quinta-feira, 7 de setembro de 2023

Rubiales, Woody Allen e a beataria woke

No festival de Veneza, perguntaram a Woody Allen a sua opinião sobre a cena do Rubiales.


Woody Allen respondeu o que entendeu, basicamente que ele não viu nada de especial, mas que se foi inapropriado ou demasiado agressivo, há que dizer-lhe claramente que não volte a repetir e peça desculpa, embora lhe pareça excessivo que uma pessoa perca o seu trabalho e seja penalizado da maneira como está a ser o senhor Rubiales por causa do que se passou.


Quando o jornalista (do El País) insiste que a questão central é a rapariga não ter dado consentimento e ele ter uma posição de poder sobre ela, Woody Allen responde que sim, que isso é certo, mas que foi uma coisa pública, à vista de toda a gente, a rapariga não estava em perigo num gabinete à porta fechada. Claro que ela tem todo o direito a deixar claro que não queria o que aconteceu e ele tem o dever de pedir desculpas e garantir que não volta a acontecer. E feito isso, é seguir em frente.


Os promotores da moderna lapidação de mulheres adúlteras levantaram-se imediatamente, começando por perguntar por que raio é que é exactamente a Woody Allen que o jornalista faz a pergunta (noutra entrevista é-lhe perguntado qualquer coisa sobre o seu próprio comportamento e ele responde que trabalhou com centenas de actrizes e não há uma única queixa sobre ele, um pormenor desvalorizado por quem entende que os comportamentos dos abusadores se manifestam pontualmente e não em padrões consistentes ao longo do tempo, com certeza).


A pergunta é feita a Woody Allen porque é uma pergunta sempre ganhadora para os militantes da lapidação de mulheres adúlteras: se ele responde de forma politicamente correcta, é mais um escalpe que pode ser exibido, vejam que até o Woody Allen ataca o porco do Rubiales; se ele responde como respondeu, vejam como os únicos que defendem Rubiales são os abusadores como ele.


Que nisto se perca a noção de que ninguém está a defender Rubiales, mas a discutir a melhor maneira de uma sociedade decente lidar com situações socialmente condenáveis, e que se perca a noção de que Woody Allen foi absolvido nos processos judiciais contra ele e, como diz, tirando as acusações no contexto de uma separação traumática e litigiosa, não existem outras acusações de ninguém, é irrelevante para a beataria woke.


A linha de separação fundamental é entre as pessoas que ambicionam criar um homem novo, sempre decente e moralmente impoluto, através da lapidação de mulheres adúlteras, se preciso for, e os que, reconhecendo a natureza humana tal como ela é (o que estiver sem pecado que atire a primeira pedra) se limitam a querer sociedades mais decentes, com melhores mecanismos de resolução de dilemas morais e de relação entre pessoas necessariamente imperfeitas.


A civilização é um fino verniz, que estala à menor perturbação, e o que a distingue da barbárie é a capacidade da sociedade para interiorizar que é muito pior condenar um inocente que deixar impune um criminoso.


E agir de acordo com isso, de forma sistemática, mesmo quando há uma multidão a querer lapidar a mulher adúltera.

34 comentários:

  1. As novas gerações que passam a vida nas redes sociais e são completamente manipuladas,  estão a ficar mais intolerantes que as gerações dos seus avós.  E nem se apercebem disso . Aprenderam a disparar mais rápido que a própria sombra e tomaram-lhe o gosto. Adoram agredir em matilha, cancelar, silenciar, exigir a demissao ou despedimento, destruir a vida de uma pessoa ...sem sequer a ouvir

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  2. o Papa criou os 10 Mandamentos para os Seres humanos por terem a mesma condição
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  3. Claro que seria excessivo, se essa fosse a única cena. O que acontece é que já anteriormente havia queixas das jogadoras da seleção sobre o (alegado) tratamento menos respeitoso da Federação para com elas. Acresce que o beijo a Hermoso não foi a única cena triste que Rubiales fez na final do Campeonato do Mundo. Tudo junto, é para mim mais que evidente que Rubiales não é a pessoa certa para o posto que ocupa.

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  4. ele tem o dever de pedir desculpas e garantir que não volta a acontecer


    Ele já fez isso? (Não sei se fez ou não fez, se tiver feito peço que me dêem referências.)

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  5. A propósito do título do post: há pessoas para quem basta o facto de "a beataria woke" ser contra uma coisa (ou alguém) para automaticamente se porem do lado dessa coisa (ou dessa pessoa). São automaticamente, reflexamente, contra os "woke".
    No caso vertente, e já que estamos num blogue habitado por muitos monárquicos, convém notar que Rubiales foi, não somente desrespeitador de Jennifer Hermoso, mas também desrespeitador da rainha de Espanha.

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  6. Não foi o papa,foi o Moisés no monte sinai depois de lhe terem derretido o ouro (do Egipto) para fazerem um bezerro dourado.

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  7. ...na presença da rainha de Espanha...- por isso mesmo deve-se olhar a que o rapaz agiu de impulso, isso tira a maldade a esta engrenagem toda a que isto foi parar.Com isto tudo vamos ter a atleta de garrafa à boca, num tribunal a pedir uns milhares de indemnização.
    Aliás, como noutros casos do futebol, só que ninguém fez tanta "fita". Ficou tudo caladinho...
    Raios partam a bola!!

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  8. Sim, as afirmações de Woody Allen são curiosas e têm a ver com as suas próprias discutidas vivências.

    O problema não é "perder o emprego" por causa de um beijo naquela específica circunstância: em pública, sem conhecida prévia oficial consentida intimidade. São casados?. Não. São namorados?. Não.
    Gritante é a desigual posição de ambos na hierarquia de um desporto. Ainda por cima um desporto apoiado pelo estado. Não admira a questão ter sobrado para as entidades oficiais responsáveis.

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  9. Sim, basta-me saber que há um linchamento para eu estar contra o linchamento.

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  10. Quais vivências, pode concretizar?
    É gritante da desigualdade entre os dois na hierarquia?
    Ele é patrão dela? O ordenado é pago pelos mexicanos, a presença na selecção é decidida pelo selecconador, portanto qual é a relação hierárquica existente?
    Agora o post não é sobre isso, dando isso de barato, a forma como a sociedade está a lidar com isso é proporcional ao problema de base?

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  11. A maioria ,esmagadora arrisco dizer, não consegue(ou não quer) ver a floresta, ficam sempre à "coca" de certas árvores para virem dizer "tás a ver,lá está aquela árvore outra vez". E como está estudado(até à exaustão ou quase) a maioria sempre segue as modas e o caminho mais fácil que não causa inconvenientes (mesmo que cedo ou tarde esse caminho leve ao abismo).

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  12. obrigado pelo esclarecimento


    ao bezerro agora chamariam vitelo

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  13. É a nova religião. Fé, opinião pessoal, superioridade moral, virtude.  A adoração apenas varia nos símbolos e nos ídolos.
    Um bom exemplo é o filme A vida de Brian. Quando saiu, eram os cristãos a querer cancelar porque gozava com Jesus e a sua Religião; agora querem cancelar por causa da Loretta.

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  14. O senhor (e parece que o seleccionador, previamente boicotado por umas quantas, também já foi à viola) só foi despedido por causa do barulho nas redes sociais.
    Olha, pior fez o Will Smith, que arreou em directo, vivo e a cores num colega (e sem consentimento), mas mesmo assim teve direito a manter-se sentado até ao fim da noite e até recebeu o seu prémio.
    O Rubiales não tem postura institucional, fez figurinhas tristes, mas não terá sido o primeiro a fazê-lo no mundo do futebol. A questão passa por dois pontos: primeiro, ele já era persona non grata, portanto qualquer infracção serviria para correr com ele; segundo, criou-se barulho após o caso, e como sabemos, quando a internet fala, o mundo estremece.

    Um dos grandes problemas contemporâneos é achar que as redes sociais são demonstrativas da sociedade, ao invés de serem o que são, uma parcela das mesmas. Quem é famoso, ou quem faz barulho no twitter, não é automaticamente porta-voz de qualquer grupo ou comunidade, nem expressa os sentimentos daquelas. E dá-se demasiada atenção ao que a maralha da net diz, em especial os tais "representantes" que falam pelas "comunidades".

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  15. Rubiales não tem postura institucional, fez figurinhas tristes, mas não terá sido o primeiro a fazê-lo no mundo do futebol.


    Certíssimo. Porém, o facto de não ter sido o primeiro a fazê-lo não serve de desculpa. E quem não tem (ou não sabe adotar) postura institucional não pode estar à cabeça de uma instituição.





    Exatamente. A reação contra ele por parte de algumas jogadoras (e não só) não se deve exclusivamente, nem sequer principalmente, às figuras tristes que ele fez na final do campeonato do mundo. Já há muito que a posição da Real Federação face às jogadoras vinha sendo contestada.





    Estou totalmente de acordo.

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  16. Isto é tudo tão absurdo, tao nojento que me leva a reflectir um pouco sobre qual a motivação por detrás disto.
    A questão é o que constitui consentimento.?
    Em que circunstância é aceitável dar consentimento?
    Mas não somos maduros o suficiente para reflectir e discutir sobre isto.
    Queremos ambas as coisas: queremos ser capazes de fazer o que quisermos, quando e onde quisermos, com quem quisermos....sem consequências.
    E queremos que nunca haja problemas com o consentimento.
    Não vai acontecer, não é possível, é um absurdo.
    Não acho que o sexo funcione muito bem fora de relacionamentos sérios. Por vários motivos. E não existe qualquer evidência que isso funcione. 
    Há uma forte tendência entre as culturas, nomeadanente as não tribais para a aplicação social da monogâmia de longo prazo. E há razões para isso. Sociais, emocionais etc etc.
    O que é curioso é que todo este tabú sexual vem da esquerda radical e não é isso que se espera. Esperamos que isso venha dos "malditos" cristãos de direita, brancos, de meia idade, heterossexuais, a reclamar sobre a imorqlidade sexual, mas não: parte da esquerda radical.
    Hoje existe a ideia completamente estapafúrdia que eu tenho que ter consentimento assinado antes dr fazer qualquer movimento físico. É a coisa mais estúpida que já ouvi.
    Faz parte do romance. Nunca vi nenhum filme daqueles onde existe sedução, beijos onde as pessoas que estão a namorar troquem notas de consentimento estilo "vou dar um beijo, assina aqui a permissão". Não é isso que acontece, isso é um absurdo. Só alguém que desconhece a natureza humana é que pode pensar(?) assim.
    Temos que reaprender as regras aceiráveis de propriedade no que diz respeito ás relações sexuais . E que tal começar por esta permissa:  Não fazer nada sexualmente com ninguém sobre o qual eu não falaria com essa pessoa.
    O mundo está um lugar estranho mesmo...

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  17. "A linha de separação fundamental" neste combate cultural é entre quem odeia a comunidade em que vive, e os outros.

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  18. E se não é crente, é, por definição descrente.

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  19. As contradições desta nova sociedade(ocidental claro) são do tamanho da galáxia,mas a um certo nível há uma racionalidade(estranha e turtuosa mas existe) que é 'defender as liberdades para nós do mesmo grupo e negar aos outros esse direito',e nisto não há nada de novo,é totalitarismo recauchutado.

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  20. agnóstico
    «os fenômenos sobrenaturais inacessíveis à compreensão humanaagnostos

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  21. "


    Tem por acaso consciência que essa frase se aplica como uma luva a Marcelo Rebello de Souza? E também a António Costa e larga parte dos seus ministros?

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  22. Semanalmente vemos comportamentos javardos no mundo da bola serem desculpados por esta ou aquela razão. Nem indo a questoes  "alegadamente " de índole judicial.
    Já neste  foi fogo à peça.

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  23. E depois de vir, ler e saber, constatei a verdade daquele, verdadeiramente sábio ter esclarecido o mundo com; quanto mais gente envolvida numa discussão sem nexo, mais burra se torna cada uma delas

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  24. Já somos dois, HPS.
    É imperativo ler na Pág.8 do Público o que diz sobre este assunto a Mª José Fernandes. Um artigo demolidor que eu subscrevo inteiramente.

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  25. Também senti um grande incómodo quando li, com estupefacção, o que escreveu corajosamente hoje no Observador o Pe. Gonçalo Portocarrero de Almada, a propósito de um processo absolutamente kafkiano a decorrer em Espanha.
    Trata-se de um processo, com contornos inquisitoriais; movido contra um professor e que envolve as altas instâncias do clero.

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  26. Arrisco dizer que  se passaria (quase) nada, nem provocaria nenhum escândalo se a cena se tivesse passado : entre dois homens ou entre duas mulheres. 
    Ou seja, mudemos os protagonistas, mas vamos manter a mesma cena que se passou: se a "beijoqueira" fosse uma lésbica e desse, num impulso, um beijo não consentido noutra mulher (fosse esta lésbica ou não), atrevo-me a dizer que não haveria a mesma condenação nem este "motim" a que temos assistido. 
    E, na hipótese de a situação ter sido exactamente a mesma,  mas entre dois homens, sendo o "beijoqueiro" um impulsivo gay e o homem beijado com a mesma orientação sexual ou não, vou ousar afirmar, que não provocaria o mesmo escândalo!
    E atrevo-me a mais: 
    Se a "vítima" (a pessoa beijada à força) fosse homossexual e pretendesse apresentar queixa formal, seria devidamente aconselhada e persuadida a não fazê-lo  pelas associações e representantes dos movimentos LGBTI, porque "mancharia" e poria em causa a "luta" pelos seus direitos
    Se a "vítima" do beijo forçado fosse heterossexual era simples:  seria insultada e condenada por homofobia na praça pública, nas redes sociais e em tudo quanto é sítio. (E talvez fosse pedida a pena prevista na lei para os casos de discriminação das minorias, no caso, as vítimas de homofobia "comprovadíssima"!

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  27. Há alguma razão que eu desconheça para me dar ordens?

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