Escrevi no título "passista" e não "Passos" porque não sei o que Passos pensa e gostaria de escrever sobre o equívoco de um conjunto de pessoas que, por facilidade de catalogação, se podem identificar como passistas, mesmo que Passos não tenha nada com isso.
Esse conjunto de pessoas estão convencidas de que existe uma maioria (nalguns casos acham mesmo que essa maioria é esmagadora) que quer fazer reformas no país, o que só não acontece pela cobardia, fragilidade e outras deficiências de carácter dos políticos que governam.
Um dos grandes fundamentos desse ponto de vista é a esmagadora maioria de direita e o crescimento impressionante do Chega que, desse ponto de vista, indiciam uma grande vontade de mudança.
Acho que há um grande equívoco quando se pensa que a forte votação do Chega tem alguma relação com vontade de mudança.
Boa parte do eleitorado do Chega, e boa parte da comunicação e da actuação do Chega, não tem qualquer relação com vontade de mudança no país para além da mudança dos que roubam há 50 anos.
A minha percepção é que boa parte do eleitorado do Chega quer mudanças no que os outros fazem, querem mudanças que impeçam os outros de mamar, de roubar, de serem corruptos, porque entendem que as suas dificuldades são maiores do que poderiam ser se não houvesse tanto gamanço e falta de vergonha por parte dos outros.
Mas quando se lhes pergunta se querem liberalizar o mercado de arrendamento, para termos um mercado de habitação mais funcional, nem pensar.
Se querem ter um mercado de trabalho mais flexível, com maior liberdade de contratação e despedimentos, nem pensar.
Se querem que se mexa a sério no sistema de pensões para gerir os graves problemas futuros que se podem prever, nem pensar.
Se querem que se deixe de taxar os ricos e a criação de riqueza, para atrair o capital que faz falta para modernizar a economia e aumentar salários, nem pensar.
Se querem que se aumente o papel dos privados e do lucro no sistema de saúde, nem pensar.
Se querem que a educação seja primariamente gerida pelas comunidades em detrimento da gestão centralizada de recursos do Estado, nem pensar.
O situacionismo tem muitas caras, o ressentimento social que, em grande parte, alimenta o Chega, é apenas uma dessas caras do situacionismo, não é a demonstração de nenhuma vontade de mudança.
Infelizmente, o campo reformista da sociedade continua a ser largamente minoritário e desproporcionalmente sub representado no jornalismo e nas estruturas partidárias, mesmo dos partidos que, em teoria, deveriam estar fortemente empenhados em mudanças.
E não me parece que isso vá mudar tão cedo, mudou temporariamente durante o período da troica porque o risco de suspensão de pagamentos por parte do Estado foi bem real para as pessoas, mas logo que António Costa apareceu com uma solução milagrosa para reforçar o situacionismo (um acordo parlamentar esquisito assente numa magia orçamental e fiscal em que se mudavam constrangimentos visíveis para constrangimentos invisíveis), o campo do situacionismo retomou a sua esmagadora influência na sociedade.
ResponderEliminarque a educação seja primariamente gerida pelas comunidades
Atenção que "as comunidades" não é o mesmo que "os municípios".
Municipalizar a educação leva, potencialmente, a que mais empregos possam ser oferecidos pelo presidente da Câmara.
"As comunidades" podem, por exemplo, ser representadas por gabinetes de educação diretamente eleitos pelo povo, como se faz (creio eu) nos EUA.
John Kenneth Galbraith escreveu, já há muitas décadas, um livro intitulado The Culture of Contentment (= A cultura da satisfação) que descrevia, precisamente, como numa sociedade em que a maioria das pessoas está, no fundo, satisfeita com o estatuto que alcançou, ninguém quer fazer mudanças.
ResponderEliminara esquerda e Chega são partidos de frustrados por várias razões.
ResponderEliminarontem Montenegro convidou PPC a concorrer às diretas de maio.
«DN 3 julho 2007. ''serviços de oncologia vão ser reorganizados''»
Net «
Absolutamente de acordo com o que escreveu. O Ventura mostrou-se embevecido e concordante com o discurso de Passos Coelho por oportunismo e puro tacticismo. Ele pretendeu apenas aproveitar-se das críticas do PPC à falta de ambição do governo e à sua falta de coragem para fazer as reformas de que o país precisa. E à "boleia" disso, Ventura viu aí a sua oportunidade de mostrar aos eleitores que este governo é uma espécie de continuador do imobilismo do A.Costa, ou seja, uma versão de socialismo mais aguado.
ResponderEliminarMas conhecemos a falta de coerência do A.Ventura: se tivesse de ser confrontado com reformas estruturais e as "tais" mudanças a sério _como passa a vida a reclamar _ claro que não estaria disponível para isso. Tem "faro" de sobra e percebe que seria muito arriscado eleitoralmente, sabendo que o país foge de reformas a "7 pés" e tende para a inécia e o conformismo..
Logo, sendo o Ventura um catch all , tem de agradar a gregos e troianos. Embora o Chega se auto-proclame de partido anti-sistema e contra o "stabblishment", o que é certo é que acaba sempre a votar ao lado do PS anti-reformista, o partido do imobilismo e dos "instalados" de sempre que nos trouxeram a este pântano!!! É esta a verdadeira natureza do Chega com todas as suas incoerências. Conhece bem demais este país bem "marcado" por 30 anos de socialismo!
Sabe-o o ele, Ventura, e sabe-o também o Montenegro. Este tem tanta certeza de que o país quer manter a paralisia do "situacionismo" e a "mesmice" de sempre, que até desafiou o Passos Coelho a candidatar-se à liderança do partido, nas directas do PSD em Maio. E é isto que há!
As mudanças e reformas que o Passos Coelho sublinhou como necessárias ao desenvolvimento e modernização do país, também vão depender da determinação e firmeza do CH para colaborar nelas em tempos vindouros (esperemos que em breve).
ResponderEliminarNão basta dizer alto e bom som que está de acordo com as propostas de PPC. Se assim é, então o Chega, a seu tempo, terá sobre os ombros essa responsabilidade de viabilizar as reformas que o Passos Coelho prescreve.
ResponderEliminarOs portugueses estão acomodados, sem ambição, habituaram-se a contentar-se com pouco e pior, como perderam a esperança, tornaram-se medrosos e desconfiados. Por isso a atitude é esta:
ResponderEliminar«mais vale asno que me leve do que cavalo que me derrube».
É difícil compreender uma certa fixação na ideia de Passos Coelho, ser uma espécie de Grande Chefe Salvador com Poderes Mágicos.
ResponderEliminarParece que na óptica dos crentes, em uma vez arribando ao Poder, lá se sentaria, distribuindo honras e riquezas pela Pátria Agradecida, desenvolvendo e modernizando o País em simultâneo.
Não faço ideia onde
ResponderEliminarfoi você buscar a ideia que "a esquerda e Chega são partidos de frustrados" mas já agora era de bom tom, se não for grande incomodo, que o demonstrasse.
Desde já agradeço 🙂
ResponderEliminarOs blogues estão a passar um imagem negativa dos portugueses. Publicam postais por tudo e por nada que depois servem para nada. Alguns parece não saberem que existe mais vida além da política e que não devem estar todos a fazer o mesmo. E preocupam-se com o país! Outros comentam e parece que andam brincar aos comentários. Claramente não é o meu caso. O que fazemos deve ter um objetivo prático. Não se deve comentar por ver os outros nem para ocupar o tempo livre. Não há união alguma. É o salva-se quem puder!
Se bem percebo a generalidade do eleitorado (este País), é imobilista, significando isso que está contente com a Situação (do País e o Eleitorado também) logo não havendo razões para mexer-se.
ResponderEliminarMas de seguida, classifica a situação de "... este pântano !!!
De onde; o Eleitorado gosta de viver num pântano !!!
É isso ??
Explorar "o ressentimento de muitos", significa dar voz a esses muitos, e insistir até a tornar audível e substantiva.
ResponderEliminarNesse sentido, e digam as Esquerdas e o jornalismo amigo, o que disserem, a atuação e desempenho do Chega, são indiscutivelmente inatacáveis e meritórios
Demérito para o Centro (PSD á cabeça) que por inépcia e etc., se colocaram na posição de serem apanhados com as calças na mão, mas isso é lá com eles...
Os Portugueses aprenderam á sua custa que muitas vezes é "a emenda pior que o Soneto" e aí faz todo o sentido o realismo prático de "mais vale asno que me leve do que cavalo que me derrube"
ResponderEliminarO Chega é um partido salazarengo e como tal oponente ao liberalismo. Mas há uma identificação entre Ventura e o ilustrado autor do post. Ambos querem andar para trás: um contenta-se com umas, já largas, dezenas de anos; o outro ganha escala e quer regressar à selvajaria capitalista do século XIX. No meio, é fácil encaixar o profundo pensamento político do reformatado Passos Coelho.
ResponderEliminarSim! É isso mesmo. Alguma dúvida?
ResponderEliminarÉ verdade. É por isso que os portugueses mais capazes, com formação ou sem ela, buscam outras paragens e abandonam o país. Os que cá ficam, serão ou não, capazes. Como, uma parte significativa dos portugueses residentes prefere asno seguro a cavalo arriscado, então estamos mesmo no caminho seguro da decadência.
ResponderEliminardo ódio aos ricos à conquista do poder.
ResponderEliminarna minha profissão conheço-os de ginjeira na Europa central e ocidental.
«os asnos agora têm 2 pernas e na maioria carecas». há os que sofrem de ''bronquite asnática''.c
ResponderEliminar«
ResponderEliminarLuciano e Apuleio tratam do 'Asno de ouro'
ResponderEliminarNenhuma
ResponderEliminarObrigado
Concordo com a análise, embora a ache exagerada. Talvez o erro seja meu por imaginar que há mais pessoas a pensar o mesmo mas eu quero mesmo reformas, sabendo muito bem que isso me vai entrar na carteira.
ResponderEliminarPassos, para mim, tem duas incógnitas, Primeiro entendo que ele foi brilhante a resolver o problema que o PS de Sócrates deixou mas que não teve oportunidade de mostrar o seu valor a gerir uma situação de crescimento. Segundo, como ele próprio experimentou, com esta Constituição e este Tribunal Constitucional não são possíveis as reformas necessárias que passam por algum esvaziamento do Estado, e não se sabe como seria ele a gerir um processo de rotura constitucional que exige, além da coragem que ele tem, sabedoria para o equilíbrio de evitar insuficiências ou excessos.
Mas há que começar por qualquer lado e a proposta de transformar a maioria social de direita numa maioria política de direita é o óbvio e imediato. A nomenclatura do PSD reagir - como o troglodita Hugo Soares - apenas repete o que aconteceu com Sá Carneiro e, tal como então, acredito que o eleitorado PSD o apoiaria contra os barões do partido.
Na verdade, a sua frase " ....
ResponderEliminarOlhar uma situação e tentar compreende-la não significa de forma alguma concordar ou "estar alinhado com a situação.
ResponderEliminarMuito menos estar "familiarizado com seja que práxis for".
Olhar uma situação e tentar compreende-la não é o mesmo que concordar com ela, ou estar familiarizado ou alinhado com, seja que tipo de práxis fôr.
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