mesma opinião) que a Descolonização foi um erro tremendo e uma grande Desgraça.

    O Conjunto teria outra força no Mundo e Portugal outro estatuto na Europa.


    Sei que as ideias Dominantes ao tempo (vindas dos USA sobretudo) empurravam noutra direção.


    Mas também sei que tenho razão 

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  5. É como refere: a descolonização era inevitável, e era inevitável ser tudo menos exemplar. E, inevitavelmente, não foi. Como tantas vezes na história, a tropa cansou-se e dissolveu-se e, a partir daí, o rumo dos acontecimento estava traçado. Nem 15 dias depois do 25 de Abril, o General Spínola manda para Bissau o homem da sua maior confiança para segurar o processo e, mal chegou, o homem ficou tão comunista como o Clemente, o Golias e o Matos Gomes. Se foi assim com esse, como poderia ser diferente com outros? Quando a barragem caiu de podre, a onda era vermelha e levou tudo à frente.

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  6. Como se pode ter uma versão histórica adequada à verdade da descolonização, se os responsáveis directos, inclusive o próprio MFA , sonegaram documentação relevante com informações elucidativas que "desapareceram" em parte incerta? Há muitas ilacções a tirar daí: houve (e haverá) muitas zonas de "sombra" impedidas de virem à luz, evitando-se, por exemplo,  que estivessem acessíveis em Arquivos Públicos. Ora, só isso diz bastante da má consciência  em relação a esse tal processo de descolonização "inevitável".
    A ouvir a investigadora do tema da "Descolonização" Alexandra Marques (cerca de 8 minutos):


    https://www.youtube.com/watch?v=46vcDMIX3iY

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  7. Sobre esses factos, ouvir  (a partir do minuto 5:55)


    https://www.youtube.com/watch?v=DuCmTE_RAEw

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  8. Na minha infância conheci, na minha aldeia, um homem que falava sempre com uma voz muito rouca. A minha mãe explicou-me que, para fugir à tropa e à guerra no Ultramar, na véspera de ir à inspeção ele se tinha enfiadp a noite inteira na água fria dos arrozais. Ganhou uma carraspana que lhe afetou a voz para o resto da vida.
    Digo isto para explicar que, sim, não era função desse homem, nem de tantos outros como ele, irem para a guerra defender aquilo com que nada tinham a ver. Muito menos impedirem os movimentos independentistas de, após o 25 de Abril, se guerrearem entre si. As tropas portuguesas queriam voltar para casa e tinham todos os bons motivos para isso.

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  9. Independentemente da história ser muito pouco credível, o facto é que mais de 50% das forças armadas portuguesas eram soldados nascidos nas respectivas colónias, portanto essa conversa, muito útil à ideia dominante, tem o problema de não bater certo com os dados: havia muito mais pessoas nascidas em Moçambique, Angola, talvez Guiné, no exército colonial que nos movimentos de libertação.

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  10. Independentemente da história ser muito pouco credível


    Tal como escrevi, conto aquilo que a minha mãe me contou.


    mais de 50% das forças armadas portuguesas eram soldados nascidos nas respectivas colónias


    Está bem, mas os portugueses de Portugal não tinham nada que lá estar. Eles queriam vir-se embora e tinham todas as boas razões para isso.
    Portugal poderia, é verdade, ter adotado o modelo norte-americano de ter instrutores nacionais a orientar os autótones sobre com combater as rebeliões nos países deles. Mais ou menos como instrutores norte-americanos ensinaram o Batalhão Atlacatl, de triste memória, em El Salvador. Não sei se o resultado iria ser prestigiante para as Forças Armadas portuguesas.

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  11. A verdade é que os movimentos de "Descolonização", também conhecidos por Turras, não podiam com uma gata pelo rabo.


    A grande falha da Guerra Colonial foi, fora de toda a dúvida, o pouco empenho das Populações Civis das Províncias Ultramarinas.


    Preocupadas com a suas vidinhas e o normal dia a dia, como se a guerra fosse dos outros e não tivessem nada a ver com ela.


    E o Estado ainda os subsidiou para recomeçarem as vidas na Europa.


    Quanto aos Portugueses, que gastaram de quatro a seis anos das suas vidas, para lhes tirar as castanhas do lume, levaram um chuto no cu, pois defenderam a Pátria, como lhes competia e isso não tem nada de especial.

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  12. Acho muito bem que acredite na sua mãe, mas pergunte a qualquer médico se a história tem grande probabilidade de estar bem contada.
    Quanto ao resto, o que está a dizer é que as forças armadas portuguesas fizeram muito bem em abandonar à sua sorte os povos das antigas colónias porque havia portugueses que não queriam ir para a guerra.
    Independentemente dos factos demonstrarem que muitos e muitos militares ficavam nas colónias depois de cumpridas as suas comissões, eu continuo a achar que é moralmente discutível a opção de entregar esses povos a ditaduras ferozes porque o que era preciso era resolver o problema dos soldados que estavam cansados da guerra.

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  13. Exatamente, é isso mesmo que estou a dizer.





    Ninguém tem nada que ir matar e morrer para safar outros povos do seu triste destino. A própria guerra é moralmente discutível.

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  14. E isso altera a substância em quê ??

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  15. Claro que houve ajudas externas, Públicas e Semi-Publicas.


    Não se vê é que resumir isso na Expressão "O Estado Subsidiou" seja uma mistificação por aí além.

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  16. Depois da Conferência de Berlim, em África sobreviveram dois países independentes - a Libéria e a Abissínia. O resto do território fora colonizado. Era inevitável?
    P.S. Esqueceu-se das Berlengas. 

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  17. A expressão foi infeliz.


    O que queria dizer é que os Angolanos (no caso de Angola, tinham muito mais a ver).

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  18. Mais de 1 milhão de mortos na soma dos 2 novos maiores países
    Guerra Civil Moçambique - por combate e fome a pagina da wiki  indica 1 milhão.Guerra Civil Angola - 800000 wiki

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