Quando alguém quer fazer alguma coisa, quer fazer essa coisa.
E para a fazer, vai procurar os recursos de que precisa.
Para não falar do investimento financeiro em economia (eu tenho um capital e quero aplicá-lo de maneira a manter esse capital e a gerar rendimento para tratar da minha vidinha, o que inclui querer fazer coisas), falemos de uma casa.
Quando alguém procura casa (fora do investimento financeiro de que tratei acima), o que quer é ter um abrigo todos os dias.
E vai à procura de meios para conseguir ter o abrigo que quer, seja poupando, seja herdando, seja pedindo emprestado, enfim, qualquer coisa que permita ter o capital necessário para ter o abrigo de todos os dias.
O centro do esforço é o que acontece todos os dias.
E deveria ser assim sistematicamente, quem quer executar uma operação, vai à procura de capital para conseguir fazer essa operação nos termos que considera mais razoáveis e favoráveis para atingir os seus objectivos.
O Estado, e consequentemente, a classe política, não age inteiramente assim, e acaba a inverter a lógica do processo: tenho este dinheiro para gastar, agora vamos lá ver o que conseguimos inventar para isso.
Para o político, a operação é ganhar votos para aceder ao poder, o capital são as ideias e os apoios que lhe permitem aceder aos recursos de terceiros (dos contribuintes, para ser mais preciso).
O problema do político é que para ter mais recursos, tem de tirar mais dinheiro aos contribuintes, coisa que, de maneira geral, chateia os contribuintes e, consequentemente, os eleitores.
Excepto se tiver outros contribuintes que não contribuem para o seu acesso ao poder, e pagam investimentos de que as pessoas gostam, criando o melhor dos mundos para o político: aumentar o capital disponível, sem o custo político de tirar mais dinheiro aos potenciais eleitores.
Só que, nestas circunstâncias, o que é politicamente relevante é o investimento, a operação ser mais eficiente ou menos eficiente é uma questão menor, salvo raras excepções (a partir de certo nível de degradação, a operação na saúde e, mais mitigadamente, na educação, pode ter custo político).
O resultado global de um contínuo fluxo de disponibilidade de capital, sem grande correspondência com a necessidade operacional de coisas úteis, vai incentivando os políticos a maximizar o capital e minimizar a operação, o que acaba, por exemplo, no aumento de construção de estradas ou diques, mas na diminuição da sua manutenção.
Este é o ponto em que estamos e, parece-me, o erro de Passos Coelho: nem os políticos têm qualquer incentivo que os faça desviar da opção de investir, sem racionalidade operacional, nem os eleitores têm grandes incentivos para exigir que o trabalho de dona de casa, que não brilha, seja verdadeiramente eficiente, à custa da diminuição de investimentos que enchem o olho.
Não, não há maioria sociológica nenhuma a favor de reformas e outras perturbações, a esmagadora maioria do eleitorado até pode achar que há coisas que poderiam ser melhoradas, mas não valem o risco de perturbar a sua vidinha.
Aparentemente, o político mais útil, neste momento, não é o político que promete rupturas, como Milei, que só foi eleito porque a situação na Argentina se tinha degradado a um ponto que tornava o dia a dia insuportável, mas o político que consegue ir mudando aqui e ali, evitando rupturas excessivas.
E enquanto o critério político e jornalístico de discussão da coisa pública for a taxa de execução do PRR ou o nível de impostos dos outros países que conseguimos sacar para Portugal, não vejo como este contexto se tornará favorável a reformas que me parecem úteis e necessárias.
ainda não vi contabilizar o dinheiro desperdiçado relacionado com os fundos da UE.
ResponderEliminarpago mensalmente a prestação da casa onde resido. porque razão o estado paisinho saca a uns o que pode para dar casas a outros?
as reformas deviam ser feitas por saltos quânticos.
hoje nas tvs o mais importante reside na base das Lajes. já não se percebe o acordo.
"a maioria do eleitorado até pode achar que há coisas que poderiam ser melhoradas mas não valem o risco de perturbar a sua vidinha"
ResponderEliminarE também não vale o risco de mexer com o alinhamento, equilíbrio e dinâmica das coisas já que o gene Remendão é um dos dominantes do Sistema e a emenda, etc ...