quinta-feira, 3 de abril de 2025

Bem lembrado

"Na terceira ronda de perguntas dos cidadãos, de um total de seis com a participação de um total de 51 pessoas, Ana Jara, vereadora da Câmara de Lisboa eleita pela CDU, questionou o painel: “Como é que chegámos aqui com tanta reivindicação dos cidadãos?” A autarca aproveitou para recordar outros movimentos públicos do passado, que fizeram derrubar projetos na Tapada das Necessidades".


Não faço ideia se a descrição que o Observador faz da sessão de ontem sobre jacarandás é exacta ou não.


Não quero perder tempo com os perigosos maluquinhos que defendem que as árvores morram de pé em arruamentos urbanos. O nível de ignorância e estupidez absurda desta ideia é inacreditável, e nem mesmo uma tempestade recente parece fazer com que quem defende isto deixe que os factos influenciem as suas ideias, já que não acredito que alguém, conscientemente, esteja a defender o risco de morte que está associado a esta filosofia de gestão de arvoredo urbano.


Nem quero fazer um comentário irónico sobre jacarandás centenários que mais adequadamente deveriam estar no Entroncamento, já que a vida média das árvores desta espécie é metade de um século. Claro que pode haver árvores mais velhas, mas não é com certeza com os maus tratos que sofrem as árvores de arruamento que se vai muito para lá do tempo de vida médio da espécie.


E muito menos tenciono explicar que, independentemente da vontade de todos nós, estas árvores morrerão dentro de alguns anos, o que significa que vamos ter de as substituir mais cedo que tarde.


Tudo isso são questões técnicas que os gestores do arvoredo urbano de qualquer cidade conhecem bem, porque passam a vida a tentar encontrar o melhor equilíbrio entre ter árvores na sua plenitude e reduzir os riscos para pessoas e bens que decorrem da sua velhice.


O que me interessa nesta citação da peça do Observador é a referência da senhora vereadora à travagem de projectos por pressão popular, dando como exemplo a Tapada das Necessidades (o outro exemplo, do Martim Moniz, também é catita).


Duvido que a senhora vereadora tenha ido à Tapada das Necessidades nos últimos tempos, bem como os jornalistas que correm atrás destes lutadores que derrubam projectos.


É que a Tapada das Necessidades é um excelente exemplo de como derrubar um projecto é, muitas vezes, como travar um fogo controlado: o que daí resulta não é o paraíso, é a degradação do espaço.


Qualquer político que queira ganhar eleições pensa duas vezes em tomar qualquer decisão, sabe perfeitamente que não tomar decisões tem um risco marginal, mas tomar uma decisão, qualquer que ela seja, significa dividir.


E os jornalistas estarão sempre do lado da indignação, enquanto ela dura, e depois passam para a indignação seguinte, e depois para a outra, e depois ainda para outra, raramente voltando para trás para perguntar à senhora vereadora: parabéns, derrubou o projecto da Tapada das Necessidades, mas afinal o que resultou de positivo para as pessoas dessa sua vitória?


Se não sabem a resposta, aproveitem os dias de vento Leste a partir de Segunda Feira, que costumam ser dias de Sol lindos, para dar um salto à Tapada das Necessidades, no intervalo das manifestações sobre jacarandás, pode ser que percebam que derrubar projectos, em si, pode ser simplesmente a opção pela lenta e continuada corrosão da qualidade do espaço público.

7 comentários:

  1. Curiosamente, estes jacarandás da 5 de Outubro que estão a chegar a um século de existência, aguentaram bem o impacte da tempestade Martinho. Em relação à Tapada das Necessidades, conheço bem e não entendo o seu descontentamento: a Tapada seria concessionada e os acessos seriam muito condicionados pelo concessionário Banana Café Emporium. Para ter uma pequena ideia veja-se o que se passa na Doca da Marinha com espaços concessionados a essa mesma empresa que ocupa o espaço público com mil e um eventos, proibindo o acesso e cobrando bilhete para entrar num espaço que foi reabilitado com a promessa de estar a abrir esse espaço à população. Mais recentemente foi também feito, de forma tosca e ilegal quanto a mim, um parque de estacionamento para servir os comensais do restaurante Àcosta.

    ResponderEliminar
  2. Uma árvore meramente decorativa, e não nativa. A motosserra do Musk aplica-se.

    ResponderEliminar
  3. Se bem percebo o seu comentário, há muito tempo que não vai à Tapada das Necessidades

    ResponderEliminar
  4. Em qualquer caso, estamos a falar de dez anos perdidos, na Tapada das Necessidades.
    É como o túnel do Marquês: ele existe, mas demorou muito mais tempo e ficou muito mais caro.

    ResponderEliminar




  5. Exatamente.


    Uma coisa que eu aprendi à minha custa é que é precisamente quando as árvores estão grandes e frondosas que o risco de serem derrubadas por uma tempestade é maior. Numa plantação de choupos minha, há uns anos, numa grande tempestade todas as árvores maturas foram arrancadas pela raiz, o que me causou enorme prejuízo, enquanto que árvores um bocado menos crescidas se mantiveram incólumes.


    São precisamente as árvores que parecem mais grandes, bonitas e que dão mais sombra que têm maior risco de serem arrancadas pelo vento, destruindo o que esteja na rua à volta delas.

    ResponderEliminar

  6. estes jacarandás da 5 de Outubro aguentaram bem o impacte da tempestade Martinho


    É verdade. O problema é que poderão não aguentar a próxima tempestade. Algum dia deixarão de aguentar. E quando não aguentarem, alguma coisa será destruída pela sua queda.

    ResponderEliminar
  7. Coitado deste pobre zelota. Um dia destes um político qualquer da cor política do zelota é apanhado a furtar umas bananas no super. Qual a interpretação do gamanço? A culpa é do supermercado. 

    ResponderEliminar

No centenário da "Revolução Nacional"

  Em 1915, um obscuro periódico provinciano, " Os Ridículos ", preconizava acerca da República, que dizia encontrar-se « no seu es...