Esta tolice é das mais repetidas pelos estatistas que insistem que tem de ser o Estado a resolver os problemas de habitação que existem.
Comecemos pelo mais básico de tudo: o Estado, em Portugal, é responsável por 2% da habitação, o mercado por 98%, portanto, nestas circunstâncias, dizer que o mercado falhou, parece-me simples idiotia.
Note-se que, mesmo no que diz respeito a habitação social, o mercado é responsável por cerca de 3% da habitação social que o Estado, por via repressiva, impõe aos senhorios que assegurem, através de uma lei de arrendamento iníqua.
Refira-se ainda que mesmo em países em que o Estado é responsável por bem mais que 2% da habitação, os problemas de acesso à habitação subsistem, vejam-se os exemplos de Amesterdão ou de Estocolmo, neste último caso, o tempo de espera por uma casa é superior a dez anos.
Dir-se-á, com razão parcial, que o mercado actual, em Portugal, não está a dar resposta à forte procura que existe fora dos segmentos médio/ alto, alto e de luxo.
A pergunta central que se deve pôr é a seguinte: havendo, como há, uma forte procura de habitação nos segmentos médio, médio/ baixo, baixo e mesmo social, por que razão não há um caixa de supermercado jeitoso que arrisque construir para esses segmentos, com margens mínimas, mas ainda assim abrindo a possibilidade de um futuro mais risonho que a carreira que o espera no supermercado?
Primeira hipótese, o jeitoso não tem qualificações que lhe permitam meter-se nesse negócio. É uma hipótese sem interesse nenhum porque qualquer pessoa, com quaisquer qualificações, consegue produzir um quarto a mais na sua casa para alugar e ajeitar o seu rendimento ao fim do mês. Não o faz, legalmente (ainda gostava de saber quantas das casas estatisticamente devolutas correspondem a casas em pleno uso no mercado informal), porque a regulamentação sobre a matéria não lhe permite disponibilizar um quarto em condições sub-óptimas mas, ainda assim, melhores que a que o potencial inquilino tem neste momento, seja na rua, seja em casas superlotadas que alugam camas ilegalmente, seja na famosa história de se dormir na bagageira do Uber fora das horas de serviço (história que não sei se existe, o que sei que existe é que o senhor de uma das mercearias perto de minha casa vive com a mulher e dois filhos dentro da mercearia, em condições que, evidentemente, a lei proíbe).
Segunda hipótese, não tem capital para investir. Hipótese mais séria que a primeira, mas não só o crédito é relativamente fácil (bem sei que é mais fácil para os ricos que para os pobres mas, de uma maneira ou de outra, apesar de tudo é relativamente fácil) como, tivesse ele uma nesga de terreno, poderia ir fazendo uma barraca que venderia e lhe permitiria fazer outra melhor, que venderia, e depois uma casa modesta, que venderia, etc.. Não o pode fazer legalmente porque a lei o impede de construir coisas que, não sendo o óptimo, seriam melhores que as condições actuais em que dormem os potenciais compradores (ou inquilinos), para além de lhe exigir um processo kafkiano de licenciamento para o qual ele não está preparado.
Terceira hipótese, não tem a tal nesga de terreno porque não consegue aceder a terrenos onde se possa fazer uma coisa qualquer. Sim, essa é uma parte relevante do problema, mas quem cria a escassez de terrenos é o Estado ao expropriar o direito de construção na minha propriedade, impedindo os mais pobres de aceder a terrenos piores, com problemas, onde possam fazer um tugúrio qualquer que possam melhorar com o tempo, não é o mercado que não consegue responder a esta procura, é o Estado que ao impor critérios de construção e qualidade mínimos, deixa de fora todos os que, por uma razão ou por outra, não têm recursos para fazer, arrendar ou comprar alguma coisa que melhore as suas condições actuais, até que tenham outras condições para mudar para melhor.
Poderia estar aqui a desfiar hipóteses, umas atrás das outras, mas todas elas se podem reduzir a uma ideia chave: o mercado não responde à procura de segmentos mais baixos, porque é um mau negócio construir para esses segmentos.
E é um mau negócio porque o Estado impõe condições de construção que obrigam a custos elevados, tendo destruído o mercado de arrendamento (e sem vontade de o liberalizar, dar liberdade contratual e ser o garante do cumprimento dos contratos livremente estabelecidos), impôs a escassez dos terrenos onde se pode construir, regulamentando a construção de modo a tornar impossível a existência de construção barata (regulamentando áreas, infraestruturação, eficiência energética, etc., etc, etc..) e taxando sofregamente a actividade.
Não, não é o mercado a falhar, o mercado está a funcionar razoavelmente, dentro dos estreitos limites que o Estado impõe, de que resulta a resposta padrão do mercado, orientada para os segmentos que podem pagar o cumprimento de todas as restrições que o Estado resolve inventar.
Substituir o investimento privado pelo investimento do Estado no sector, mantendo o contexto (o que não é seguro, como se sabe, o Estado tende a fazer para ele regras que não são válidas para as pessoas comuns), apenas vai agravar o problema porque o Estado não costuma ser mais eficiente que os privados na produção de bens e serviços.
Se tiverem dúvidas, é olhar para a gestão dos bairros sociais, em que mesmo com rendas de menos de vinte euros, o grau de incumprimento dos inquilinos é brutal e a degradação é a norma, porque os recursos gerados não pagam, sequer, a depreciação do capital.
como escreveu Políbio, dizia um construtor impedido de exercer a profissão pelos entraves burocráticos 'quando, como e porquê' não acaba esta bosta chamada estado. poderia ter dito em latim
ResponderEliminarPor definição, o mercado nunca falha. Apresenta um determinado resultado.
ResponderEliminarDevemos interrogar-nos sobre como esse resultado impele para fora dos grandes centros urbanos as classes média/baixa que não consegue aceder a um bem essencial, a habitação, sem ficar com o futuro penhorado para o resto dos seus dias.
Com a inflação dos valores da habitação e terrenos quem é que no privado arriscará a construir habitação para as classes menos financeiramente capazes?
Agrada-nos uma visão distópica do futuro da habitação? https://leiturasimprovaveis.blogs.sapo.pt/admiravel-mundo-novo-54483
Não há pão? Comam brioche. https://open.spotify.com/track/3yiWceGwbyf3NO744LZGA6
Continuo sem perceber o que é que o Henrique advoga para resolver este nó górdio chamado habitação. Que tal não diabolizar nem o Estado nem o mercado e tentar arranjar uma solução mista que funcione?
Boas leituras
Boas Leituras
Não percebo a sua dúvida: liberalização do mercado de arrendamento, liberalização da possibilidade de construir em propriedade própria e redução da regulamentação aplicável ao sector.
ResponderEliminarEstou farto de escrever que é isto que defendo.
O Estado quando quer produz Bens e Serviços de muitíssimo qualidade.
ResponderEliminarO Serviço Nacional de Saúde, apesar da lamuriece constante da Comunicação Social, é uma referência, funciona impecávelmente. Perguntem a quem já passou por ele.
As Forças Armadas, judiciárias, de Segurança e Proteção Civil, sempre mostraram estar á altura, merecem todo o crédito e são dignos mo maior elogio.
Neste tipo de bens o Estado costuma andar muito bem. Se nos outros tal não acontece, seria interessante tentar encontrar as razões e estudar os porquês.
ResponderEliminarEu tenho passado e estou a passar por ele, no tratamento de uma doença grave. Confirmo: funciona, não impecavelmente, mas em todo o caso bastante bem.
ResponderEliminarExcelente post.
Já agora eu sugeriria que, dado o facto de, fora dos maiores centros urbanos, muitas pessoas viverem em moradias sobredimensionadas para quem nelas atualmente reside, há ampla possibilidade de particulares que o queiram subdividirem as suas casas por forma a poderem arrendar partes delas. O Estado não pode interferir em tal atividade, pois qualquer um é livre de, desde que não altere a fachada exterior da casa, fazer dentro dela as obras de adaptação que queira.
Quando deixar de existir, porque vai deixar de existir (os ventos de oeste não toleram socialismos, como saúde universal ou ensino gratuito), se calhar alguns vão dar-lhe o devido valor.
ResponderEliminarNinguém está interessado em construir prédios, destinados ao arrendamento, porque, desde 1970/72, alguém chegou à conclusão, que construir para vender, o lucro, a haver(também houve algumas falências), seria muito superior, se o prédio fosse para arrendar. . Ninguém é obrigado a exercer uma actividade, do modo que não quer. Naqueles anos de 1970, até os senhorios começaram a vender os seus andares aos inquilinos, que, por sua vez, revenderam. E o andar que, depois, adquiram, não foi de arrendamento. A partir destes anos, o mercado de arrendamento parou, quase por completo. Escreve quem viveu e vive estas situações, por razões profissionais e familiares. Poderia haver uma ou outra solução, a longo prazo, mas, além de não temos cultura para isso, o problema é de agora.
ResponderEliminarExcelente texto
ResponderEliminarMenos regulação e mais mercado livre. Basta isto
Também aplicável a saúde e educação
Inteiramente de acordo que em deixando de existir, muito se choraria, sobre o leite derramado, e isto inclui os que agora, desvalorizam.
ResponderEliminarNão acredito é que deixem de existir pela simples razão que são bens sociais de primeira, e de grande qualidade.
Toda a gente o sabe e todos o reconhecem.
Também sei que o apetite é muito e que "a fome aguça o engenho".
Mas sei igualmente que as pessoas não são idiotas chapadas e sabem muito bem o que é o conto do vigário.
Mesmo quando vem embrulhado em paleio finório.
ResponderEliminar""
'Monsieur Lapalisse'... disse.
Infelizmente o "Economez" não faz parte da da Escola... Primária!
Eu já passei e estou a passar e devo dizer que o serviço tem funcionado de forma exemplar, concretamente no H. Sto António
ResponderEliminarO Estado não é nem nunca foi um bom gestor. Nem sequer gestor é! Vejam todas as empresas do estado, todas sem excepção. Há alguma que não esteja falida? Há alguma que não precise de dinheiro dos contribuintes, ano após ano desde o 25/4/1974? Pois vejam bem todos os organismos públicos, vejam bem empresas como a TAP que paga ordenados ao nível do Luxemburgo e Suiça, mas todos os anos dá prejuizos e claro todos nós pagamos. Um modesto mecânico na TAP tem direito a levar a família toda de férias, uma vez por ano para o país que bem quiser, mas dá prejuizo! Amigos, rasguem a constituição, façam tudo de novo e talvez um dia as coisas mudem. Como este excelente texto nos fala sobre habitação e expoliação de propriedades privadas directa ou indirectamente não deixando os seus proprietários fazerem o que querem. É na constituição, que está escrito o fim da iniciativa privada, as ocupações selvagens e tudo o resto que os Portugueses conheçem muito bem!
ResponderEliminarComo há aumento da procura?
ResponderEliminarMuita emigração, saldo natural negativo, imigração não há porque ninguém quer ir para um país socialista. A matemática não bate certo.
É a única solução.
ResponderEliminarA aplicar na Europa
Deixará de existir porque é um sector apetecível financeiramente, embora caro de manter numa base transversal.
ResponderEliminarQuem acedeu a cuidados saúde privados em circunstâncias como gravidez de risco ou cancro sabe como é quando o custo ou o risco aumentam. Apenas um sector não virado para o lucro pode dar essa cobertura. É o que é, cabe às sociedades escolherem ou não o modelo. A decadência de serviços públicos simultaneamente ao crescimento da oferta privada será mera coincidência, ou o mercado a ver a oportunidade, ou outra teoria conspirativa qualquer
Claro que é o mercado a ver a oportunidade.
ResponderEliminarOs seguros já a viram há muito tempo e mandaram-se de cabeça.
É bonito, mas tem um pequeno inconveniente; quando se atinge o limite do contrato, vai o tratamento á viola.
E lá vai a vítima apelar aos bons ofícios do SNS.
E uma pessoa pergunta-se se não seria melhor acabar os rendilhados e berloquices e passar a um sistema único; Sistema Nacional de Saúde ?!
Simples, eficaz e bacteriológicamente (1) puro.
(1) - bacteriológicamente no sentido da bactéria dos interesses, que como é sabido é uma bicha multirresistente, insidiosa, encontra-se em tudo o que cheire a milho frito, e ataca preferencialmente as zonas do cérebro que pensam em euros.
Amigo Orlando, o Estado é tão bom ou mau gestor, como o sector privado. Entram tantas pessoas e documentos nos serviços públicos, que têm de ser tratados, que nem o dobro dos funcionários públicos seriam suficientes. Há uma quinzena de anos, já se sabe que quantidade de serviço existe pendente(antes não se sabia), mas nenhum documento ou processo desaparece. No sector privado, é pior. Os documentos não desaparecem, porque não chegam a ser processados entre empresários. Por exemplo. Quantas compras e vendas de mercadorias, que são transacionadas, em que não existe uma fatura? O inventário de mercadorias, constante da contabilidade, corresponde ás efetivamente existentes? Que empresário quer uma contabilidade, seriamente, organizada?. Que montantes em dinheiro são retirados das empresas, para fins que não têm nada a ver com a atividade?. Os resultados dos exercícios constantes das contabilidades são uma farsa. O Estado perde milhões. O Estado é mau gestor, porque as hierarquias estão demasiadamente fragmentadas. O sector privado é mau gestor, porque não lhe convém. O BES foi o expoente máximo de má gestão no sector privado. Para nós, era inimaginável.
ResponderEliminarO camarada chegou ontem de Marte, está-se mesmo a ver...
ResponderEliminarConcordo consigo no que toca á gestão aos tombos em muitas empresas públicas.
ResponderEliminarDeve-se perguntar no entanto, se isso é uma fatalidade, acidente ou destino ??!!
Salta á visita que no privado se o gestar argolar, vai dar uma curva e amigos como dantes.
Já no público o amigo é promovido, com o potencial de ir fazer estrago a um nível superior.
Haverá remédio para este tipo de situações ?
Não sei, francamente !!
Mas é óbvio que há países onde é evidente que as coisas funcionam melhor.
Seria interessante era saber se um método que resulta, por exemplo na Suiça, resultaria igualmente, em Portugal ??
Só vejo uma saída para Portugal. A mesma que foi encontrada após a 1ª República, onde tudo estava um caos, como agora, onde tudo era uma bandalheira, como agora. Só houve uma saída, PULSO DE FERRO! Poderia dar vários nomes muito bons, mas para ser actual, poderia ser por exemplo um Milei ou a 1ª Ministra Italiana!
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