terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Os especialistas do dia seguinte

Sirvo-me do Público de hoje para ilustrar a minha irritação com os especialistas do dia seguinte à ocorrência de desastres naturais.


Começo por um não especialista por quem tenho estima e respeito, João Miguel Tavares, que assina hoje uma opinião indignadíssima por viver nesta choldra.


Quase tudo na peça são opiniões, e não me merecem comentário, mas há duas ou três coisas que podem ser discutidas racional e factualmente, que são importantes para explicar as nossas diferenças sobre como melhorar a choldra.


Uma delas é a afirmação (aliás muito, muito difundida) de que antes da tempestade, o país (não vou agora discutir instituições, já lá irei) se limitou a espalhar sms a dizer para as pessoas terem cuidado, e mais nada, quando já se sabia o potencial destrutivo de ventos de 140 km/ hora.


Há dois erros muito relevantes nesta ideia.


O primeiro é que os ventos não foram de 140 km/ hora, mas sim pelos menos 20 a 30 Km/ hora a mais (não estou a relevar um registo acima de 200 Km/ h e pelo menos um em torno de 180 Km/ hora, no caso deste último, no momento em que a própria estação meteorológica foi à vida com o vento).


Para se ter uma ideia, ventos de 30 Km/ h são ventos fortes, é aliás o limite mínimo que é usado (grosseiramente) no combate a fogos para definir circunstâncias de vento que tornam os fogos incontroláveis. Ou seja, o potencial destrutivo de ventos de 140 Km/ hora não é, nem de perto nem de longe, o mesmo de ventos com mais vinte ou trinta quilómetros hora, há, portanto, um desvio em relação à previsão inicial que é relevante.


Ainda assim, com o aproximar da tempestade, o próprio IPMA apareceu na televisão a avisar que era possível que os ventos fossem mais fortes que os 140 Km/ h e ganhassem uma capacidade destrutiva relevante, como se pode ver nesta notícia da RTP (e apareceu mais ou menos em todo o lado). Reforço que a notícia é do dia anterior ao desastre, embora perceba que o país e os três milhões de espectadores que o viram, estivessem mais atentos ao debate que existiria nessa noite entre Seguro e Ventura.


Ainda assim, se alguém quiser repetir o exercício que fiz, de procurar notícias do dia 27, vai encontrar inúmeras notícias, nomedamente nos orgãos de informação regional, de câmaras municipais, sobretudo através dos seus serviços de protecção civil, a fazer avisos sérios (por acaso não encontrei nada da câmara de Leiria, mas a minha procura não foi exaustiva).


A segunda coisa errada é a ideia de que foram mandados uns sms e mais nada.


Em primeiro lugar, é inadmissível que se transcreva parcialmente o SMS e não a sua totalidade. Depois de dizer às pessoas para estarem atentas, há uma recomendação para seguir os avisos das autoridades e uma ligação para o site da protecção civil, onde havia informação mais pormenorizada sobre o assunto.


Ainda que assim não fosse, aqui fica o exemplo de outra notícia de jornal que demonstra que não é verdade que o país se tenha limitado a mandar um SMS.


O que nos leva a uma das questões mais difíceis nesta matéria, que é a que diz respeito à atenção que as pessoas dão aos avisos de catástrofes naturais.


O que é normal é que os avisos sejam feitos para o pior cenário, mas as probabilidades de ocorrência dos piores cenários são sempre muito mais baixas que as de ocorrência de cenários centrais.


O resultado é o desgaste da credibilidade dos avisos, numa típica demonstração da moral do "vem lobo, vem lobo, gritava o pastor", a natureza humana é o que é.


Definir o equilíbrio entre a necessidade de avisar para o pior cenário e o facto da maior parte das vezes ele não se verificar (ainda na noite de anteontem os avisos falavam de uma chuva diluviana e foi uma chuvinha sem história) não é compatível com um sistema de avisos extenso e pormenorizado nos meios de massas (como o envio de SMS).


Como acontece sempre que há desastres naturais, aparecem então os especialistas, o que se traduz na manchete do Público de hoje.


Uma coisa é ouvir Paulo Fernandes ou José Miguel Cardoso Pereira, que há anos falam sobre a evolução dos fogos, prevendo evoluções que se vão verificando porque estudam a natureza do fogo e conhecem os factores que influenciam a sua natureza, dimensão e impacto, chamando a atenção para as tendências desses factores que se estão a verificar, o que conduzirá a fogos futuros com determinadas características, se não se gerirem esses factores que estão a potenciar as ameaças.


Outra coisa é ouvir Duarte Caldeira (12 anos na direcção da liga dos bombeiros, seis dos quais como presidente, a defender o status quo institucional que no tem conduzido aqui), ou Paulo Gil Martins (antigo responsável pela protecção civil que nunca achou útil promover um sistema de lições aprendidas em cada incêndio que nos permitisse ir melhorando institucionalmente) a falar de mecanismos burocráticos que deveriam ter sido accionados assim ou assado.


De resto, desses especialistas todos que hoje acham que era evidente o que deveria ter sido feito (não estou a dizer que era impossível e que talvez a informação existente, interpretada de outra maneira, aconselhasse outra abordagem da prevenção e resposta à tempestade), incluindo os senhores presidentes de câmara que são os responsáveis pela protecção civil municipal e hoje atiram responsabilidades para todo o lado, mas se recusam a admitir que é possível que também eles tenham um bocadinho de responsabilidades que devem ser revistas no futuro para melhorar o desempenho das comunidades em situações de catástrofe, repito, desses especialistas todos, quantos na tarde/ noite do dia 27 foram tão claros como a meteorologista do IPMA citada na primeira peça e agiram em conformidade, quando tinham responsabilidades, ou apareceram no espaço público a dizer, alto e bom som, que a abordagem que estava a ser feita à prevenção e preparação da resposta à tempestade estava errada ou deveria ser de outro modo?


Que eu saiba, nem um.


Posso estar enganado e ter havido alguém que tenha feito todos os esforços possíveis para alertar a opinião pública e os decisores para a necessidade de uma abordagem melhor à aproximação da tempestade.


Se houver, excluo esses que alertaram antes da tempestade da minha imprecação final: meus caros especialistas do dia seguinte, ide para o raio que vos parta!

11 comentários:





  1. E? Acaso a destruição foi causada por falta de cuidado das pessoas?


     A mim parece-me que não. A destruição não teve nada a ver com qualquer falta de cuidado (exceto em casos muito pontuais). A maior parte das pessoas até estava na cama, a dormir, sem fazer nada de mal, quando o vento causou os estragos.


    As árvores e os postes elétricos não caíram por falta de cuidado das pessoas. Nem as telhas foram arrancadas, etc.


    (Embora eu tenha visto nos Açores que muitos telhados têm pedregulhos por cima a segurar as telhas - as pessoas lá estão preparadas para ventanias fortes e precavêem-se colocando essas pedras quando constroem os telhados. Mas isso, lá está, é porque nos Açores ventanias de 150 km/h não são pouco usuais, enquanto que no Continente o são.)



    (A minha) Conclusão: mesmo que tivessem sido lançados mais avisos, a destruição teria sido mais ou menos a mesma, uma vez que não foi qualquer mau comportamento das pessoas que a causou.

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  2. cansado de ouvir ''especialistas'' do blá blá sempre os mesmos e a mesma ideologia que tem impedido o país de desenvolver economicamente em vez de se endividar.
    a maior  dificuldade do governo por os assuntos reside na burocracia de inúteis do funcionalismo público. há uns anos disse um dirigente que a ''papelada'' passa pelo menos por 10 burocratas.
    ontem 'no torto' comparou-se com as inundações espanholas. Santana elogiou a Proteção Civil.
    o futuro PR desconhece o valor dos eletricistas que se esforçam num mundo de devastação.
    a oposição procura tirar dividendos da desgraça alheia.
    vamos longe e ao pé coxinho

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  3. Há "especialistas" que se fossem eles a tomar as decisões, certamente se teriam colocado junto ao mar, de braços abertos, a segurar o vento, para reduzindo a sua força, evitarem a destruição.

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  4. No foi possível por estarem a dormir para acordar descansados e pensar no que diriam hoje

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  5. É tudo uma questão de as verbas desponíveis.
    Aos vários coeficientes que regem a qualidade na construção civil (e consequentemente o preço do produto) há que acrescentar o parâmetro "Coberturas e demais produtos vs velocidade do Vento".
    Assim o comprador poderá comprar (com apólice de seguro) uma grua, ou um qualquer edificado, certeficado para ventanias ou até 30 Km/h, ou  100, ou 200 ou mesmo 300 Km/h.  Além disso avalia-se a frequência dos tornados na região em causa.
    É tudo uma questão de as verbas desponíveis e a vontade dos deuses. 

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  6. Inteiramente de acordo.


    As Comunicação Social ainda tentou arranjar bodes expiatórios, mas cedo percebeu que ia ser difícil levar água a esse moinho.


    Mesmo assim foi visível a procura de vítimas mas de um modo geral a coisa saiu furada, e não tiveram outro remédio que relatar a desgraça pura e simples.

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  7. Mas afinal estava prevista a tempestade ou não? Ouviu alguém do governo alertar publicamente para a possibilidade de uma catástrofe? Ouviu alguém do governo falar publicamente no dia seguinte à mesma? 
    P. S. Ressalvo a ação do especialista Leitão Amaro, entretanto desaparecido em combate.

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  8. Alguém acredita alguma coisa no que o governo diz?
    Eu tenho ideia de que nem por isso, essa é uma das razões principais para que o governo não apareça nestas alturas e o assunto seja gerido por instituições em que as pessoas confiam mais que no governo.

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  9. Não sei o que escreveu esse JMT mas parece que não perdi nada.


    Quanto a considerar que o Almirante Gouveia e Melo não estaria á altura, se chamado, a resolver problemas decorrentes da passagem de uma tempestade como a que ocorreu, chamo a sua atenção, para a formação necessária, até ao Posto de Almirante.


    Essa formação é o que garantidamente o qualifica para  resolver problemas como aqueles de que fala.

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  10. Ainda bem que o especialista desapareceu; assim já não atrapalha.


    Quanto a alguém do Governo não alertar, se não alertou fez muito bem, já que a função do Governo é Governar e não atrapalhar.


    Para alertas temos a Proteção Civil.


    Para ajuda às Populações temos as Corporações de Bombeiros e se necessário o Exército.


    E no pós tempestade o Presidente Marcelo falou como não podia deixar de ser.


    Até os Presidentes de Câmara que nestes casos ficam um bocado histéricos por causa das TVs, não falaram muito.


    No geral a coisa funcionou bem e Portugal até deu uma de civilizado 

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