sábado, 1 de outubro de 2022

O ambientalismo silencioso (parte cinco)

Os efeitos deste ambientalismo de manada em que as ideias são indiferentes aos factos tem implicações muito mais profundas e relevantes do que poderia parecer.


Um bom exemplo é o que se passa na outrora cautelosa burocracia europeia.


Ursula von der Leyen precisava de ter um pacto ecológica europeu nos primeiros cem dias da sua investidura como presidente da Comissão Europeia, sendo razoavelmente indiferente a eficácia do que lá está escrito, desde que ficasse claro o amor da Comissão Europeia pela questões ambientais que os movimentos sociais, leia-se, Greta Thundeberg e afins, conseguiam tornar visiveis.


Como boa burocracia que é a europeia, há sempre avaliações sobre o que foi feito antes e, em matéria de biodiversidade, as conclusões são as que são conhecidas: as metas tomadas em diversos momentos anteriores nunca foram alcançadas.


Para mim, um pobre homem da Póvoa, se repetidamente se vão estabelecendo objectivos que, nem de perto, nem de longe, são cumpridos, seria preciso avaliar os métodos usados, e tentar perceber e explicar as razões para os sucessivos desaires.


Para a burocracia europeia não é assim.


Os objectivos não são atingidos porque os Estados não fazem o que a Comissão acha imprescindível, portanto o que é preciso é reforçar os processos que não deram resultado, passando-os de voluntários para vinculativos, passando de metas mais ou menos indefinidas como "parar a perda de biodiversidade até 2010" (não escolhi inventar um objectivo, escolhi um objectivo concreto e formalmente assumido) para metas vinculativas e verificáveis como "ter 10% do território europeu sob protecção estrita em 2030" (mais uma vez, não estou a inventar hipóteses, é mesmo isto que está aprovado).


Qualquer pessoa com um mínimo dos mínimos de conhecimento sobre gestão da paisagem e gestão da biodiversidade sabe que ter 10% do território nacional sem intervenção humana (por mais voltas que se dêem para alargar o conceito de "sem intervenção humana" de maneira a que se possa dizer que é sem intervenção humana, mas se possa intervir) é, para além de uma impossibilidade prática, uma grossa asneira técnica.


O que não faltam são pessoas responsáveis, quer na administração, quer na academia, quer nos movimentos sociais, que reconhecem que de facto não faz sentido nenhum ter este objectivo, desde que seja em privado.


Sem surpresa, desde 2019, quando foi apresentado, até hoje, três anos depois, ainda não se passou das discussões semânticas sobre o que quer dizer "sem intervenção humana".


O reconhecimento é sempre feito em privado, no que escrevem e dizem publicamente, afastam-se do confronto dizendo que, independentemente do que cada um possa pensar, é uma política europeia aprovada por todos, portanto não faz sentido contestá-la, passando a dispender o seu tempo, como Sísifo, a carregar uma pedra que sabem que, antes de chegar ao destino, vai de novo rolar para o ponto de partida.


Em 2030, quando se fizer a avaliação de resultados, lá estaremos a discutir formas mais eficazes de impor o mesmo objectivo, com os mesmos métodos, porque é evidente que as medidas são positivas para a conservação, a realidade é que está errada.


A simples constatação de que modelos de intervenção pública como o de Greta Thundberg, simplistas, unidireccionais, assentes em histriónicos juízos morais, diabolizando a economia e as motivações das pessoas comuns, sem qualquer consideração pela complexidade da realidade, é arrumada para debaixo do tapete, tratando-a como uma mera reacção dos interesses contra a perda dos privilégios das classes dominantes que beneficiam do status quo que não aceitam alterar e nos está a conduzir ao abismo.


Mais que a pobreza material a que a irracionalidade dá origem, é mesmo a pobreza intelectual da discussão dentro do movimento ambientalista que me entristece ("a nossa casa está a arder", dizem eles): tanta gente com boas cabeças, com bons instrumentos de análise, com boas condições de trabalho, agachada atrás do sofá por ter medo dos anátemas a que se arriscam se se limitarem a dizer que talvez seja boa ideia baixar o tom da gritaria e olhar para a realidade com mais atenção e rigor.


Será assim tão difícil dizer que pretender ter 10% de Portugal sob protecção estrita não é só é estúpido em si mesmo, por não contribuir grande coisa para a conservação da biodiversidade, como é estúpido porque corresponde a gastar recursos a tentar materializar uma impossibilidade prática?

6 comentários:

  1. está há 50 anos ao abandono 90% do território europeu
    os dirigentes citadinos só conhecem o asfalto ou o mundo visto de avião


    «arrium porrium»

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  2. Muito bom texto. Há por aqui mais visão e capacidade de análize correcta do que lá, naquela indindável prole de funcionários que se espraia pela dita "capital", em Bruxelas e arredores. Nada que os preocupe diga-se, pelo contrário, levam-se muito a sério. Ridículo, infelizmente nocivo.

    Até quando?. É que o "capital" vai faltando e quem não tem dinheiro não tem vícios.

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  3. É a nova (já com alguns anos) situação,mas agora não há movimentos de capitães indignados e revoltados.

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  4. arrium porrium catanorum cunque aegipci badamerda.

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  5. A Greta é uma grande activista, estudou afincadamente e em profundidade as mais variadas temáticas, só temos de seguir os seus ensinamentos. 
    10% é pouco, no mínimo 99% do território sem intervenção humana. Já estivemos mais longe

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