segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Tenho jeito para bruxo

Desde a última tempestade que tenho recebido convites para ir falar aqui e ali, mas a tempestade coincidiu com circunstâncias pessoais que não me permitiam aceitar alguns desses convites e, depois de ter aceitado um desses convites, ficou-me de emenda.


Já escrevi que tenho todo o gosto em falar para públicos alargados, tenho mesmo (ó vã glória), gosto de dizer o que penso e de o explicar, aprendo muito com as asneiras que digo porque, tarde ou cedo, aparece sempre alguém a corrigir ("então que tal correu", perguntaram-me, "não gostei muito, acho que não saiu bem", respondi, "De que é que estavas à espera? Realmente não falaste nada bem"), mas é sobre paisagem, gestão da paisagem e matérias envolventes, sobre o resto escrevo aqui e ali, mas não há grande utilidade em vender o meu peixe para públicos mais alargados.


Quando hoje me voltaram a pedir para ir a uma das televisões (não vejo a insistência como um incómodo, pelo contrário, é claramente um elogio e uma simpatia insistirem em me pedir que eu vá falar a algum lado), achei que era a altura de explicar, mais demoradamente, por que razão não quero ir perorar sobre a tempestade e afins.


"... não tenho grande coisa de útil a dizer que não tenha sido dito por alguma das dezenas de pessoas que foram passando pelos estúdios de televisão. Nesta altura, o simples facto de se dizer que é cedo para fazer avaliações, que é bom que se façam avaliações sérias de cada episódio de maior dimensão, mas mais tarde, para, lentamente, melhorar a previsão, melhorar a prevenção, melhorar a capacidade de lidar com fenómenos extremos e melhorar a resposta social, nomeadamente deixando de responsabilizar os governos por tudo e mais alguma coisa, porque os governos são realmente muito menos importantes do que pensam (e do que pensam as suas oposições), será sempre lido como uma tentativa de ilibar de responsabilidades os responsáveis, o que torna bastante inútil o que quer que eu vá dizer (incluindo para as televisões, que precisam é de dramatismo, não é de cinzentos, para vender)".


Nem meia hora tinha passado desta minha resposta e já havia não sei quem a interpretar coisas que tenho escrito sobre a tempestade e afins, como sendo eu a dizer que correu tudo bem, que não há nada a apontar, que nada correu mal, que foi tudo pelo melhor no melhor dos mundos possíveis, como seu eu fosse o Dr. Pangloss.


Não, meus caros, "tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu", simplesmente o tempo de avaliar a resposta a uma catástrofe não é o tempo em que essa resposta decorre.


Se estranho o aparente erro de avaliação na atribuição de missões às forças armadas?


Sim, estranho, mas não tenho informação para saber exactamente o que se passou, é por isso que o tempo de avaliar responsabilidades não é agora, é depois, porque ninguém vai perguntar ao presidente de câmara de Leiria, hoje, se não teria sido mais avisado ter geradores de emergência preparados para apoiar infraestruturas críticas em vez de gastar recursos nas festas do concelho, seria injusta esta pergunta agora e seria muito demagógico fazê-la neste momento.


Incomoda-me muito mais ver Mariana Leitão, a fazer um vídeo em Leiria a dizer que é revoltante que o governo tenha respondido tardiamente a uma catástrofe, uma liberal com muito mais fé que eu não capacidade dos governos alterarem a realidade, que ver uma ministra meia atarantada a ter de gerir processos complexos que não conhece bem e em que, provavelmente, depende da informação produzida por uma estrutura de protecção civil muitos degraus abaixo da capacidade técnica que deveria ter.


Simplesmente o tempo é de responder a quem precisa, não é o tempo de apurar responsabilidades e tomar as decisões que nos permitam lidar um bocadinho melhor com o próximo desastre natural.

5 comentários:

  1. Será agora muito provavelmente o tempo de reparar estragos.


    Mas no tempo seguinte, talvez seja o tempo de ver o que fazem os outros lá por fora, em condições semelhantes e aprender, se for caso disso, melhorando, optimizando inovando até.


    Sugiro é que o façam primeiro e só chamem a Comunicação Social, quando tiverem resultados consolidados para mostrar.


    De foguetório está o País farto 

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  2. Honestidade, preparação (muita)... e bom-senso.
    Cpmts.
    Juromenha

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  3. Eu li, e não comentei e talvez devesse ter comentado que a protecção civil, em grande parte do tempo, tem sido chefiada por militares.

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  4. Por mim acho muito bem que o Comando seja Militar.


    De um modo geral parecem mais aptos primeiro pelo treino, noção de comando, obediência, ordem e disciplina.


    E também, por uma maior indiferença a microfones abertos, câmaras de TV, passerelles, etc., coisas a que os eleitos, por regra não resistem.


    Parece-me muito bem que o Comando seja Militar 

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