sábado, 31 de janeiro de 2026

Comunicação, outro nome para pensamento mágico

Gente que considero, gente que pensa, gente inteligente, mas que tem obrigações de falar regularmente, como políticos, jornalistas e comentadores regulares, tarde ou cedo, perante uma catástrofe (tanto faz ser um apagão, uma ciclogénese explosiva, fogos, cheias, qualquer uma das milhares de manifestações da natureza perante as quais temos dificuldade em ficar de pé), acaba a falar das falhas de comunicação do governo de turno.


Aparentemente, de comunistas empedernidos, passando por populistas irrequietos e liberais ferrenhos (o que me custa ver liberais que têm, ou tiveram, responsabilidades políticas, repetirem os argumentos do populismo sobre a omnipotência dos governos), quando não lhes ocorre nada de substancial para dizer sobre a previsão de uma catástrofe, sobre a catástrofe em si, sobre as consequências da catástrofe e sobre a forma como a sociedade reage à catástrofe, falam dos erros de comunicação dos responsáveis políticos.


Dizendo de outra maneira, a minha irmã avisa a família, por canais de comunicação criativos, que não se preocupem com ela, adapta-se à sorte de na rua onde vive não ter havido estragos, ao contrário do que se passou na rua de trás, diz que se ficasse sem água quente mudaria para outro lado qualquer (nestas coisas é que se percebe melhor a diferença entre os problemas dos que têm escolha e os problemas de quem não tem alternativas), mas que ficar sem electricidade e comunicações não é dramático, o que no caso dela significa ficar sem possibilidade de usar o elevador de que depende para sair de casa (também se percebe nestas alturas como as circunstâncias de cada um fazem com que o impacto do que acontece a todos acabe por ser substancialmente diferente para cada um), e boa parte das elites e dos pensadores do país acham que o que ela precisa é de discursos motivacionais dos membros do governo, e não de electricidade e comunicações.


O ambiente tóxico que se vive nestas alturas à volta dos responsáveis políticos, exigindo-lhes o que não podem dar, acaba nesta parvoíce de andar tanta gente a dizer inutilidades, a discutir vídeos produzidos, acções demagógicas de solidariedade, e outras manifestações mediáticas de um pensamento mágico que acredita que está na mão dos governos proteger-nos de todas as adversidades, esquecendo-se que nem as nossas mães conseguiram isso, quanto mais o papá Estado, enquanto as pessoas comuns se limitam a avaliar a situação e tentar resolvê-la, "with a little help from their friends".


O princípio deveria ser simples e universal: há possibilidade de ajudar a resolver um problema concreto que se conhece (incluindo ajudar toda a gente a compreender o que se passa)? Óptimo, é ir em frente.


Não há nada de concreto que possamos fazer? Não faz mal, saiam da frente, não criem problemas novos para juntar aos que existem, haverá muito tempo para discutir o que podemos aprender para o futuro.

8 comentários:

  1. Oportuno o texto 


    Nas últimas duas décadas tem florescido a ideia que o Estado e as suas ramificações locais, a todos tem de acudir, a tudo valer e tudo pagar.


    Em grande parte a coisa nasceu da ânsia dos eleitos, sobretudo ao nível do Poder Local, se fazerem notar, ajudando agora a troco de voto futuro.


    A Comunicação Social cheira a oportunidade e atira-se de cabeça, dando visibilidade e na prática,  incentivando e "institucionalizando" a coisa.


    E ninguém lhes diz que governação e responsabilidades públicas são uma coisa e assistencialismo outra.


    Haverá mal ? Mas é evidente; Flexibilidade e versatilidade são uma coisa chico-espertices calculistas outra bem diferente.

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  2. "Gegen Dummheit kämpfen Götter selbst vergebens",  segundo o camarada Schiller, mas a estupidez é mais a inevitabilidade conveniente das boas intenções de que o inferno está cheio.
    Nota 9/10 para o HPS no papel de Cassandra explicativa. Vamos pelo cano abaixo, mas temos noção da desgraça, o que torna a coisa melhor ou pior conforme a índole de cada qual.

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  3. Concordo


    Deixem a sociedade civil trabalhar 

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  4. A Proteção Civil, é o rematado exemplo da mágica comunicacional. Comunica que se farta, SMS a esmo. E depois, quando a desgraça se abate, ninguém os vê... 

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  5. Este País é uma "addeia", é tudo em familia.
    Eu que já tenho uns anitos ainda me recordo dos tempos em que não havia estas "modernices", TVs, Rádios, Cinemas, Teleles, etc, e daí recordar os "ajuntamentos" solheiros das esfolhadas anuais em busca do Milho Rei.
    Era a altura em que as "MULHERES DO SOLHEIRO" se dedicavam á intriga e maldicência da aldeia.

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  6. Se precisar de um electricista, recomendo-lhe o André Ventura, se não precisar de nada, o Montenegro. 

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  7. Palavras sábias em tempo oportuno 


    O problema é que os canais de comunicação social são muitos e há que usar toda a palha disponivel para entreter as massas consumidoras o sangue e a desgraça são muito apelativos sempre


    Claro que há  um bom remédio mudar de canal sempre que  a informação útil passar para opiniões inúteis e prejudiciais


    O medo induzido pela comunicação social sobre os fenómenos agrestes da natureza e a elevação do papá Estado a protector omnipresente pelos comentadores e diga-se também por políticos chico espertos talvez um dia leve os votantes da democracia a quererem um Estado totalitário 

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  8. HPS, como de costume está cheio de razão e é uma voz de bom senso. Mas há outro vero da medalha.
    Falando da Protecção Civil, todos se lembram que António Costa nomeou um coronel seu amigo pessoal. O disparate era evidente, pois em casos extremos a Protecção Civil teria competência que a punham a coordenar forças militares de comando de oficial general. Adivinha-se que as restantes nomeações intermédias, fossem por critérios semelhantes. O que é certo é que se fez uma profunda alteração no início da época dos fogos e o resultado foi visível em Pedrógão mas, também noutros lados. Outro exemplo nesse ano foi o tremendo falhanço do SIRESP.
    Hoje, na Kristin, mais de 8 anos depois, problemas entre protecção civil e bombeiros continuam, o exército demorou muito tempo a acorrer a Leiria e o SIRESP, em resposta a pergunta que fiz à IA "

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