Uma das indignações destes últimos dois dias nasce de uma notícia da Lusa (esquerdista, anti-clerical e demagógica, como é costume) que foi adoptada por liberais que, habitualmente, são menos demagógicos que a Lusa, sobre o facto de haver dois tipos de refeições nos Salesianos de Manique, segmentadas em função dos alunos pagarem mensalidades ou estarem na escola por via dos contratos de associação.
A questão moral é séria: é inaceitável que alunos da mesma escola sejam segmentados na cantina, havendo dois níveis de serviço de refeições em função da origem dos alunos.
Comecemos por esclarecer que se é certo que é preciso ser de classe média/ alta para pagar umas centenas de euros por mês de propinas da escola, não é preciso ser pobre para estar no grupo dos alunos dos contratos de associação, estes contratos não são apoios sociais, são contratos que o Estado estabelece para que privados garantam o acesso ao ensino a alunos que não têm escolas estatais disponíveis.
Acontece que o Estado, como desconfia dos privados, em vez de se limitar a pagar um valor concreto por um serviço concreto, deixando ao privado a gestão desses recursos e cabendo ao Estado a verificação de que não há segmentação dos alunos em função da origem, inventa um conjunto de regras que as escolas têm de cumprir para que, na visão do Estado, a igualdade seja garantida.
Passemos por cima do facto de que tratar de forma igual o que é diferente, é injusto, e avaliemos então o dilema moral da escola quando os recursos que o Estado disponibiliza são curtos para manter o nível de qualidade do serviço da cantina, e as regras impedem que a nivelação seja feita por cima.
Depois das várias discussões em que me envolvi, nomeadamente com quem tenho, habitualmente, pontos de vista comuns, percebi que a principal divergência estava nos pressupostos, e não na avaliação moral da situação.
Para boa parte das pessoas que se indignaram com as opções da escola dos Salesianos, a escola tinha três opções:
1) a que adoptou, segmentar o acesso dos alunos por níveis de serviço da cantina, o que é moralmente indefensável;
2) a que poderia adoptar, de acordo com toda a gente, que seria retirar-se dos contratos de associação, de que resultaria um maior prejuízo para os excluídos, na medida em que perdiam o essencial, isto é, o acesso à qualidade de ensino e à rede social que a escola proporciona, o que é moralmente pior que a primeira opção;
3) a terceira, sobre a qual existem divergências, que seria suportar os prejuízos de manter o acesso igual dos alunos ao serviço da cantina, enquanto negociava com o Estado a alteração das regras que geram a situação actual, moralmente indefensável.
A divergência é que para alguns a escola (ou os seus proprietários) têm recursos para aguentar os prejuízos até o Estado reconhecer que precisa de alterar as regras, para outros, nos quais me incluo, não me parece que seja assim e não há razão nenhuma para esperar bom senso de um Estado que, por razões ideológicas, não só gasta menos por aluno com contratos de associação que com alunos em escolas estatais, como ainda tem uma política deliberada de extinção, ou redução à mínima expressão, destes contratos de associação.
Para estes, nos quais me incluo, nem sequer é linear que as regras existentes não resultem de incompetência de gestão (o que se espera sempre que possa ser resolvido) mas sim de uma opção deliberada de limitar os contratos de associação e empurrar os privados para fora do sistema (diga-se de passagem, foi exactamente o que o Estado fez nas PPP da saúde, permitindo que, cinicamente, os responsáveis políticos argumentassem que foram os privados que não quiseram manter os contratos que tinham.
O problema das refeições escolares não é especificamente português, é um dos problemas resultantes de transferir para o Estado tarefas que, durante centenas de anos, couberam às famílias e às comunidades.
Se em minha casa eu resolver aproveitar os restos para fazer o prato seguinte, isso é comigo, mas as regras de serviço público de refeições (dentro e fora da escola) tendem a gerar situações de maior desperdício alimentar e de muito maior custo, apesar da maior eficiência na produção de refeições.
No caso das refeições escolares, há um equilíbrio muito difícil de obter entre custo das refeições, qualidade e diversidade das refeições, aceitação por parte dos alunos e famílias e inclusão de critérios nutricionais e de sustentabilidade ambiental.
Se é certo que nas escolas estatais há, em Portugal, uma razoável qualidade nutricional das refeições, também é certo que a satisfação com esse serviço é de mais de 70% nos estabelecimentos privados e menos de 40% nas escolas estatais, dando origem a uma enorme variedade de uso da cantina por parte dos estudantes, o que calculo que esteja relacionado com a qualidade do serviço (melhores cozinheiros dão origem a maior uso) e com as alternativas (escolas que não são longe de casa e têm dezenas de estabelecimentos comerciais de baixo preço nas envolventes, geram menores utilizações da cantina, escolas que servem aldeias distantes e em que as famílias entregam menos dinheiro aos alunos, geram maiores utilizações, dificilmente se passando dos dois terços, nos melhores casos de escolas estatais, e podem chegar ao um terço nos piores casos, diria eu).
Se quereis saber, pôr a discussão no julgamento moral de quem tem de gerir um sistema complexo em que o Estado complica em vez de simplificar, com eterna desconfiança em relação aos privados, e com uma imprensa viciada em ressentimento social, não me parece que nos leve a lado nenhum melhor que a situação que temos.
Ou fazemos a discussão partindo do ponto de vista dos alunos que pertencem a famílias que hoje não têm escolha, ou o Estado vai continuar a usar o ressentimento social para cumprir a sua função histórica de defender os interesses das classes dominantes.
social-fascismo ou ''estado paizinho'' tornou-se ''estado ladrão''.
ResponderEliminarcomo maior empregador, há neste estado milhares de burocratas inúteis
Li que o Estado paga €1,46 por cada refeição. Se for verdade é muito inferior ao preço real
ResponderEliminarTodo o Ensino, do Primário ao último grau Universitário, deveria ser Público e isto incluí coisas conexas, como Cantinas, equipamentos, material escolar (compêndios, livros, etc), uniformes, etc.
ResponderEliminarE quem gostasse muito bem, aqueles para quem mesmo dado tem sempre defeito, fossem chatear a tia.
Acabavam num instante as confusões e mal entendidos
O que é que você quer dizer com "deveria ser Público" ? Público no sentido em que o café da terra está aberto ao público ?
ResponderEliminar"Todo o Ensino, do Primário ao último grau Universitário, deveria ser Público e isto incluí coisas conexas"
ResponderEliminarIsso implicaria a Nacionalização de toda a economia portuguesa.
Posso estar enganado mas a actual UE (União Europeia) continua a ser uma CEE (Comunidade Económica Europeia).
Na prática como é que funcionaria esse ensino público/nacionalizado, com alimentos produzidos localmente (nacionalização da agricultura) e com os uniformes/vestuário produzidos em fábricas locais?
Caro Pedro Oliveira
ResponderEliminarSabe muito bem o que eu disse
Público no sentido de o Programa de Ensino tutelado pelo estado, com Técnicos Contratados a Avalizados pelo Estado em Edifícios do Estado ou por ele disponibilizados.
ResponderEliminarPúblico no sentido de haver Competência, Ordem, Bom Senso e já agora um mínimo decência e fim da bagunça.
Sei?
ResponderEliminarAquilo que percebi era que queria os negócios privados fora da Educação e "coisas conexas". Temos de ser consistentes com aquilo que pretendemos.
A sério que "s
ResponderEliminarExcelente comentário, Pedro Oliveira.
ResponderEliminarEstes xuxalistas nem as pensam...
Ensino devia ser privado, o mercado determina oferta consoante a procura. E a qualidade seria maior, com menores custos.
Pois ele sabe o que V. disse mas ninguém percebe o que quis dizer.
ResponderEliminarDado que a sua teoria é do domínio da poesia, talvez pô-la na forma de poema.
Ao Estado cabe assegurar a saúde e a educação. Assim, não devia fazer nenhum contrato com particulares, investindo esse dinheiro no que é público, onde todos cabem. Quem quiser colégios ou hospitais privados, paga-os.
ResponderEliminarExcepto a parte dos uniformes, isso é o que já existe.
ResponderEliminarAcabava isso e transformava se numa CP: greves, tudo a cair de podre e língua de pau dos ricos a bater no peito pela escola pública enquanto seus filhos estudam no colégio alemão
ResponderEliminarNão é uma questão moral, a não ser para um colégio que é católico, mas, pelos vistos, não é cristão. É uma questão política e, como tal, ética. Como é possível que as chefias, professores, pessoal auxiliar cumpram a função de educadores sendo responsáveis, uns, complacentes, outros, com esta situação? O lucro não justifica tudo.
ResponderEliminarExcepto os uniformes, isso é o que já existe.
ResponderEliminarMas a diferença de refeições existe há anos (pelo menos 5, tantos quantos o meu neto lá andou) e só agora é que a Lusa soube do facto... deve ter um netinho "pobrezinho" a estudar em Manique...
ResponderEliminar"Quem quiser colégios ou hospitais privados, paga-os"
ResponderEliminarNa realidade quem utiliza os colégios e os hospitais privados paga-os duas vezes. A primeira em forma de impostos para os "pobrezinhos" estudarem ou serem tratados/medicados de borla (lembro o caso de Nuno Markl) a segunda pagando os custos das mensalidades nos colégios ou dos tratamentos no privado.
Importa-se de explicar como é que "o mercado determina a oferta consoante a procura".
ResponderEliminarDesde já agradeço
Mas isso, é bem de ver, não tem mal nenhum.
ResponderEliminarO Estado disponibiliza Bens Sociais para todos, em igualdade de circunstâncias (e não são á borla. São pagos com o dinheiro dos Impostos).
Se alguém não gosta ou acha que consegue melhor numa Instituição Privada, pois faça favor.
Claro que terá de pagar. Mas também o que mais faltava é que o Estado depois de disponibilizar ensino para todos tivesse de disponibilizar Serviços ou Cuidados para os que acham ter direito a uma coisa especial aparte.
Francamente não vejo onde possa estar a complicação
Totalmente de acordo
ResponderEliminarCumprimentos
ResponderEliminarfoi exactamente o que o Estado fez nas PPP da saúde
Mais precisamente, as PPP na gestão de hospitais públicos.
Porque as PPP da saúde continuam a existir! Ainda ontem fui fazer mais um exame médico, totalmente financiado pelo SNS (eu não paguei um tostão), numa instituição privada (a Joaquim Chaves Saúde). Pude presenciar a presença nela, por exemplo, de um utente cigano, que certamente não estava lá (tal como eu) a pagar do bolso dele.
Qual a solução justa a dar à questão?
ResponderEliminari) o Estado paga o que quer pela refeição dos estudantes que estudam na instituição ao abrigo do contrato de associação e a escola escolhe "nacionalizar" a diferença e imputa-a nas mensalidades daqueles que pagam propina e o valor total da refeição, pagando estes duas vezes um sistema de que não beneficiam (via propina e orçamento de estado);
ii) o Estado paga o que quer pela refeição dos estudantes que estudam na instituição ao abrigo do contrato de associação e a escola paga a diferença para que os alunos tenham todos uma refeição igual (a melhor e mais cara);
iii) o Estado paga o que quer pela refeição dos estudantes que estudam na instituição ao abrigo do contrato de associação e a escola opta por não fornecer refeições melhores e todas são iguais (as piores e mais baratas);
iv) o Estado paga um valor justo por uma refeição decente e todos os alunos comem a mesma refeição (por exemplo, gastando o mesmo por aluno que gasta nas escolas públicas);
E qual a solução moral?
E deixe-me discordar desta frase: "(...)
Pergunta à tua mãezinha como é que se gere uma cozinha.
ResponderEliminarHavias de ter pago a dobrar.
ResponderEliminarSe não quiserem pagar duas vezes, podem, sempre, utilizar os serviços públicos, onde vão os "pobrezinhos", que não são mais nem menos do que os ricos.
ResponderEliminarPela linguagem, nota-se que teve uma educação aprimorada, provavelmente andou num colégio privado. Mas deve ter passado fome.
ResponderEliminarA Lusa soube do facto porque encarregados de educação o denunciaram. Sentiram-se mal com a coisa, ao contrário do sr.
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ResponderEliminarSe o estado paga menos pela cantina que os pais o que é moralmente defensável é precisamente existir serviços diferenciados.
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ResponderEliminarO dobro do zero é.....?
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ResponderEliminarEu explicava-lhe …
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