
Apenas um curto comentário ao debate entre André Ventura e Pacheco Pereira: Ventura poderia ter ganho a disputa de forma invicta se se tivesse cingido ao argumento de que o 25 de Abril não trouxe apenas cravos e rosas, mas deu lugar ao prenúncio de um regime que seria bem mais repressivo do que o Estado Novo. No auge do PREC, no continente, registaram-se quase dez vezes mais presos políticos do que no final do regime anterior. Além disso, a fazer-se uma comparação que inclua o contexto ultramarino, os presos do Estado Novo teriam de ser comparados com as posteriores detenções e execuções sumárias ordenadas pelos movimentos independentistas durante o processo de descolonização às quais Portugal fechou os olhos e virou as costas.
De resto, não faz sentido Ventura pretender relativizar a malignidade da persistência de uma ditadura face a um sistema parlamentar liberal, com liberdades cívicas, eleições livres e rotatividade no poder sem sangue ou violência. São questões de princípio, não de estatísticas de corrupção ou de outra ordem.
No que diz respeito à questão da corrupção execrada por Ventura (e por toda a gente), convém lembrar que, ao tempo do Estado Novo, o exercício do poder servia para distribuição de cunhas e lugares aos "amigos" — algo que hoje chamamos precisamente de corrupção. Pretender que a corrupção é um fenómeno exclusivo da democracia é um erro: trata-se da natureza humana, e hoje temos muito mais consciência disso do que no tempo de Salazar. Actualmente, o tema já não é tabu; pelo contrário, é profusamente explorado na disputa política e na comunicação social. De nada me consola o facto do ditador nunca ter tirado proveito pessoal directo disso.
Também esteve mal Pacheco Pereira ao relativizar o terrorismo de extrema-esquerda que emergiu em Portugal na democracia; este fenómeno denuncia as suas origens políticas maoistas, ainda não completamente resolvidas. Finalmente, o seu anticolonialismo é pouco menos que infantil. Se ele é um historiador, não o parece: finge desconhecer a emergência da moda do colonialismo em toda a Europa no século XIX, que em Portugal teve particular incidência na 1.ª República. Tal como as restantes nações ocidentais, o nosso país tentou preservar e expandir as suas possessões — lembremo-nos da crise do Mapa Cor-de-Rosa, que deu lugar aos populismos que liquidaram a Monarquia Constitucional. Não há nada que moralizar: o colonialismo foi fruto duma época e os soldados chamados a defenderem as colónias, fosse em Portugal ou em França, foram heróis nacionais.
Concluindo: a virtude deste debate foi o olhar para a história recente de Portugal sem preconceitos ou tabus. Mal anda um regime se, passados 50 anos, ainda receia ver-se ao espelho e necessita de diabolizar o passado para se justificar. Há que tirar definitivamente os esqueletos do armário.
Mais um debate da treta entre dois socialistas.
ResponderEliminarMentiras, manipulação, demagogia, farsa, cinismo, hipocrisia, imoralidade, etc.
Pacheco Pereira é licenciado em Filosofia. Escreve sobre História mas isso até a Luísa Sobral e a Isabel Stiwell escreveram, "romances históricos".
ResponderEliminarA História é o que foi, Luzes a Sombras, coisas que nos devem fazer sentir orgulhosos (e felizmente não faltam) outras nem tanto.
ResponderEliminarO que se chama Colonialismo - e no caso Português parece-me, foi muito mais que simples Colonialismo - foi um movimento histórico imparável.
O Colonialismo digam certos tristes, o que disserem, foi um ímpeto civilizacional que varreu e arejou vastas áreas trazendo-as da Idade da Pedra para o Nosso Tempo.
É evidente, e isso parece ser uma constante na História, nem tudo foi bonito. Mas se perguntarem aos Povos envolvidos se querem voltar ao antes, a resposta parece evidente
ResponderEliminar“
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ResponderEliminarPara já não falar da Ponte depois rebaptizada "25 de Abril", Hospital St Maria e mais um par de coisas de igual quilate e que o Pais deve ao anterior Regime, á Ditadura, Salazarismo ou Estado Novo como então se chamava.
ResponderEliminarPode-se não gostar mas a História é o que foi e o velho António Oliveira em vez de meter o dinheiro ao bolso, fez Obras que ficaram e estruturaram o País
abandono dos portugueses que viviam em África e regresso em condições deploráveis:
ResponderEliminarporque mataram Amaro da Costa?
não existiu prec
ResponderEliminarLembro-me de um tempo em que as Ruas do Funchal eram varridas e lavadas.
ResponderEliminarUm carro Tanque avançava lentamente, ladeado por equipas de homens que com mangueiras e vassouras, removiam lixo, flores, folhas (era rara a Rua que não tivesse uma cobertura de árvores), etc
Não sei como é agora mas penso que não será muito diferente
Não deve ter vivido esse tempo. Corrupção em concursos públicos - como o cambão divulgado na 3ª ponte sobre o Tejo e adivinhado em várias autoestradas - luvas em contratos públicos, isso praticamente não existia e é o dia a dia de hoje. À medida que Salazar envelheceu, começaram a acontecer "habilidades" sobretudo em empresas que na prática eram monopólios, como as Construções Hospitalares e as Construções Escolares. E, a propósito de escolas, cunhas e favorecimentos sempre houve mas nunca ouvi falar de alguém licenciado por correspondência, ou aprovado em exame num Domingo.
ResponderEliminarJá com Salazar doente, começou a aparecer corrupção ligada à construção civil, sobretudo em zonas turísticas mas, mesmo assim, nada que se aproximasse de Motas-Engil ou Lenas.
E semelhante podia dizer dos autarcas, onde a corrupção era uma excepção e o sacrifício a regra. Ganhavam mal, não raro utilizavam a viatura própria sem contrapartidas e aguentavam o tempo de um mandato. Apenas, porque, contactados por um dirigente da União Nacional que lhes dizia "o senhor não pode recusar esse serviço à população" e não tinham coragem de recusar.
Tudo mudou e não se podem comparar as exigências desse tempo com as actuais mas a minha percepção é que, entre ordenados, mordomias (como os agora badalados almoços de serviço com marisco) subsídios e assessores, a despesa será, mesmo proporcionalmente, muitas vezes maior e a qualidade da gestão municipal não reflecte esse aumento de custo.
Sinto pena de ver o João Távora a alinhar nessas conversas da treta.
Bom senso, honestidade intelectual, experiência de vida e abertura de espírito.
ResponderEliminarAuge vem nos dicionários…
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ResponderEliminarIsto é o que se chama "por ouvir dizer"
Mas na altura circulou que tinha sido por causa da venda das G3 !!