sexta-feira, 20 de dezembro de 2024

Jorge Paiva

jorge paiva.jpg


Como qualquer pessoa que tenha alguma vez tido qualquer relação com o sector da conservação da natureza, sei quem é Jorge Paiva.


Para os outros, faço uma apresentação.


Jorge Paiva é uma referência incontornável do movimento ambientalista em Portugal, reverenciado por quase toda a gente ligada ao meio, um excelente comunicador, com uma energia inesgotável e uma pessoa encantadora no trato pessoal.


Cientificamente é um botânico, um sistemata, especializado em taxonomia, em especial na taxonomia da vegetação tropical, campo em que o seu trabalho é reconhecido por toda a gente (tanto quanto sei, não é o meu campo de trabalho, portanto não tenho opinião própria sobre isso, mas nunca ouvi críticas, quer públicas, quer privadas, ao seu trabalho científico no domínio da taxonomia).


Em grande parte por via da sua ligação à Universidade de Coimbra, bem como à sua militância ambiental radical paralela a um encanto pessoal que se traduz numa capacidade de comunicação inexcedível, exerceu um grande influência nas gerações de ambientalistas mais novos, em especial nas que tinham qualquer ligação à vegetação, grandemente potenciada no caso dos seus alunos.


O postal acima, com que começo este post, é a 35ª materialização de um mais que público cartão de Boas Festas que, todos os anos desde os seus cinquenta e tal anos (Jorge Paiva chega relativamente tarde à exposição pública como militante da conservação da natureza), Jorge Paiva mandava a quem queria e tornava público, sempre centrado no património natural.


Sempre me fez confusão a quantidade de coisas pouco rigorosas que Jorge Paiva dizia sobre ecologia, evolução da paisagem, gestão florestal, incêndios e coisas que tais, de que é exemplo a frase absurda com que termina este postal: "para acabarmos com os piroverões, com o consequente aumento da área coberta do deserto rochoso nas nossas montanhas".


Só muito tarde percebi o que me fazia mais confusão: uma pessoa nascida em 1933, portanto com vinte anos em 1953, teria conhecido o Portugal dessa época e, portanto, saberia de experiência directa que o mundo rural em Portugal não era constituído por frondosa vegetação e que, daí para cá, Portugal tem aumentado extraordinariamente a cobertura vegetal do seu território, sendo completamente absurda a afirmação de que caminhamos para um "deserto rochoso" nas nossas montanhas.


A minha estranheza era tanta que, durante uns meses em que os dois apanhávamos o alfa das seis da manhã, ele para Coimbra, eu para o Porto, várias vezes fui conversar com Jorge Paiva, tendo até tido a ilusão de que seria útil dar-lhe um livro que eu tinha escrito sobre paisagem (ou seria a minha tese? não me lembro) para aumentar a sua informação sobre matérias que manifestamente estavam fora da sua área de conhecimento, mas sobre as quais tinha opiniões fortes e definitivas (infelizmente, erradas).


Só muito recentemente percebi que Jorge Paiva tinha nascido e sido criado numa fazenda de café em Angola, só tendo conhecido Portugal já em idade universitária, quando veio estudar para Coimbra, e durante anos concentrou-se na sua área de especialidade, a taxonomia das plantas, sendo por isso natural que a sua percepção da paisagem e da evolução da paisagem não incorporasse o conhecimento geral que qualquer agricultor ou pastor teria por essa altura, tanto mais que a ecologia, e outras disciplinas que vieram a ter peso muito mais tarde, não era ainda matéria de investigação académica generalizada, no início da sua carreira.


Infelizmente, em Portugal o debate público é muito paroquial, toda a gente se conhece, não havendo tradição de discordância clara com manutenção do respeito pessoal e intelectual entre os diferentes intervenientes de uma discussão, por isso a excelência científica de Jorge Paiva no campo da sistemática de plantas, o reconhecimento do seu perfil combativo e orientado pela sua ideia de bem comum, o seu evidente encanto pessoal, tornam impossível a crítica a tudo o resto que diz em matéria ambiental, em que a sua opinião, para todos efeitos, é a de um leigo.


E, como se vê pela última frase, um leigo muito mal informado que, aos 91 anos, verificando como as suas 2500 palestras não tiveram o efeito desejado, se afunda na desilusão da inutilidade do seu esforço porque, à sua volta, ninguém lhe diz que não, o problema não é a inutilidade do esforço, o problema é que sendo esse esforço meritório e tendo desencadeado imensos efeitos positivos em terceiros e na sociedade, foi seriamente limitado no seus efeitos porque se baseou numa visão do mundo que está longe de ter aderência à realidade.


Por mim, Professor, não vejo razão para essa desilusão, do fundo das nossas profundas divergências, tomara eu ser capaz de, nessa idade, poder apresentar o saldo de vida que o Professor apresenta.

5 comentários:

  1. Paiva queixa-se de ter sido um lírico irrealista, porém esse é usualmente o caso, pois os líricos tipicamente apaixonam-se por algo que tem muito pouca aderência à realidade. "Quem o feio ama, bonito lhe parece", como diz o ditado.

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  2. meu Avô conheceu Jorge Paiva no início de 50 por ser colega de seu Irmão Marcelino. viviam numa moradia na Arregaça. desistiu de namorar sua Irmã Amália.
    gosto do ambiente, mas nunca serei ambientalista: penso de acordo com os meus conhecimentos

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  3. Pelos vistos o homem é um militante bem-falante e bem relacionado na "alta" bolha lisboeta, da qual recebe(u) os maiores encómios. No entanto, parece não ter a mínima ideia do país do qual escreve/teoriza. Em suma, um inútil. Perfeitamente em linha com a bolha ...  

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  4. Conheci-o tarde (pessoalmente) mas assisti ao seu progressivo caminho versus a realidade social e economica da floresta portuguesa- Gostei de vê-lo gostar de ouvir opiniões diferentes das suas.
    Foi muitas vezes salutar concordarmos em discordar.
    Condenámos juntos o fitorracismo. Eu porque não acredito nisso como forma de resolver nenhum problema, ele porque tinha honra e orgulho em ser um… botânico!!!
    Feliz 2025, Professor!

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