Chamaram-me a atenção para o facto de haver uma dissociação relevante entre o que se decide enquanto eleitor e o que se decide enquanto consumidor, isto é, votamos a favor de mais direitos para os trabalhadores, mais regulamentação ambiental, comércio mais justo, mas compramos na loja do chinês que é mais barato.
Achei esta ideia muito útil para voltar a discutir a utilidade de esperar o comboio na paragem do autocarro.
Lembremos o contexto: fiz um post que é uma crónica de uma consulta médica, crónica essa que se centra no efeito que pode ter o sub-investimento no suporte informático na produtividade de um médico, lembrando eu que num sistema que não é orientado para o lucro e para a eficiência de processos que o optimiza, é mais provável que as decisões dos gestores sejam sub-óptimas para médico e doente, porque na verdade os gestores estão a responder a incentivos que apontam para a eficiência na captação de eleitores ou, pelo menos, de favor mediático.
Sem surpresa, as principais críticas ao que escrevi dividem-se em duas posições ideológicas que não acrescentam nada ao que escrevi.
Uns acham que estou a falar do mau atendimento proporcionado pelos serviços do Estado para justificar as suas tinetas de que tudo o que se faz no Estado é inútil e errado.
Outros contestam uma simples constatação dos efeitos do desfasamento entre interesses de utilizadores de um serviço e decisores de alocação de recursos como um ataque ao Estado, recorrendo à habitual falácia de apontar os problemas que existem nos mercados como demonstração de que o melhor é estatizar a interacção entre as pessoas (a economia é só isso, interacção entre pessoas) como forma de optimizar resultados sociais, porque os mercados não são perfeitos, sem perderem um segundo na demonstração de que, em geral, o Estado toma decisões mais eficientes na alocação de recursos que os mercados.
É aqui que me parece útil retomar a ideia de que tratamos o voto e a compra de forma diferente, não porque somos hipócritas, mas porque o voto não tem custos, no sentido em que não é evidente que dispor dos meus recursos eleitorais para apoiar A implica restrições em B, mas a compra implica sempre uma escolha de afectação de recursos que facilmente reconhece que essa escolha implica restrições decorrentes de outra escolha potencial.
A legislação laboral, em que optar por segurança para o trabalhador pode significar rigidez para o empresário, acabando os dois prejudicados, ou as opções de saúde, em que recusar a lógica do lucro pode significar afectação ineficiente dos recursos disponíveis, acabando toda a gente prejudicada (é extraordinária a forma infantil como a demonstração feita pelas PPP tem sido tratada pela imprensa ao ponto de António Costa achar boa ideia acabar com elas, sabendo perfeitamente que estava a prejudicar doentes e profissionais de saúde para ganhar o apoio da esquerda radical que lhe fazia falta para formar a coligação de perdedores de eleições que apoiaria um governo seu), são bons exemplos de como o abandono do reconhecimento da eficiência na alocação dos recursos induzida pelo interesse do investidor pode levar os eleitores a fazer escolhas com elevado potencial de prejuízo próprio, de que manifestamente não têm consciência.
Ao contrário do que acontece na decisão de compra, em que a opção pelo mais barato, ou por outro critério qualquer de compra, implica uma clara consciência de que os recursos gastos na primeira compra deixam de estar disponíveis para outra compra.
só em ideologias baseadas em Marx se subdivide o estado em público e privado e entre patronato e trabalhador. sindicatos com 7,2 % de sindicalizados continuam a pensar como no tempo dos 'sovietes'. para eles o 'mercado' existe somente para futebolistas. esquecem que a concertação social foi implementada por Benito Mussolini. devem ler os diários de Ciano, seu genro. o futuro ainda acaba em nova «República de Saló».
ResponderEliminar"La vida humana se reduce al verdadero padecimiento, al infierno, sólo cuando se superponen dos eras, dos culturas y religiones... Hay épocas en las que una generación íntegra queda así atrapada entre dos eras, dos formas de vida, y, en consecuencia, pierde toda facultad de entenderse a sí misma y no tiene ninguna pauta, ninguna seguridad, ningún simple asenso."
ResponderEliminarHermann Hesse: El lobo estepario
ResponderEliminarEsqueça, nem todos são capazes de, tal como o hps, escrever textos livres de amarras ideológicas. E quando se faz um post assertivo e irrefutável como o indicado, a única resposta possível é refutação ideológica, que nada traz de novo nem lhe tira a total razão no que escreve.
Excelente texto
ResponderEliminarIrrefutável
As pessoas dizem defender a solidariedade e os valores cristãos, mas regem-se exclusivamente (tirando os santos) pelos seus interesses privados. Portanto a sociedade, e o Estado, devem implementar essa linha de pensamento e não divagar por ideologias utópicas.
Só para eu perceber melhor o comentário: pode dizer-me onde lê esse "exclusivamente" no texto?
ResponderEliminarÉ indesmentível que a
ResponderEliminarO privado é que é bom.
ResponderEliminar"El País
Sugestão de leitura: /leiturasimprovaveis.blogs.sapo.pt/vida-moderna-229525
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ResponderEliminarpara eles o 'mercado' existe somente para futebolistas
Ora nem, muito bem observado.
Sob muitos pontos de vista, o futebol é um dos setores mais liberais da sociedade. É uma atividade económica na qual se premeia o mérito e na qual não há limitações impostas pelo Estado à imigração.
Não percebi, a sua opção de insistir no "o privado é que é bom" decorre de não conseguir interpretar um texto simples ou, percebendo o que está escrito, quer mesmo fingir que o que está escrito é isso para poder introduzir a propaganda do seu blog e do PSOE?
ResponderEliminarA "informação" do esfregão sanchista deve ser tratada com pinças...
ResponderEliminarQuanto à histérica garcia, é um caso perdido de tentativa de vingança face a Isabel Diaz Ayuso , em resultado das derrotas consecutivas, e pungentes, na Assembleia de Madrid.
Juromenha
Package salarial de um médico no privado = Base + Comissão por consulta/operação + Comissão por exames prescritos
ResponderEliminarExiste um claro incentivo a operar e consultar e a prescrever, nem sempre coincidente com o interesse do doente - que deveria ser o norte da conduta profissional do médico
O privado, e as soluções mistas, PPP, serão boas, tal como o Estado, se existirem mecanismos de controle interno, se forem bem geridos. Senão é o Texas, salve-se quem puder
No caso da notícia em apreço, trata-se de um caso clássico de eu_fico_com_ a_carne_tu_com_os_ossos. Posso obter um comentário seu ao caso?
Não idolatro nem o Estado nem o mercado.
Acho é que existe muito a melhorar, quer num, quer noutro.
Boas Leituras
PS: Aproveito para fazer publicidade desta tirada épica, com a qual concordo, desde que a tutela tutele: https://leiturasimprovaveis.blogs.sapo.pt/lapso-de-comunicacao-79079
E desta outra, em jeito de contraditório: https://leiturasimprovaveis.blogs.sapo.pt/vida-moderna-229525
Last, but not least, uma sugestão de leitura de Vasco Pulido Valente no Público: https://www.penguin.co.uk/books/181796/what-money-cant-buy-by-sandel-michael-j/9780241954485
E a concorrência obedece a regras muitíssimo claras e conhecidas, decorrendo o jogo á vista de todos, fiscalizado em directo e em permanência por vigilantes ( árbitros ) qualificados e o resultado é medido em golos marcados.
ResponderEliminarSe se pode falar de um paradigma da concorrência o futebol estará certamente á cabeça da lista.
Um bom exemplo com a assinatura e selo de garantia do El País atestando, sem prejuízo das possíveis excepções existentes, a excelência e qualidade do privado: há "pasta" há cura, não há vá o doente dar uma volta ao bilhar grande.
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ResponderEliminaro público é que é bom
Ide para Cuba, lá só há saúde pública.
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ResponderEliminarContinuando as analogias desportivas, as ligas profissionais americanas são altamente reguladas. A nível salarial e não só. Num país em que qualquer tipo de regulação é visto como socialismo, como se explica este pardoxo?
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ResponderEliminarÉ óbvio que a mania americana de associar Regulação com Socialismo é paranóia.
No caso presente a Regulação é indispensável á ordem e está á coesão.
Creio que o chamado Paradoxo da Liberdade (Limitar para Preservar) se aplica aqui.
ResponderEliminaras ligas profissionais americanas são altamente reguladas. como se explica este paradoxo?
Em geral, numa economia de mercado há uma tendência natural para o monopólio. Um concorrente que é superior (por qualquer motivo) aos outros ganha cada vez mais consumidores e torna-se mais poderoso financeiramente, acabando por eliminar os concorrentes.
Não se deseja que tal ocorra numa competição desportiva. Para que esta competição mantenha o seu interesse, que decorre de não haver vencedores antecipados, procura-se nas ligas americanas garantir que todos os concorrentes estão mais ou menos nivelados na sua capacidade financeira.
Ou seja, pretende-se que a competição desportiva não ocorra com as regras da competição económica.
ResponderEliminarO privado, e as soluções mistas, PPP, serão boas, tal como o Estado, se existirem mecanismos de controle interno
Exatamente.
Quer a gestão seja estatal, quer seja privada, no setor da saúde é sempre necessário haver controles, caso contrário os gastos rapidamente se tornam incomportáveis, porque os médicos têm incentivos para prescrever um número infindo de exames e tratamentos, que o doente aceitará acriticamente, uma vez que não sabe se eles são de facto necessários e adequados ou não, tornando-se o custo de todos esses exames e tratamentos enorme.
Enquanto que num outro setor qualquer é o próprio consumidor quem decide se é ou não razoável efetuar um certo gasto para obter um certo produto ou serviço, no setor da saúde o doente não faz ideia sobre quais os exames e tratamentos que são necessários e razoáveis, e quais não são.
Zelotas, vigaristas, corruptos, gananciosos, gente sem moral nem escrúpulos nem estômago existem quer no público quer no privado.
ResponderEliminarUma sociedade obdiente a critérios exclusivamente financeiros é uma sociedade doente.
Uma espécie de patologia psiquiátrica socialmente aceite, pois todos sonham em ser incomensuravelmente mais ricos que o vizinho.
Como sempre, no meio está a virtude.
Não embandeire em arco nem com o estado nem com o mercado. Proponha soluções intermédias que funcionem. Caso a caso.
Para isso, precisamos tanto de cidadãos como de consumidores.
Educados e informados.
Com literacia (financeira e outras) para cumprir um papel consentâneo com os seus interesses.
E, se possível, não dogmáticos, com capacidade de ouvir e pensar pela própria cabeça.
Em vez de irem atrás de uma qualquer k7...
Parece fácil, mas não é díficil...
Experimente, vai ver que gosta
Parabéns por este texto.
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