quarta-feira, 15 de abril de 2026

Uma cegueira incurável

"a relativização dos crimes, da repressão e do atraso a que nos condenou o Estado Novo", é o que seria de esperar e terá acontecido no debate entre Pacheco Pereira e André Ventura, a julgar pelo que diz Pedro Adão e Silva.


Não vi o debate, não tive mesmo curiosidade em o ver, mas tenho lido o que se vai escrevendo sobre o debate e não tinha intenção de contribuir para isso por nem sequer querer ir ver o debate, mas tropecei na frase que cito no princípio e, independentemente do que aconteceu no debate, pareceu-me um luminoso exemplo da cegueira incurável que a esquerda tem cultivado nos últimos 50 anos.


Porque não houve crimes, repressão e atraso no Estado Novo?


Não, porque tendo havido tudo isso, a esquerda se entretém a manipular a dimensão e natureza desses aspectos para obter ganhos de causa políticos que a desresponsabilizam de governar mal e ter maus resultados.


O Estado Novo foi uma ditadura, ilegítima como todas as ditaduras, e com repressão, censura, perseguição de adversários políticos e essas coisas todas que caracterizam uma ditadura.


Mas, ao contrário do que pretende a esquerda, não foi "uma longa noite fascista", foi uma ditadura relativamente branda na repressão e perseguição dos adversários quando comparada com outras ditaduras - as ditaduras não são todas iguais, a teocracia iraniana é incomparavelmente mais selvagem que o Estado Novo, por exemplo - e, mais difícil de engolir, teve uma razoável aceitação por parte da generalidade da população.


A repressão, que existiu e foi severa em relação a grupos muito restritos de oposicionistas, em especial, em relação aos membros activos do partido comunista, foi tão branda que muitos oposicionistas eram simplesmente exilados para as colónias, mantendo uma actividade razoavelmente normal.


Alguns, como José Afonso (que, note-se, nunca foi exilado e não esteve preso mais de vinte dias) ou, provavelmente mais significativo dado o seu percurso, Firmiano Cansado Gonçalves, não foram exilados, mas foram voluntariamente para Moçambique, onde foram professores apesar das suas conhecidas ideias políticas (José Afonso, mais tarde, seria expulso do ensino oficial, quando dava aulas em Setúbal), o último no liceu Salazar, o mais burguês dos liceus de Moçambique, apesar do serem públicas e notórias as suas convicções políticas (Cansado Gonçalves saiu do PCP, onde tinha sido dirigente de topo durante os anos 30, nos anos 40, acusado de um monte de coisas, como era habitual nas guerras intestinas dentro dos partidos comunistas, mas nunca deixou de ser comunista, de resto, tendo-se reformado em 1973, foi convidado por antigos alunos, já dirigentes da Frelimo, para dar aulas na Universidade em Moçambique, depois da independência).


O que acontece é que a esquerda precisa de pintar um ponto de partida muito mais negro que o que de facto existiu, para legitimar as suas opções posteriores, desvalorizando, isso sim, os erros, a má gestão e a indignidade de algumas das decisões que decorreram do 25 de Abril, em especial o abandono de soldados portugueses por serem de origem africana, com o que isso significou de mortes, prisões, torturas para as pessoas envolvidas.


Que a esquerda não perceba que tentar manter, contra toda a evidência, a conversa de que o atraso português decorre do Estado Novo (onde se verifica o período de maior crescimento económico dos últimos 200 anos), ou o mito da grande repressão que se abateu sobre um povo sedento de liberdade, ou ainda que tudo o que decorreu do 25 de Abril, incluindo a descolonização, foi perfeito, não serve para defender a superioridade moral da democracia face à ditadura, apenas serve para descredibilizar a esquerda que se entretém a manipular a história para tentar obter ganhos políticos, é uma coisa que não compreendo.


E, pelos vistos, a esquerda também não percebe e por isso continua "caindo, caindo, caindo, caindo sempre, e sempre, ininterruptamente, na razão directa do quadrado dos tempos.", para citar outro notório oposicionista que sempre foi um respeitado professor num dos mais elitistas e selectos liceus do regime, o Pedro Nunes, independentemente da sua evidente distância ao regime.

18 comentários:

  1. aparece sempre um anão a falar do que lhe convém. vivo na ''longa noite antifascista ou social fascista.
    factos contra o 25:
    destruição da atividade industrial
    prisões sem motivos: Quito ao chegar a uma delas  exclamou ''finalmente compreendo o que é a reação em cadeia''

    ResponderEliminar
  2. O avô materno do Dr. Pedro Adão e Silva foi um opositor público do regime durante toda a "longa noite fascista", participa, nos anos 40, na fundação da União Socialista, do MUNAF, e do MUD, foi candidato da oposição nas eleições de 53, 65 e 69, e estava bem vivo quando o regime caiu (faleceu em 1993). Apesar disso, em quatro décadas de oposição pública à ditadura, esteve menos tempo preso, por razões políticas, do que o Artur Agostinho, esse feroz terrorista, que passou 3 meses em Caxias depois do 28 de Setembro de 1974 (uma bagatela, comparada com os 14 meses do viperino jornalista Manuel Maria Múrias, que só foi solto em Dezembro de 1975) - e que, ao contrário do Dr. Armando Adão e Silva, teve de se exilar para poder viver descansado e trabalhar. Comparar as duas coisas é, obviamente, "dúplice" e faz de mim um fascista contumaz, e quem não concordar com esta qualificação é, obviamente, apoiante do Chega. 

    ResponderEliminar
  3. Cansado Gonçalves foi meu professor no Liceu Salazar, pessoa excepcional na dimensão intelectual e humana.

    ResponderEliminar
  4. A A e S foi Amigo de familiares meus. facilitou a fundação da 1ª AD da qual foi deputado. o neto do Avô só tem o nome.

    ResponderEliminar
  5. Na realidade, o neto chama-se Pedro Adão e Silva Cardoso Pereira. E pronto.

    ResponderEliminar
  6. Portugal merecia uma Esquerda e aq ui falo do PS, menos pechisbeque e menos tonta, que fizesse outra coisa além de promover o Chega.

    ResponderEliminar
  7. Não viu o debate, porque, objectivamente, não quis. Mas comenta os comentários sobre o mesmo. A “longa noite fascista” ainda obscurece os caminhos da razão, cinquenta e dois anos depois. E os métodos não mudaram. Evolução na continuidade. 

    ResponderEliminar
  8. Sim, é o que digo no texto, não vi o debate porque não quis nem tenho nenhum interesse nele.
    E comentei uma frase sobre o debate, não pelo que ela diz sobre o debate, mas porque me pareceu, em si mesma, uma frase interessante.
    Qual é mesmo a sua questão, que confesso que não percebi?

    ResponderEliminar
  9. Excelente argumentação, assertividade habitual, até ao "mas"... porquê um mas? Há que manter reconhecida coerência intelectual.

    ResponderEliminar
  10. Outra fábula usual: em 1974 o analfabetismo era de 25% a 30%. Mentira? Claro que não. Mas "esquece" que em 1910 (início da 1ª República) era de 70% e em 1926 (fim da mesma) entre 60% a 65%.

    ResponderEliminar
  11. o pai é ''artista de plástico''. Vera, sua Mãe, era a filha mais nova.

    ResponderEliminar
  12. Concordo em absoluto.


    Acrescento só que o "Jornalismo de Referência" é o grande Truque.

    ResponderEliminar
  13. A comparação do Estado Novo com outras ditaduras, a começar pelos vizinhos do lado, leva-me a considerar o Estado Novo mais como um regime autoritário do que como uma ditadura.
    É um facto que o artº 8º da Constituição de 1933 não era cumprido mas, como diz HPS apenas em relação a uma minoria específica (o que me merece a opinião, muito tardia, confesso, que, dado o que essa minoria fez no PREC, até nisso Salazar tinha razão).
    Também se vilipendia a Câmara Corporativa mas os seus pareceres foram sempre melhorando de qualidade e já começavam a incluir preocupações sociais. Comparando essa Câmara com a actual Assembleia Nacional; ou, melhor ainda com a Concertação Social em que Sindicatos representando entre 7 a 14% dos trabalhadores e obedecendo a partidos que no conjunto andam por 25% do eleitorado que vota; ou pior ainda com a desbragada defesa corporativa dos seus membros, à custa do cidadão comum, praticada pela miríade de Ordens hoje existentes, a comparação é esmagadoramente a favor do regime anterior.
    N.B.- O Regime anterior começou com uma Ditadura Militar mas evoluíu para um regime pessoalista. Era o Salazarismo e mais nada. Nem Salazar, que o sabia bem, deixou que alguma vez preparassem ou discutissem a sua sucessão e, com Caetano, o regime já não era viável e se durou meia dúzia de anos foi por que ninguém teve a coragem de o pôr em causa. Quando caiu, não havia ninguém para o defender. Estava esgotado.
    Por isso, quando comparo o Estado Novo com o actual regime, nem é saudosismo nem muito menos o desejo de o recriar. O Estado Novo morreu, só que não era imperativo que mudasse para pior.

    ResponderEliminar
  14. Inteiramente de acordo.


    Basicamente o chamado Anterior Regime, também Salazarismo, herdou um País em cacos, formalmente uma Ditadura na prática não o era, pela simples razão de que não precisava.


    Foi preocupação e cuidado também, de Oliveira Salazar desde o Princípio, 
    que o passo  
    nunca fosse maior que a perna" hierarquizado cuidadosamente as necessidades e faltas a que ocorrer com os escassos recursos ao dispor.


    Insistiu que a "Restauração" do País não precisava de financiamento externo, e não precisou, tendo-o orgulhosamente recusado, quando Bancos Britânicos o vieram oferecer.


    Lançou mais tarde, os Planos de Fomento que criaram as bases do País como ainda hoje é e empenhou-se no Desenvolvimento das Colónias que passaram ao Estatuto de Províncias.


    É difícil perceber porque a Esquerda insiste na abstrusa ideia de denegrir a obra do Estado Novo e apoucar a sua Principal Figura 


    É uma coisa miserável, pequenina e sobretudo tonta.


    E é tonta tristemente tonta, 


    porque a História tem a mania de fazer, tarde ou cedo, a verdade vir ao de Cima.


    E vem sempre.

    ResponderEliminar
  15. Realmente..."não vi, não ouvi, mas tenho uma opinião vincada sobre o que me contaram". Adoro. E o conceito de "ditadura relativamente branda", então é de um humanismo comovente. 


    Com que então o "período de maior crescimento dos últimos 200 anos". Estávamos a crescer tanto que metade da população decidiu emigrar em massa dentro de malas de cartão só para dar oportunidade aos outros de terem mais espaço.


    Éramos mesmo o país mais rico do mundo, desde que não contassem com o saneamento básico, a mortalidade infantil ou o facto de ler um livro ser considerado um desporto de alto risco. 


    É claro que a esquerda manipula. Toda a gente sabe que a liberdade, a democracia e o fim da guerra colonial foram apenas um golpe de marketing para os gajos do PCP poderem vender bonés.


    E é verdade que o 25 de Abril trouxe "erros e má gestão". Parece que antes do 25 de Abril não havia erros, se calhar porque não havia ninguém autorizado a apontá-los sem acabar com os dentes no chão de uma sala de interrogatórios. É muito fácil não ter má gestão quando o relatório de contas é escrito pelo gajo que manda prender o auditor.


    Sim, estamos a "cair, caindo". Mas olha, ao menos agora podemos escolher quem nos empurra, em vez de termos um "avôzinho" de Santa Comba Dão a escolher por nós. 


    De toda a maneira parabéns pelo texto. Acho que está ao nível de um folheto turístico da Coreia do Norte escrito por um estagiário da Fox News.

    ResponderEliminar
  16. Afinal, estamos os dois de acordo. Tem como método tirar ilações do “diz que disse”. Porque lhe parece interessante. Muito bem, isto é, muito torcido. E obscuro.

    ResponderEliminar

No centenário da "Revolução Nacional"

  Em 1915, um obscuro periódico provinciano, " Os Ridículos ", preconizava acerca da República, que dizia encontrar-se « no seu es...