terça-feira, 14 de abril de 2026

Esqueletos no armário

PP e AV.jpg


Apenas um curto comentário ao debate entre André Ventura e Pacheco Pereira: Ventura poderia ter ganho a disputa de forma invicta se se tivesse cingido ao argumento de que o 25 de Abril não trouxe apenas cravos e rosas, mas deu lugar ao prenúncio de um regime que seria bem mais repressivo do que o Estado Novo. No auge do PREC, no continente, registaram-se quase dez vezes mais presos políticos do que no final do regime anterior. Além disso, a fazer-se uma comparação que inclua o contexto ultramarino, os presos do Estado Novo teriam de ser comparados com as posteriores detenções e execuções sumárias ordenadas pelos movimentos independentistas durante o processo de descolonização às quais Portugal fechou os olhos e virou as costas.


De resto, não faz sentido Ventura pretender relativizar a malignidade da persistência de uma ditadura face a um sistema parlamentar liberal, com liberdades cívicas, eleições livres e rotatividade no poder sem sangue ou violência. São questões de princípio, não de estatísticas de corrupção ou de outra ordem.


No que diz respeito à questão da corrupção execrada por Ventura (e por toda a gente), convém lembrar que, ao tempo do Estado Novo, o exercício do poder servia para distribuição de cunhas e lugares aos "amigos" — algo que hoje chamamos precisamente de corrupção. Pretender que a corrupção é um fenómeno exclusivo da democracia é um erro: trata-se da natureza humana, e hoje temos muito mais consciência disso do que no tempo de Salazar. Actualmente, o tema já não é tabu; pelo contrário, é profusamente explorado na disputa política e na comunicação social. De nada me consola o facto do ditador nunca ter tirado proveito pessoal directo disso.


Também esteve mal Pacheco Pereira ao relativizar o terrorismo de extrema-esquerda que emergiu em Portugal na democracia; este fenómeno denuncia as suas origens políticas maoistas, ainda não completamente resolvidas. Finalmente, o seu anticolonialismo é pouco menos que infantil. Se ele é um historiador, não o parece: finge desconhecer a emergência da moda do colonialismo em toda a Europa no século XIX, que em Portugal teve particular incidência na 1.ª República. Tal como as restantes nações ocidentais, o nosso país tentou preservar e expandir as suas possessões — lembremo-nos da crise do Mapa Cor-de-Rosa, que deu lugar aos populismos que liquidaram a Monarquia Constitucional. Não há nada que moralizar: o colonialismo foi fruto duma época e os soldados chamados a defenderem as colónias, fosse em Portugal ou em França, foram heróis nacionais.


Concluindo: a virtude deste debate foi o olhar para a história recente de Portugal sem preconceitos ou tabus. Mal anda um regime se, passados 50 anos, ainda receia ver-se ao espelho e necessita de diabolizar o passado para se justificar. Há que tirar definitivamente os esqueletos do armário. 

14 comentários:

  1. Mais um debate da treta entre dois socialistas.
    Mentiras, manipulação, demagogia, farsa, cinismo, hipocrisia, imoralidade, etc.

    ResponderEliminar
  2. Pacheco Pereira é licenciado em Filosofia. Escreve sobre História mas isso até a Luísa Sobral e a Isabel Stiwell escreveram, "romances históricos".

    ResponderEliminar
  3. A História é o que foi, Luzes a Sombras, coisas que nos devem fazer sentir orgulhosos (e felizmente não faltam) outras nem tanto.


    O que se chama Colonialismo - e no caso Português parece-me, foi muito mais que simples Colonialismo - foi um movimento histórico imparável.


    O Colonialismo digam certos tristes, o que disserem, foi um ímpeto civilizacional que varreu e arejou vastas áreas trazendo-as da Idade da Pedra para o Nosso Tempo.


    É evidente, e isso parece ser uma constante na História, nem tudo foi bonito. Mas se perguntarem aos Povos envolvidos se querem voltar ao antes, a resposta parece evidente 

    ResponderEliminar
  4. Para já não falar da Ponte depois rebaptizada "25 de Abril", Hospital St Maria e mais um par de coisas de igual quilate e que o Pais deve ao anterior Regime, á Ditadura, Salazarismo ou Estado Novo como então se chamava.


    Pode-se não gostar mas a História é o que foi e o velho António Oliveira em vez de meter o dinheiro ao bolso, fez Obras que ficaram e estruturaram o País 

    ResponderEliminar
  5. abandono dos portugueses que viviam em África e regresso em condições deploráveis:
    porque mataram Amaro da Costa?

    ResponderEliminar
  6. Lembro-me de um tempo em que as Ruas do Funchal eram varridas e lavadas.


    Um carro Tanque avançava lentamente, ladeado por equipas de homens que com mangueiras e vassouras, removiam lixo, flores, folhas (era rara a Rua que não tivesse uma cobertura de árvores), etc


    Não sei como é agora mas penso que não será muito diferente 

    ResponderEliminar
  7. Não deve ter vivido esse tempo. Corrupção em concursos públicos - como o cambão divulgado na 3ª ponte sobre o Tejo e adivinhado em várias autoestradas - luvas em contratos públicos, isso praticamente não existia e é o dia a dia de hoje. À medida que Salazar envelheceu, começaram a acontecer "habilidades" sobretudo em empresas que na prática eram monopólios, como as Construções Hospitalares e as Construções Escolares. E, a propósito de escolas, cunhas e favorecimentos sempre houve mas nunca ouvi falar de alguém licenciado por correspondência, ou aprovado em exame num Domingo.
    Já com Salazar doente, começou a aparecer corrupção ligada à construção civil, sobretudo em zonas turísticas mas, mesmo assim, nada que se aproximasse de Motas-Engil ou Lenas.
    E semelhante podia dizer dos autarcas, onde a corrupção era uma excepção e o sacrifício a regra. Ganhavam mal, não raro utilizavam a viatura própria sem contrapartidas e aguentavam o tempo de um mandato. Apenas, porque, contactados por um dirigente da União Nacional que lhes dizia "o senhor não pode recusar esse serviço à população" e não tinham coragem de recusar.
    Tudo mudou e não se podem comparar as exigências desse tempo com as actuais mas a minha percepção é que, entre ordenados, mordomias (como os agora badalados almoços de serviço com marisco) subsídios e assessores, a despesa será, mesmo proporcionalmente, muitas vezes maior e a qualidade da gestão municipal não reflecte esse aumento de custo.
    Sinto pena de ver o João Távora a alinhar nessas conversas da treta.

    ResponderEliminar
  8. Bom senso, honestidade intelectual, experiência de vida e abertura de espírito.

    ResponderEliminar
  9. Auge vem nos dicionários…

    ResponderEliminar

  10. Isto é o que se chama "por ouvir dizer" 


    Mas na altura circulou que tinha sido por causa da venda das G3 !!

    ResponderEliminar

No centenário da "Revolução Nacional"

  Em 1915, um obscuro periódico provinciano, " Os Ridículos ", preconizava acerca da República, que dizia encontrar-se « no seu es...