Como acontece com alguma frequência sempre que existem acontecimentos com algum dramatismo que se possam relacionar com gestão da paisagem, recebi uns quantos convites para ir vender o meu peixe esta semana.
Por várias razões pessoais declinei vários desses convites e acabei por aceitar um, embora um bocado desconfortável porque não tinha muito que dizer que tivesse algum interesse.
E mais desconfortável quando saí do estúdio.
Como era tarde fui dormir e no dia seguinte fui ver o que tinha dito.
Não fiquei nada satisfeito, não era nada com a jornalista, era mesmo porque realmente não tinha grande coisa que eu achasse útil para dizer e decidi recusar todos os convites seguintes para ir comentar a situação que resulta da tempestade desta semana.
Verdadeiramente só percebi qual era o meu problema quando comecei a reparar na quantidade de colegas meus e outras pessoas que conheço que, a propósito de um fenómeno de vento invulgar, repetiam a cassete do ordenamento do território, da incompetência (dos outros), da negligência (dos outros) e por aí fora.
Eu, como penso que a generalidade das pessoas, estranho quando vejo um hangar militar cair em cima de aviões que custam milhões de euros.
Eu sei que não é possível planear, projectar, construir para situações extremas, sem provocar a ruína do país, dimensionar todas as estruturas do país para ventos de 200 km/ hora implicaria um custo de investimento e manutenção dificilmente sustentável.
E sei que isso não é uma questão de ordenamento do território (para ser mais preciso, não é primariamente uma questão de ordenamento do território), é essencialmente uma questão de engenharia e economia (descontando o relativo pleonasmo implícito no facto de separar engenharia de economia, como se houvesse boa engenharia que não tenha em atenção o seu contexto tecnológico e económico).
Se, ao contrário do que é a tendência dominante, deixarmos de procurar o responsável que podemos crucificar para aliviarmos a nossa consciência do facto de sermos, como indivíduos e como sociedade, intrinsecamente frágeis e vulneráveis, e passarmos a avaliar sistematicamente o que acontece para aprender a fazer melhor na vez seguinte, quem deveria estar a ser convidado para falar do efeito de fenómenos meteorológicos sobre a estruturas que espalhamos na paisagem, deveria ser quem sabe de meteorologia e clima para perceber o que se passou, e quem sabe de engenharia de estruturas para poder distinguir as situações em que é razoável que um fenómeno daqueles tenha efeitos negativos (a vida é assim), das situações em que mau projecto, má construção ou má manutenção resulta em efeitos socialmente inaceitáveis.
Foi um erro meu aceitar o convite para falar disso, uma coisa é falar de cheias, incêndios, dinâmica de populações selvagens, evolução da paisagem e coisas que tais, sobre as quais tenho um ponto de vista razoavelmente informado (embora frequentemente minoritário, ou seja, provavelmente errado), outra coisa é não perceber que não é pelo facto de alguma coisa ocorrer na paisagem que o conhecimento sobre o funcionamento das paisagens é útil.
E como me recuso a refugiar-me na cantilena do costume, apontando o dedo a toda a gente que tenha um bocadinho de responsabilidade na resposta aos problemas, com base no argumento de que há qualquer coisa lá atrás que deveria ter sido resolvida (mesmo que eu próprio, em devido tempo, não tenha identificado de forma clara essa necessidade), e prefiro centrar-me em compreender e fazer melhor da vez seguinte, fico sem nada de útil para dizer.
É certo que terem morrido menos de dez pessoas no fenómeno meteorológico desta semana é trágico, mas não é menos certo que se calcula que tenham morrido mais de cem pessoas no ciclone de 1941. Não descurando o simplismo da conclusão, isto pode significar que alguma coisa vamos aprendendo, o que aliás é consistente com a ideia, mais que documentada, que morre hoje menos gente por desastres naturais do que morria há cem anos.
Esta é uma das razões pelas quais me parece que temos de ser mais concretos, mais ponderados, mais informados a responsabilizar terceiros pelo que acontece de negativo à nossa volta.
ResponderEliminarBoa parte dos desastres decorreram da queda de árvores. Ora, a queda de árvores é algo muito difícil de prever e precaver. Árvore grandes e robustas, por vezes já com décadas ou séculos de idade, às tantas caem num temporal de forma mais ou menos imprevisível. (Se alguém as quer cortar antes que tal aconteça, não faltarão protestos por se estar a cortar uma árvore tão bela, bem desenvolvida e antiga.) É um pouco como o declíneo de um núcleo radioativo: pode acontecer a qualquer momento, e nunca acontece até ao dia em que acontece mesmo.
Lendo um livro de Jared Diamond sobre povos ancestrais que ainda vivem (ou viviam até há poucos decénios) na Idade da Pedra, fiquei a saber que a queda de árvores é uma das principais causas da morte desses povos, uma das mais temidas e que, apesar de todos os cuidados que eles aprendem a tomar para evitar que uma árvore lhes caia em cima, mesmo assim acontece.
ResponderEliminarJá agora note-se que nos Açores, que frequentemente são fustigados por ventanias terríveis, raramente essas ventanias causam desastes.
(Na ilha das Flores, a pior de todas sob o ponto de vista do clima, ventos de mais de 200 km/h, que os anemómetros nem conseguem medir, já foram observados.)
Isso deve-se em parte a que nos Açores não há árvores nas povoações nem perto delas. As árvores situam-se em (relativamente poucos) bosques em locais isolados e, usualmente, mais ou menos abrigados das ventanias.
Caro HPS,
ResponderEliminarMuito bem.
Subscrevo.
O que podia ter corrido de forma diferente?
Quais as estruturas que deviam ter sido reforçadas ou construídas de outra forma?
Essa era e é a discussão importante.
(a casa onde cresci e onde vivem os meus pais, também, foi, parcialmente, destruída, felizmente, sem consequências graves e já se "atamancou" uma solução provisória. Na minha família ninguém se lembrou de culpar o Montenegro, o Ventura ou o Seguro. Estragou-se, arranja-se. Como disse a minha mãe [quase 86 anos]: "sempre houve ventos fortes e casas a ficarem sem telhas, só que agora fazem um programa de televisão com tudo")
Provavelmente é uma consequência tardia da evolução tecnológica e dos inerentes níveis de segurança.
ResponderEliminarTalvez aos poucos se tenha infiltrado a ideia que a Natureza está domesticada e a segurança garantida.
Provavelmente é a Mãe Natureza a lembrar que ainda temos muito a aprender
Atrevo-me a dar os Parabéns á Senhora sua Mãe, pois os 86 dão-lhe uma limpidez e claridade de raciocínio de que muita malta de 40/50 não se pode gabar.
ResponderEliminarAtreveu-se muito bem e, obviamente, estamos de acordo .
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ResponderEliminardepois da tragédia só vi gentinha a exibir a sua frustação com a devida ostentação.
ResponderEliminarnem uma só palavra de jornalistas e políticos da oposição a agradecer aos que se esforçam por levantar as centenas de postes e de cabos elétricos destruídos.
O Montenegro, o Seguro e o Ventura, claro que não, mas o Passos Coelho, já não digo nada.
ResponderEliminarEsse está fora do campeonato
ResponderEliminarQue tal dar o exemplo?
ResponderEliminarJá agradeceu? A esses a quem mais se esforçou e esforça noutras tarefas?
Eu já o fiz e não me lembrei de criticar quem não o fez.
Tem toda a razão.
ResponderEliminarCreio que a coisa se explica por a malta que faz, estando ocupada a fazer, não ter tempo para abanar-se á frente da Comunicação Social.
Para esta por outro lado, é mais fácil entrevistar o Presidente da Câmara ou Junta de Freguesia, naturalmente sempre disponíveis e solícitos.
Provavelmente é o conhecido fenômeno da fome e da vontade de comer.
Quando se aprendia as "bases" do jornalismo na disciplina de Português, referia-se que o centro da notícia eram factos, e adjectivos deviam ser evitados, de modo a não influenciar a reacção do leitor. Hoje é o oposto
ResponderEliminarNão parece que seja preciso adjectivar um desastre natural de horrível ou destrutivo para que se perceba o quão horrível e destrutivo foi.
Mas é o que temos, infelizmente o jornalismo tentou competir com redes sociais ao invés de se distanciar destas. Tudo em nome do dinheiro. Claro que no fim a isenção ou independência de um meio de comunicação social acaba por depender de quanto com ele concordamos...
O Jornalismo não tentou, ou tentou poucochinho competir com as "redes sociais".
ResponderEliminarO Jornalismo afundou-se numa espécie de "funcionalismo", onde a "carteira" obrigatória garante "os nossos direitos" e supostamente competência.
Acontece que o Público pagante não está para aí virado e não compra.
Como o umbigo dos "jornalistas" lhes dá razão, a coisa mantém-se.
Falida mas gloriosamente em pé até que rebente.
O Correio da Manhã, o único que pedala, esse corre em pista á parte