domingo, 1 de março de 2020

Aula magistral de populismo, por Catarina Martins

Catarina Martins é uma verdadeira mestre de populismo e vale a pena aprender com sabe do assunto a sério.


"No momento em que o país se prepara, como o resto do mundo, para uma epidemia, aqueles que andaram a atacar sempre os hospitais públicos e que até defenderam que deviam ser privatizados, esses mesmo não vão exigir nada aos hospitais privados, vão exigir tudo aos hospitais públicos do SNS”.


1) Compreender que um determinado assunto é socialmente relevante (neste caso o coronavírus, mas podia ser o campeonato de berlinde de Campo de Ourique, para este efeito é igual);


2) Usar esse facto para chamar a atenção para o que se diz;


3) Usar uma ligação entre esse facto e a posição política que se pretende contrabandear;


4) Se a ligação não é evidente (uma epidemia e a propriedade das paredes dos hospitais), inventar maneira de fazer a ligação, neste caso, inventando uma posição política dos supostos adversários políticos;


5) "... aqueles que andaram a atacar sempre os hospitais públicos ... não vão exigir nada aos hospitais privados, vão exigir tudo aos hospitais públicos do SNS”, é um espantalho político criado por Catarina Martins, não existe ninguém que tenha esta posição política;


6) Depois de inventado um espantalho, contrapôr a posição política virtuosa: “Se alguém precisava de uma prova de que precisamos sim de um SNS público forte, ela aqui está, porque é de quem dependemos”;


7) É totalmente irrelevante que não exista qualquer relação entre a dimensão estatal do sistema de saúde de cada país e a epidemia, e isso é facilmente verificável, mas como nenhum jornalista vai levantar a questão, uns por falta de oportunidade, outros porque realmente vivem no mesmo mundo que Catarina Martins, e portanto desconhecem as variações da dimensão estatal do serviço público de saúde entre diferentes países, o fundamental é dizer os disparates que se quiser com muita convicção, isso chega;


8) Depois de estabelecidos os limites do debate nos termos favoráveis ao populista, é preciso reforçar o soundbite: “Quem é que estará sempre e terá de estar sempre preparado para todas as circunstâncias? O SNS público forte, se não for forte vamos dizer que contratualizamos com privados, mas nada acontece, ou deixaremos a população sozinha, indefesa à espera que seguros e hospitais privados resolvam o que nunca vão resolver”;


9) Mais uma vez é irrelevante se o que se diz tem alguma verdade, ou alguma base factual, essa questão foi resolvida no ponto 7);


10) Por fim, chega-se ao ponto pretendido desde o início (o coronavírus é um mero pretexto, Catarina Martins está-se nas tintas para o assunto, o que lhe interessa é a forma como pode contrabandear ideias políticas a partir de situações socialmente relevantes não é resolver problema nenhum das pessoas comuns): "“Significa que temos um SNS para responder às necessidades das pessoas, tenhamos também exigência de lhe dar todos os meios de que ele precisa para responder da melhor forma ... o SNS “pode estar fragilizado, pode estar sob fortes ataques”, mas continua a ser reconhecido pela população “como um dos serviços em que deposita a maior confiança” ... "Enquanto não estiver regulamentada, a Lei de Bases não será uma realidade”".


11) O problema do rabo de fora (que só é problema se alguém o quiser fazer notar, o que é raro, no caso de Catarina Martins): "3 - Em situação de emergência de saúde pública, o membro do Governo responsável pela área da saúde toma as medidas de exceção indispensáveis, se necessário mobilizando a intervenção das entidades privadas, do setor social e de outros serviços e entidades do Estado.", diz a tal Lei de Bases, o que evidentemente destroi o argumento infantil usado antes: "deixaremos a população sozinha, indefesa à espera que seguros e hospitais privados resolvam o que nunca vão resolver".


Não admira que o Bloco de Esquerda e Catarina Martins passem a vida a gritar contra o populismo, não vá alguém reparar na forma como o Bloco e Catarina constrõem e contrabandeam os seus argumentos políticos, há anos e anos.

16 comentários:

  1. Sim, precisamos de serviços públicos fortes, que não "d



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  2. https://www.youtube.com/watch?v=PF_FFRXijDI&t=48s (https://www.youtube.com/watch?v=PF_FFRXijDI&t=48s)

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  3. Não comento os outros pontos, mas o ponto 7 interessa-me. O Henrique está a sugerir que: 1) Ainda ninguém comparou a resposta a epidemias em função das dimensões estatal e privada dos sistemas de saúde? 2) A comparação foi feita e é inconclusiva? 3) A comparação foi feita e o resultado foi um empate? 4) A comparação foi feita e o Estado perdeu na comparação?

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  4. fumou um malso de cigarros

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  5. Que texto tão grande, e não se percebe o que o Henrique pretende transmitir com ele.
    A mim pareceu-me a priori que Catarina tem razão...

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  6. Pois é, Henrique, mas o amor é cego, e ele é tanto nas redacções das tvs que transmitem vezes sem conta qualquer palermice que a criatura emita.

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  7. Relativamente ao ponto 7, o ónus da prova é seu, não da Catarina Martins, nem dos jornalistas. Um extra-terrestre que aterrasse hoje na Terra e lesse o seu post iria pensar que foi o grupo Mello a erradicar a varíola e não a OMS em articulação com organizações estatais. Há muitas doenças em que faz sentido discutir os méritos relativos das dimensões estatal e privada dos sistemas de saúde, mas no caso das doenças infecto-contagiosas talvez seja uma perda de tempo ter essa discussão, tendo em conta a história da medicina no século XX e a impossibilidade do Estado delegar responsabilidades para outras entidades em caso de pandemia. 
     

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  8. 1) A varíola não é uma epidemia, nem nunca foi;
    2) Está a dizer que os problemas com o coronavírus são maiores na China porque todos os hospitais são estatais e são menores na Holanda porque quase todo o sistema de saúde é privado?

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  9. A sério que ainda não percebeu que haver ou não responsabilidades do Estado em matéria de saúde (ou de educação, ou de padarias, ou do que quiser) tem muito pouca relação com a propriedade das paredes dos edifícios relacionados com cada um desses assuntos?
    Está a sugerir que na Alemanha, em que o peso do Estado na posse das paredes dos hospitais é relativamente reduzida (e tem diminuído nos últimos anos), devem andar à volta dos 50%, a responsabilidade que o Estado assume na saúde pública é menor que no Zimbabué, em que quase todas paredes dos hospitais são do Estado?

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  10. Peço desculpa pelo meu erro, a propriedade estatal dos hospitais na Alemanha está muito longe dos 50% que referi (os números estarão um bocadinho desactualizados, mas a proporção deve andar por estes valores, ou seja, um quarto e não metade dos hospitais são estatais): for-profit hospitals

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  11. Catarina Martins está apenas a falar para a sua congregação. A precisão do que declama tem pouco interesse.
    Nos hospitais públicos uns são recebidos principescamente e despendem-se aos beijinhos. 

    Outros nem por isso. O 19 não vai alterar absolutamente nada neste comportamento.

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  12. " A varíola não é uma epidemia, nem nunca foi"
    Claro que a varíola nunca foi uma epidemia. Foi uma pandemia.
    Só em 1967, quando já estava relativamente controlada, matou 2 milhões de pessoas. Coisa insignificante.

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  13. 1) "A varíola não é uma epidemia". Correcto, foi eliminada. Mas sugiro que active o detector de ironia. "Nem nunca foi". A sério , Henrique? A varíola nunca foi uma epidemia?  Sugiro que se informe melhor antes de escrever tantas asneiras. 


    2) Não, não estou a sugerir esse disparate que se lembrou de inventar. Mas a sua sugestão, além de absurda, é ilógica, porque eu deveria estar a sugerir o contrário. 

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  14. Vamos então corrigir o meu erro: a varíola é uma doença que, episodicamente provocou alguma epidemias.
    O que define a epidemia é uma doença ter uma incidência maior que a esperada (não é bem o número absolutos de pessoas que morrem da doença), o que foi erradicado foi a doença, não foi uma epidemia (as epidemias não se erradicam, controlam-se).
    Corrigido o meu erro, nada disso altera o fundo da questão.
    Podemos voltar à discussão da questão de fundo: em que medida uma epidemia se relaciona com a propriedade das paredes dos hospitais?

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  15. 1) Na minha preocupação de distinguir doenças endémicas de epidemias, cometi um erro (esqueci-me de que as doenças endémicas podem provocar, episodicamente, epidemias);
    2) Quando me foi apontado o erro, imediatamente o reconheci e corrigi;
    3) O facto de, na sua opinião, isso fazer de mim um aldrabão diz mais sobre si que sobre mim;
    4) Já pretender que a varíola foi erradica pelos Estados (através da OMS) omitindo o papel das pessoas e instituições que não estão da esfera do Estado, quando ela tinha sido erradicada da Europa e da América do Norte, ainda antes da criação da OMS, e que o programa de erradicação da OMS só foi possível, como é natural, com forte participação de privados (está mesmo convencido de que a produção de vacinas e maioritariamente feitas em empresas estatais?), é um argumento da cristalina evidência de que a saúde pública depende da propriedade das paredes dos hospitais, para si;
    5) Por fim, para não se expor demasiado ao ridículo, lá faz um PS a reparar, depois de me chamar aldrabão, que afinal fiz o que faz uma pessoa normal que comete um erro: reconheci-o e corrigi-o;
    6) PS esse que vem depois de dizer o mesmo que eu digo no post: que a propriedade estatal dos meios de produção em saúde (ou em educação, ou no que se quiser) não é uma condição essencial para a prestação de um serviço público, que é a única coisa que estou a dizer, desde o princípio, contrariando Catarina Martins que resolveu usar uma epidemia em curso para tentar contrabandear a ideia de que só a propriedade estatal dos meios de produção pode garantir uma gestão razoável e justa de uma epidemia.

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