sexta-feira, 20 de dezembro de 2024

Preparados para um milagre?

Supper_at_Emmaus_by_Caravaggio.jpg


Curiosa é a passagem do Evangelho (Lc 24) quando dois discípulos, após a crucificação, seguiam desolados para Emaús, e Jesus, sem que eles O reconhecessem se acercou indagando sobre o que conversavam. Estranhamente cegos, retorquiram-Lhe: «Serás Tu o único forasteiro em Jerusalém a não saber o que lá aconteceu nestes dias?» Contaram-Lhe então eles o que houvera acontecido três dias antes em Jerusalém, como estavam desiludidos com o desenrolar dos acontecimentos: “Nós esperávamos que fosse Ele quem estava prestes a resgatar Israel, mas, com tudo isto, já lá vai o terceiro dia desde que estas coisas aconteceram”. O facto é que só no fim do estranho encontro, acabam depois da ceia partilhada, por reconhecer um ao outro: «Não nos ardia o nosso coração quando Ele no caminho nos falava, quando nos abria as Escrituras?». Quando se reuniram com os restantes apóstolos logo relataram o espantoso encontro com o Salvador.


Vem isto a propósito do Natal que se aproxima, e que nos desafia a sairmos do “capacete”. Mais que as ingratas e inevitáveis rotinas mundanas, são as nossas limitações humanas que se impõe na percepção do Mundo, reduzindo-o à nossa (de cada um) precária inteligência. A história do Natal, do filho de Deus omnipotente que escolhe uma manjedoura para vir ao mundo é um alerta para a armadilha fatal do cinismo, que resulta dessa visão míope, para mais limitada a um minúsculo ponto de vista, da realidade.


Daí que nos seja tão difícil detectar os milagres que acontecem na nossa vida, dispormo-nos a uma perspetiva que se eleve das contingências e subjectivas sensações de cada momento. Foi essa disposição que os peregrinos de Emaús encontraram, e dessa forma lhes permitiu ser testemunhas do milagre anunciado pelas escrituras. A chegada do Messias para nos salvar, sofrendo e tomando a forma humana, para alcançar a Glória para nós, sua criação.


Paz na terra aos homens de Boa Vontade, que não deixem escapar o milagre do Natal que se aproxima. A alternativa não faz qualquer sentido.


Imagem: Caravaggio, 1601 - Óleo sobre tela, Galeria Nacional de Londres

4 comentários:


  1. A história do Natal, do filho de Deus omnipotente que escolhe uma manjedoura para vir ao mundo


    É curioso que essa história da manjedoura, tão famosa, não se encontra, ao que parece, em nenhum dos quatro evangelhos canónicos.


    (O João Távora, que conhece esses evangelhos muitíssimo melhor do que eu, pode confirmar ou infirmar esta minha asserção.)


    Ao que parece, a história da manjedoura provém de um evangelho apócrifo, sobre a infância de Jesus, o qual não é reconhecido pela Igreja Católica. Não é uma história, em suma, na qual os cristãos devam acreditar.

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  2. Muito agradecido pela Boa Notícia, em  tempos que só nos dão más.
    Não poderíamos ter outra melhor.

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  3. Tem razão. A história que está no evangelho apócrifo não é a da manjedoura, é a de Jesus ter nascido numa gruta, ladeado por um boi e um burro.

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