sexta-feira, 6 de março de 2026

Desventuras da minha Pátria

Tornei-me, por força das circunstâncias vividas no resgate financeiro de Portugal entre 2011 e 2014 admirador de Passos Coelho, pela sua capacidade de resistência à pressão política e social, e pelo sentido de Estado exibido na execução do duro programa, contra ventos e marés. A forma como as esquerdas se uniram numa insólita geringonça para gerir a seu gosto a expectável retoma da economia foi por certo um golpe difícil de encaixar e a dignidade exibida na sua retirada de cena notável. Cheguei a admitir que Passos Coelho não mais teria vontade de assumir as dores do nosso atraso persistente e assumir um retorno à ribalta. Tanto mais que tenho sérias dúvidas que haja uma sólida maioria de portugueses que aceitassem a terapia de que o país verdadeiramente (ainda) precisa.


São as mesmas dúvidas que tenho, que tais reformas sejam desejadas pelo eleitorado do Chega, como referia aqui há dias o Henrique Pereira dos Santos: por alguma razão André Ventura lidera um grupo parlamentar (tirando honrosas excepções mais parece um bando de marginais), que rejeita qualquer reforma que cause alguma perturbação ao status quo, defendendo constantemente em busca de aprovação popular despesa pública absolutamente desmedida. Será uma estratégia de “quanto pior, melhor”?


Por diferentes razões sou grande admirador do historiador Rui Ramos, cuja seriedade intelectual, capacidade de trabalho, investigação e produção erudita, sigo com atenção e proveito. Uma e outra figura da nossa vida pública são demonstração dum novo e mais evoluído panorama intelectual que emergiu no espaço público português, fruto da crescente estabilização da democracia nos moldes ocidentais.


Pelo atrás referido soa-me muito estranha a complacência destas figuras gradas do país com o Chega. Acreditam mesmo que o Chega se irá encher de brios e sentido de Estado para se tornar num fiável agente de mudança de direita? Acreditam mesmo que há uma maioria sociológica reformadora à direita no eleitorado e que o problema está na falta de audácia de Luís Montenegro? Vislumbram alguma estratégia de conversão de Ventura ao realismo político necessário a um Estadista que eu não esteja a ver? Custa-me a acreditar.

10 comentários:

  1. Mas o Chega tem um Grupo Parlamentar eleito para Representar uma fração do Eleitorado que tem tanto direita a Representação e Expressão Parlamentar como as outras.


    Admito que muita gente não goste, mas Democracia é também o cumprimento de Regras goste-se ou não.


    Não percebo é porque tanta gente supostamente de bem, tropeça no elementar dever de aceitar o que a Democracia impõe.


    Ainda por cima com uma azia cujo único resultado é promover o Chega levando-o ao colo.


    Ou ainda não perceberam que de cada vez que se insurgem contra o Chega, promovem e ajudam o  Chega a subir mais um degrauzinho ??


    E o que tem mais piada é que o resultado de tanta inteligência, pensância e esperto na cabeça, é terem-se enfiado num buraco, do qual não conseguem sair




    Grandes Cabeças 

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  2. Mas nalgum lado do artigo está escrito que o grupo parlamentar do Chega não está no emiciclo por direito legítimo? Outros parecidos e pior por lá já passaram, para minha vergonha: o PCP chgou aos 40 deputados e o BE já teve 19. A realidade é o que é... 

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  3. Peço desculpa por o escrito não ter cumprido a função por redação desadequada. Culpa minha.


    Referia-me "á grande moda geral" visível em certo desdém dos media e aqui a ali de certa gente "importante,"  em relação ao Chega


    Em defesa própria, sei que é pobre mas não tenho mais, só posso argumentar que fico absolutamente fora de controlo, quando as regras não são iguais para todos


    E quando aquela malta se refere ao Chega fala como se a Democracia fosse propriedade privada 


    Mais uma vez peço desculpa; referia-me ao geral e não ao seu texto 

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  4. É comovente ler uma peça de tamanha devoção, que eleva Pedro Passos Coelho à categoria de mártir da austeridade e Rui Ramos a sumo-sacerdote do pensamento. 
    A ideia de que o povo português precisa de uma "terapia" — como se fôssemos todos doentes mentais e não cidadãos com contas para pagar — é o auge desse charme autoritário-pedagógico que tanto o encanta.
    A sua estranheza perante a aliança entre a "erudição" e a "marginalidade" é de uma ingenuidade quase refrescante. É o eterno drama da direita portuguesa: querem a revolução conservadora, mas ficam chocados quando os revolucionários são um bando de arruaceiros que não usam gravata de seda nem citam historiadores em latim.

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  5. O que é que João Távora preconiza? Que a direita social fique sem representação parlamentar como foi decido em 1975/6? Ou que sejam mantidas as linhas vermelhas, garantindo a sobrevivência do PS que seria então imprescindível para aprovar qualquer lei?
    Gostava que o Chega fosse diferente? Ou que Trump fosse diferente? Ou que Nª Sª de Fátima regressasse à Cova da Iria? Ou, talvez apenas, não saiba o que quer com a realidade que tem.

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  6. Eu não preconizo nada. Infelizmente os meus desejos não contam nada para a equação. 

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  7. Carlitos, pá! Tás de volta?? Desta vez não vens Anónimo.
    Já tinha saudades das tuas tiradas ... 

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  8. Como não há vontade/coragem política para a implementação, rápida e em força, de reformas estruturais a começar, repito, a começar pela abolição do salário mínimo, liberalização dos despedimentos e abolição dos descontos, só nos resta o aumento da pressão financeira para o Governo ir "cernelhando" de modo intensamente suave à medida que a pressão financeira aumenta.

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  9. Ricardo Miguel Sebastião9 de março de 2026 às 17:37

    Subscrevo inteiramente este post. O Chega é hiper populista, recusando qualquer reforma uma vez que qualquer reforma causará descontentamento de parte da população. Defendem assim aumentos de despesa pública ad nauseum que consigam assim suprir o cumprimento de todas as suas utópicas promessas. Para além de tudo são um bando de mal educados. Conseguem ser piores que o PS que ao menos ainda defende contas públicas equilibradas.

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