domingo, 1 de março de 2026

O que vale uma boa ideia?

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Parece-me fundamental reconhecermos que nem todas as boas ideias ou pensamentos sérios têm como objectivo principal a eficácia. Frequentemente, pensamentos profundos ou inovadores surgem sem a intenção de gerar resultados práticos imediatos, representando apenas a busca pela compreensão ou pela expressão intelectual.


Ademais, a eficácia de um pensamento não se define necessariamente pela sua capacidade de transformar ou convencer, mas sim pela forma como é comunicado, especialmente junto daqueles que discordam. Ou seja, o valor de uma ideia reside menos na sua aplicação concreta e mais no modo como consegue ser apresentada e discutida em ambientes de divergência, promovendo o diálogo e a reflexão. É da (boa) natureza humana.


Tomemos como exemplo a tese político-filosófica de António Sardinha, A Teoria da Nobreza, uma obra que se distingue pela sua perfeição formal e estética, escrita no início do século XX. Muito resumidamente, nessa tese, António Sardinha defende que há uma inclinação natural do operário para abandonar o trabalho físico e em gerações subsequentes ambicionar a fortuna, para depois, seja pelo seu sucesso no comércio ou pela manufactura, alcançar a erudição e aspirar a cargos de serviço aristocrático, numa dinâmica de crescente “democratização” da excelência. Apesar da solidez e profundidade desta reflexão, ironicamente, o contexto histórico das décadas seguintes foi marcado por uma aceleração sem precedentes do individualismo, em claro prejuízo da família tradicional, e o conceito de Nobreza foi confirmado pela modernidade como “um arcaísmo estéril”.


Como sabemos, este fenómeno traduziu-se numa degradação significativa das estruturas familiares, impulsionada pelos efeitos provocados pela democratização da contracepção e pela crescente liquefacção do casamento e da família natural, hoje com fraca reputação e utilidade, substituída que foi pelo Estado. O grande Leviatã de Thomas Hobbes prefere a indistinção e a padronização, a docilização e a domesticação dos indivíduos, ainda que esse fenómeno acarrete o seu alheamento da vida da comunidade, ou seja, a abstenção na construção e na preservação do que é de todos.


Posto isso, importa questionarmo-nos sobre a contemporânea decadência das elites, (ou talvez apenas do seu prestígio), subjugadas pelo imediatismo e igualitarismo da vida moderna, e a autofagia do sistema político pelo hiperindividualismo predominante.


A explicação pode ser encontrada no contexto político e social das democracias liberais que privilegiam a rápida obtenção de resultados (económicos ou eleitorais) e a valorização cultural do prazer imediato em detrimento do pensamento estruturado e da tradição, num processo de acentuada alienação colectiva. Consequentemente, as elites, que outrora detinham reconhecimento devido à sua erudição, capacidade de reflexão e serviço à coisa pública, enfrentam agora uma erosão do seu papel distintivo, perdendo espaço para o consenso igualitário e para a padronização promovida pelo Estado moderno.


Neste caldo cultural contemporâneo, contribui decisivamente para a decadência o já referido hiperindividualismo, que subtilmente alimenta uma dinâmica autofágica no sistema social e político. À medida que os indivíduos valorizam cada vez mais a autonomia pessoal em detrimento das estruturas familiares e comunitárias, observa-se uma atomização das bases tradicionais que sustentavam o prestígio das elites. Essa fragmentação é acelerada pela permissibilidade nos costumes e pela substituição das estruturas sociais básicas pelo Estado, o que resulta num ambiente de indistinção e domesticação dos indivíduos, afastando-os do envolvimento político e da preservação do bem comum.


Os Integralistas Lusitanos, de onde provém o já citado António Sardinha, tiveram razão antes de tempo. Viam na valorização do poder local, e nas suas instituições profundamente humanistas e personalistas, uma forma de promoção da liberdade das comunidades – logo, dos indivíduos – contra a cegueira do centralismo macrocéfalo, economicista, burocrático e quase sempre ideológico. Os concelhos e as freguesias (e antigamente as paróquias) seriam o nosso chão comum primário, comunidades de pertença fundamental, espaço privilegiado de realização humana, só ultrapassados em importância e proximidade pela célula familiar, o primeiro garante da liberdade. Os integralistas entendiam que só em sociedades muito evoluídas e participadas, chamemos-lhes “intrinsecamente democráticas”, é possível que a figura de topo do Estado não fosse eleita, porque historicamente e constitucionalmente legitimada. Refiro-me ao Rei – primum inter pares.


Para que serve então uma boa ideia, sem eficácia, portanto destinada ao desdém ou ao fracasso? Julgo que a utilidade de uma boa ideia é exactamente o oposto à das opiniões supérfluas que se sobrepõem e se digladiam nas redes sociais e caixas de comentários, numa enorme e ruidosa berraria. É uma contribuição a longo prazo, água na fervura nas resoluções imediatistas, que, subliminarmente, quem sabe, talvez um dia forneça alguma luz e razão, e desse modo os vindouros enfrentem com sucesso os seus desafios. Na busca do Bem, do Belo e do Verdadeiro, a tríade inseparável e superior defendida por Platão, onde o Bem é a forma suprema e fundamento de tudo.


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15 comentários:

  1. A "degradação das estruturas familiares", como de resto as outras degradações que vêm juntas, grupos sociais, etc., são condição necessária ao funcionamento do Sistema.


    Digamos que o "Consumidor", será o consumidor ideal, na medida em que cada vez for mais e só "consumidor" e menos indivíduo autónomo.


    Tudo o mais, o que no tempo anterior, estruturava e dava sentido ao indivíduo e ao grupo (Pátria, família, etc.,) passa a sucata ideológica pronta para a reciclagem ou eliminação pura e simples.


    A partir daqui o "consumidor" existe como pilar e base do Sistema de quem se exige; 


    Que consuma


    Que vote os que vão garantir a continuidade do Sistema(1)


    (1) - as coisas também estão programadas para que seja quem for que seja votado, garanta sempre a continuidade do Sistema 

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  2. Vivemos numa Sociedade que Chamamos "Democrática" mais isto é para lhe dar estatuto porque a sua característica Dominante é o Consumo.


    O Trabalho dá o Consumo o Consumidor Vota a Estrutura e está favorece a Ecologia que estrutura os negócios que dão Trabalho.


    As Elites não desapareceram coisa nenhuma; adaptaram-se aos novos tempos, e aos negócios, deixaram-se
    de floreados e preencheram todos os nichos na administração, partidos, política e sociedade.


    As Elites são como as copas das árvores; 


    Seja qual for a variedade e qualidade do arvoredo as Copas estão sempre por cima

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  3. A ideia que tenho, é que as elites (mesmo causando alguma "comichão democrática" em alguns sectores) são aceites e entendidas como necessárias pelas grandes massas.

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  4. O individualismo é uma exportação americana, curiosamente e ao contrário do que é escrito, o país em que o Estado menos força social tem.
    As elites continuam a existir, infelizmente para quem escreve, não são é hereditárias. A ideia da democratização e de que somos todos iguais é uma bela patranha, tal como nos séculos bons da nobreza, manda quem pode.

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  5. Não somos todos iguais,  nem queremos ser todos iguais. Tirando meia dúzia de maluquinhos, amplificados pelo algoritmo, todos aceitam que há gente mais inteligente, qualificada ou forte, e que esses indivíduos deveriam constituir a elite de uma sociedade. Aquela que devia ser a diferença para as belas sociedades de que alguns têm saudade não é a ausência de elites, mas sim a possibilidade de a ela aceder via mérito,  e a existência de ferramentas para tal, nomeadamente educação,  essa sim democrática e universal. 
    Claro que hoje olhamos para a elite, em especial a política, e percebe-se que ainda estamos longe da meritocracia, e que temos um regime em que a elite económica mete uns fantoches no Poder.

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  6. A eficácia não é um objectivo dos nossos dias. Mesmo no restrito mas decisivo campo da economia, eficácia pressupondo a garantia de alcançar os objectivos, implica redundâncias ou seja, maiores custos e menor crescimento. O materialismo que domina política de hoje apenas persegue a eficiência e só um desastre consegue uma mudança de paradigma mas apenas na área afectada e nem sempre. Com exemplos recentes, o apagão ibérico que produziu efeitos na gestão das redes eléctricas e os incêndios florestais que não os produziram.

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  7. Tem toda a razão no que toca às elites que a Elite económica permite acedam ao Poder.


    Discordo apenas na parte da "meritocracia", posto que em minha opinião, esta nada tem a ver como caso 


    Tudo o que se exige ao personagem no Poder é que saiba representar perante a Sociedade (através das Instituições de Comunicação) o pa pel que lhe está destinado e que é o de "Líder".


    O grande "Líder" pode ser um vácuo, uma besta quadrada, etc., desde que não o mostre.


    Tem é de representar aquilo que a massa espera que ele seja; ágil na retórica, farto nas promessas, sucessos currículares, saber representar-se como Líder nos ecrãs., etc..



    O resto são os assessores e os suas sombras

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  8. Se bem que os USA possam ser  considerados a pátria do indivídualismo, este remonta ao Renascimento, talvez até um pouco antes.







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  9. E claro que sendo todos os homens iguais á face da lei, tal mais não é que uma bela história da Carochinha.


    Serve para acalmar consciências e pouco mais

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  10. Obviamente, uma boa ideia só vale alguma coisa se for implementada, ou, pelo menos, analisada.
    As ideias de Platão e Aristóteles passaram séculos esquecidas até os escolásticos as terem recuperado.
    Aqui fica uma ideia para o futuro: Implementação, rápida e em força, de reformas estruturais, a começar, repito, a começar pela abolição do salário mínimo, liberalização dos descontos e abolição dos descontos seguindo-se outras reformas estruturais.

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  11. A igualdade inscrita e apregoada nas modernas Sociedades Democráticas é funcional e práctica, mas o factor dominante, continua a ser a desigualdade.


    De resto basta olhar á volta e é evidente que tendo todos, teoricamente as mesmas oportunidades, por questões de fortuna, educação ou nascimento alguns tem muito simplesmente, mais vantagens á partida e á chegada.

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  12. “Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789
    Artigo 1 – Os homens nascem e permanecem livres e iguais em direitos. As distinções sociais só podem ser fundadas no bem comum.”
    Isto foi expresso há quase 236 anos e uns tantos meses. Não teve em consideração, de facto, o trabalho de apuramento genético efectuado ao longo de longos anos, tantas vezes recorrendo ao sacrifício da consanguinidade. Não vai ser fácil recuperar de tal esforço. O Mal, o Hediondo e a Mentira estão definitivamente instalados. Não se faz. O autor de ‘A República’ não merecia.

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  13. Vai um forrobodó á volta de Passos Coelho mas tirem o cavalo da chuva.


    Corajoso como o rapaz é não acredito que se atreva, mas se por uma curva qualquer do destino se atrever; não terá sorte nenhuma 


    Passos Coelho é o Portugal velho


    Coelho velho


    Portugal merece melhor


    Passos Coelho não Passará 

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